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Golfinhos aprendem a ajudar pescadores ainda filhotes em cidade de SC

Jorge de Souza

20/01/2020 15h19

A cidade de Laguna, no litoral sul de Santa Catarina, é particularmente famosa pelo seu animado Carnaval. Além disso, teve papel histórico de peso: demarcou um dos extremos do histórico Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e Espanha no passado, e foi berço de Anita Garibaldi, mulher do revolucionário Giuseppe Garibaldi, com quem lutou pela independência do Sul do Brasil.

Mas o que realmente mais orgulha Laguna são os golfinhos (lá chamados de "botos") que habitam o canal que liga a cidade ao mar. E por um motivo especial: eles são os únicos do Brasil (e um dos poucos no mundo) que interagem intensivamente com os pescadores, ajudando-os a pescar.

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Como o fenômeno acontece

Quando os cardumes de peixes entram no canal, os botos os empurram para a margem, onde estão os pescadores com suas redes.

Em seguida, dão um sinal com o corpo para os pescadores e ficam aguardando os arremessos das tarrafas sobre os peixes, porque sabem que assim será bem mais fácil capturar um ou outro para eles próprios.

Com as redes vindo por cima e pelos lados, só resta aos peixes tentar fugir por baixo delas – justamente onde ficam os golfinhos.

Eles também penetram por baixo das redes, abocanham os peixes, giram o corpo e caem fora, antes que as tarrafas desçam totalmente.

A cada tarrafada, cada boto captura, ao menos, um peixe. E os pescadores, quase sempre, vários.

É um trabalho conjunto, solidário e extraordinário, porque os dois lados saem ganhando. No Brasil, o canal de Laguna é o único local onde o fenômeno acontece.

"Ninguém ensinou os botos a fazerem isso", explica o ex-pescador, hoje fotógrafo, Ronaldo Amboni, nascido e criado em Laguna. "Eles aprenderam sozinhos e foram passando essa técnica de pai para filho. Acho até que foram eles que nos ensinaram a pescar assim", brinca.

Patrimônio da cidade

Mesmo penetrando perigosamente debaixo das redes, nunca aconteceram acidentes com os botos de Laguna. Nenhum deles jamais ficou preso nas tarrafas dos pescadores, porque o sincronismo entre as duas partes é perfeito.

O trabalho de um depende do outro, e gera um formidável espetáculo de interação entre homens e animais, que há muito tempo virou a principal atração da cidade.

Anos atrás, os botos de Laguna foram declarados como Patrimônio Municipal. E passaram a ser protegidos por lei.

Hoje, imagens dos alegres cetáceos decoram quase tudo em Laguna e viraram símbolo informal da cidade.

Até polícia para os golfinhos

Recentemente, os golfinhos de Laguna também ganharam um movimento popular espontâneo na cidade, o Boto Vivo, que visa protegê-los ainda mais.

"Queremos que seja criada uma guarnição policial para cuidar especificamente dos botos, porque alguns deles ainda são vítimas de redes de espera, montadas por pescadores não conscientes. Eles armam as redes e vão dormir, sem levar em conta que os botos podem se enroscar nelas e morrerem afogados, já que, embora vivam na água, golfinhos são mamíferos e não peixes", diz Amboni, que é um dos mais atuantes membros do movimento, e até criou um site, que mostra, com as imagens em 360 graus, os locais que os animais frequentam na cidade.

"Não tem erro", diz o ex-pescador que virou fotógrafo. "Em Laguna, a qualquer hora do dia ou da noite dá para ver os golfinhos bem de perto", garante.

"Em Laguna, os "botos pescadores", como são chamados os golfinhos na cidade, formam uma colônia com cerca de 50 animais, de três grupos familiares, dos quais mais da metade interage diariamente com os pescadores, ajudando-os a encherem suas redes.

"A primeira lição que os filhotes recebem das mães é a de como 'trabalhar' com os pescadores, porque isso garantirá a alimentação deles", diz Amboni, frisando, no entanto, que os golfinhos de Laguna são animais totalmente livres, que vão para onde quiserem – mas preferem não sair dali, porque estão habituados a capturar peixes com a ajuda dos pescadores.

Eles avisam os pescadores

A estratégia de pesca dos golfinhos de Laguna muda conforme o dia.

Como são animais muito inteligentes e com grande capacidade de comunicação, eles combinam entre si como irão atacar os cardumes e avisam isso aos pescadores, através de movimentos na superfície.

Cada golfinho dá o aviso de maneira diferente e cabe aos pescadores interpretar os sinais e jogar a rede no instante certo.

Ao fazerem isso, produzem movimentos na água que mais parecem balés sincronizados.

E quando a sintonia é perfeita, o que geralmente acontece, é peixe na certa, tanto para eles quanto para os pescadores.

Em Laguna, ninguém precisa de parque aquático para ver um golfinho dando piruetas bem de perto. Por isso, viraram a principal atração da cidade.

O golfinho que ensinava o caminho

Os pescadores de Laguna conhecem todos os botos que frequentam as águas da cidade pelo nome e se referem a eles como velhos amigos.

"Tem o Borrachinha, que é filho do Borracha, que era filho do Tafarel, que era filho do Latinha, que foi um dos mais famosos daqui", diz um velho pescador da cidade. "Assim como os seus parentes, o Borrachinha é um bom pescador e pula fora d´água mais do que borracha, daí o seu nome".

Fama igual só a de um certo golfinho albino, que, no passado, fez história na região do Cabo Hateras, na costa leste dos Estados Unidos, onde também virou marca de tudo, porque guiava os barcos até o porto da cidade, ensinando aos marinheiros como desviar dos bancos de areia. Um comportamento tão espontâneo e curioso quanto o dos golfinhos pescadores de Laguna.

Fotos: Ronaldo Amboni

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

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