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31 anos depois, herói da tragédia do Bateau Mouche sofre com as lembranças

Jorge de Souza

30/12/2019 17h03

Mesmo hoje, 31 anos depois, o pescador carioca Jorge Souza Viana, de 60 anos, tem dificuldade em falar sobre certos detalhes da noite que marcaria sua vida para sempre: a do Réveillon de 1988.

Com seu pequeno barco de pesca, ele foi o primeiro a socorrer as vítimas do mais famoso naufrágio da história brasileira, o do Bateau Mouche IV. No último dia daquele ano, o barco que fazia passeios no Rio de Janeiro virou e afundou na saída da Baía de Guanabara, matando 55 das 142 pessoas a bordo.

Tem coisas que vi naquela noite que não gosto de recordar", diz Jorge, tentando desviar a conversa. "Prefiro lembrar das pessoas que ajudei a trazer para o meu barco", diz, com modéstia, já que, naquela trágica noite, ele foi o principal herói.

O mar estava revolto, mas Jorge, também conhecido como "Jorginho" na comunidade de pescadores de Jurujuba, em Niterói, estava acostumado a isso e resolveu levar a mulher, os dois filhos pequenos e mais meia dúzia de parentes para ver o show de fogos de artifício diante da praia de Copacabana.

O barco era pequeno, modesto e já estava com sua capacidade praticamente tomada pelos seus familiares. Mas nada disso fez com que Jorginho pensasse duas vezes na hora de se tornar a primeira pessoa a socorrer as vítimas do Bateau Mouche, abarrotando seu frágil barquinho com 31 sobreviventes.

Foto: Luiz Carlos David/Folhapress

"Eu avistei uma mancha branca no mar, estranhei e me aproximei. Quando vi que era um barco virado e que havia pessoas na água, gritei para a família ajudar. Comecei a jogar cordas no mar para elas se segurarem, enquanto puxava as que estavam mais perto", recorda, meio a contragosto, porque nunca apreciou a fama de herói que a tragédia lhe trouxe.

Fiz o que qualquer um faria naquela situação", tenta desconversar o pescador, visivelmente incomodado com o tema.

Arriscou a vida da própria família

Reprodução: Memória Globo

Recompensa? "Ganhei algumas medalhas; e um casal que nós salvamos me deu um terreno em Araruama", recorda. "Depois, eu pedi pra eles se podia vender o terreno pra comprar um telefone lá pra casa e eles deixaram. Foram bons, porque, naquela época, um telefone valia muito e a gente jamais teria dinheiro para comprar um", explica Jorginho, com uma humildade inversamente proporcional ao tamanho do seu gesto na noite daquele Réveillon.

Depois de superlotar seu barco com sobreviventes ("Fiquei com medo de a Marinha me multar por excesso de peso, mas era uma questão de vida ou morte", explica, como se alguém em sã consciência pensasse em recriminá-lo por aquele gesto), Jorginho alocou boa parte das vítimas no porão da traineira ("Porque, do lado de fora, não cabia mais ninguém") e jogou no mar tudo o que podia descartar a fim de aliviar o peso da embarcação. Mesmo correndo o risco de também afundar, seguiu para o local de onde o Bateau Mouche havia partido horas antes.

"Eu sempre via aquele barco passando enquanto pescava e sabia onde era a sua base. Aliás, quem no Rio não conhecia o Bateau Mouche?", indaga, resumindo a relevância daquele barco no turismo da Cidade Maravilhosa no final da década de 1980 – embora a realidade tenha mostrado que, por uma série de fatores, aquela era uma tragédia mais que anunciada (clique aqui para conhecer os dez absurdos que culminaram no naufrágio do Bateau Mouche IV).

"Daí, eu desembarquei as pessoas e levei minha família para casa. Depois que vi que estavam chegando outros barcos para ajudar no resgate. Mas, durante um bom tempo, não consegui dormir direito", recorda. "Tem coisas que eu não gosto de lembrar até hoje", explica, desculpando-se por não querer conversar mais.

Herói pela segunda vez

Vinte e cinco anos depois daquele episódio, Jorginho voltaria a viver outra situação parecida, quando o seu próprio barco afundou, ali mesmo, em Niterói. E ele, mais uma vez, salvou quem estava a bordo.

"Nós éramos 12 pescadores no barco, mas dois deles não sabiam nadar", conta, quase sob pressão do repórter. "Então, eu agarrei os dois e fui levando, aos poucos, até a praia. Foi quando eu vi como devem ter sofrido aquelas pessoas que estavam no Bateau Mouche. Ficar no mar sem um barco para ajudar é muito difícil".

Após a tragédia do Bateau Mouche, Jorginho nunca mais teve vontade de ir ver a festa no mar de Copacabana.

Ele abriu apenas uma exceção, seis anos atrás, quando lhe ofereceram um trabalho para conduzir uma lancha até Copacabana no dia de Réveillon. "Minha única condição ao patrão foi que eu pudesse levar minha esposa junto. Ele concordou e ela foi. Mas, no caminho, eu não parava de lembrar daquela noite. E lembrava coisas que não queria lembrar", diz, um tanto incomodado – com as recordações e com a extensão da nossa conversa, que ele, educadamente, pediu que terminasse por ali.

Não tenho muito mais que isso para contar. Fiz o que qualquer um faria no meu lugar".

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.