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Eles noivaram, se casaram, moram e ganham a vida num barco

Jorge de Souza

17/10/2019 15h37

Sete anos atrás, os paulistas Priscila Lima Silva e Cláudio Diniz se conheceram e começaram a namorar. Ele era dono de uma pequena confecção e ela trabalhava num escritório, ambos em São Paulo. Mas a vida corrida e complicada da metrópole não agradava nenhum dos dois.

Foi quando Claudio, que havia sido criado em estreita sintonia com o mar por influência do pai, que tivera alguns barcos no passado, propôs a namorada que eles juntassem as economias, comprassem um veleiro e fossem morar nele. E, para surpresa dele, Priscila, que nada sabia sobre barcos e até enjoava com facilidade, topou na hora (como eles contam em uma entrevista em para o #SAL).

"Sempre gostei de viajar e a ideia de morar numa 'casa' capaz de se movimentar me agradou, embora eu nunca tivesse pensado nisso", lembra Priscila, que, até então, levava uma típica vida de jovem assalariada de classe média, em São Paulo. E assim eles fizeram, três anos atrás.

Como namorados, Priscila, hoje com de 37 anos, e Claudio, com 42, foram viver a bordo do veleiro Beijupirá III, um espaçoso barco com casco de madeira construído 15 anos atrás, que eles compraram com o dinheiro que tinham até o início do último mês de junho, quando partiram junto com outros veleiros rumo ao Nordeste brasileiro.

Foi quando eles deixaram de ser namorados, para, durante a própria viagem, se tornarem noivos e, agora, casados – sem praticamente sair do barco.

O pedido de casamento aconteceu durante a escala do grupo no lindo arquipélago dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia, em agosto, e pegou até a própria Priscila de surpresa.

"A gente havia convidado alguns amigos dos outros barcos para beliscar no nosso, quando o Claudio, que não havia me dito nada, fez o pedido na frente de todo mundo. Imagine que eu estava de moletom! E descalça. Fiquei noiva daquele jeito, mas foi uma grande surpresa, porque achei que, como já morávamos juntos, não haveria casamento. Mas houve também".

A cerimônia, bem simples e meramente simbólica, que sequer teve padre (uma amiga velejadora fez as vezes de 'mestre de cerimônia' e disse apenas algumas palavras bonitas, diante de um grupo de amigos que eles fizeram desde que foram viver no mar), aconteceu na última quarta (16), na porta de uma singela capelinha (que sequer estava aberta), mas num local pra lá de especial: a paradisíaca ilha de Fernando de Noronha, onde eles chegaram dois dias antes, após participarem da maior regata oceânica do Brasil, que partiu de Recife no sábado (12).


"Eu ia esperar chegar em Noronha para pedir a Priscila em casamento, mas na parada em Abrolhos o astral da viagem estava tão legal que resolvi antecipar", explicou Claudio, emocionado. "Daí, em vez de noivar, resolvi casar na ilha e foi melhor ainda. Casar num local tão bonito como Fernando de Noronha é duplamente maravilhoso. E só conseguimos isso graças ao barco, que trouxe a gente aqui de graça, já que veleiros são movidos pelo vento e vento não custa dinheiro", analisa.

Desde que decidiram mudar de vida e trocar o apartamento alugado em São Paulo por um veleiro usado em Paraty (tal qual já haviam feito outros casais, como o gaúcho Adriano Plotzki e Aline Sena), Claudio e Priscila vivem do dinheiro que conseguem ganhar hospedando pessoas e as levando para velejar, negócio que, no meio náutico, é conhecido como "charter".

Uma pousada flutuante

A própria viagem para Noronha foi custeada pelos dez hóspedes que eles tiveram a bordo, durante a regata de Recife para lá. "Somos uma espécie de pousada flutuante, com a vantagem de que ela se movimenta e a paisagem vai mudando. E a piscina é de perder de vista", brinca Priscila. É ela que cuida da divulgação do serviço em site e em redes sociais, como Instagram @veleirobeijupira e Facebook, além de oferecer vagas no barco pelo Airbnb) e adora sua nova atividade. "A gente faz tantos novos amigos com os charters, que, às vezes, nem parece trabalho", diz.

"Nosso dinheiro é sempre curto, mas num barco não precisamos de muito para viver", explica Priscila, que cuida das contas do casal e cujo guarda-roupa não tem mais que meia dúzia de peças. "Meu 'vestido de noiva' foi uma roupa branca de réveillon que uma amiga de outro barco me deu", diz.

Agora, o casal pretende partir de Fernando de Noronha dentro de alguns dias e começar a longa viagem de volta até Paraty, onde esperam chegar só no final do mês que vem. "Não temos pressa, porque o bom de morar num barco é que você está sempre em casa, não importa onde esteja", brinca Claudio. "E, além do mais, estamos em lua de mel", diverte-se.

Em Paraty, o casal passa a maior parte do tempo ancorado diante da cidade e é de onde partem os charters que eles vendem, a um preço médio de R$ 3 mil o fim de semana, para quatro pessoas. "Nosso objetivo, agora, é juntar um dinheirinho para, no ano que vem, quem sabe, subir com o barco até o Caribe", diz Priscila. "Viajar é bom demais e é melhor ainda quando a nossa casa vai junto com a gente", completa.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.