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79 anos depois, a chegada de um navio alemão ao Brasil ainda é festejada

Jorge de Souza

09/12/2018 05h00

Há várias décadas, sempre no dia 7 de dezembro, acontece um curioso encontro num restaurante alemão no bairro de Moema, em São Paulo: o dos descendentes dos 244 tripulantes de um navio alemão que chegou acidentalmente ao porto de Santos, em 1939, e de lá nunca mais saiu.

O navio era o Windhuk – não por acaso, mesmo nome do restaurante. E os marinheiros, todos já mortos, pais ou avôs dos que, até hoje, mantém a tradição do encontro anual, sempre no mesmo local, a cada novo 7 de dezembro, como aconteceu na última sexta-feira.

Ali, entre pratos de einsbeins, canecas de cervejas e muita confraternização, foi, uma vez mais, recontada a saga daqueles tripulantes e daquele navio, cujas fotos e história decoram todas as paredes do próprio restaurante, aberto em 1948 por um dos tripulantes do Windhuk, o ex-cozinheiro Rolf Stephan, também o último do grupo a morrer, três anos atrás.

Nenhum dos 244 marinheiros alemães que chegaram ao porto de Santos a bordo do Windhuk naquele 7 de dezembro de 1939, logo após o início da Segunda Guerra Mundial, está vivo. Mas a tradição dos encontros dos seus descendentes vem sendo mantida graças ao empenho de Francisco Krieger, também de origem alemã, mas que nada teve a ver com o navio. "Eu apenas me encantei com a história deles e, quando fiquei sócio do restaurante, resolvi manter os encontros", diz Francisco, que é sempre o que mais se emociona com o evento.

No encontro deste ano, como de hábito, o convidado mais festejado foi o aposentado Carl Braak, hoje com 74 anos, filho de dois tripulantes do navio, os alemães Hildegard e August Braak, que se casaram em Santos, quando o navio ficou retido no porto, por conta da guerra.

Carl nasceu no "campo de internação", como eram chamadas as penitenciárias rurais onde foram colocados alemães, japoneses e até italianos que viviam no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, em Pindamonhangaba, e é único cidadão brasileiro nascido dentro de um campo de concentração que se conhece.

Mesmo assim, Carl ficou pouco no evento. Com a saúde já debilitada, saiu mais cedo, antes mesmo do bolo, que, como todos os anos, comemorou o 79º aniversário da chegada do navio ao Brasil – e, de quebra, a origem de todos os que estavam ali.

Mas a herança deixada pelos cozinheiros alemães do navio em solo brasileiro foi bem além daquele restaurante em São Paulo e dos encontros anuais que nele acontecem. Eles também foram responsáveis por boa parte da fama gastronômica que hoje goza a cidade de Campos do Jordão, porque foi para lá que muitos foram, quando deixaram o campo de concentração, como fim da Guerra.

Com a experiência culinária que tinham do navio, alguns cozinheiros do Windhuk foram trabalhar no então famoso Grande Hotel de Campos do Jordão, que acabou se transformando em um centro de excelência gastronômica. Já outros, se espalharam por São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e foram trabalhar em diversas áreas. Um deles, chegou a ser vice-presidente da Coca-Cola no Brasil. Outra, a própria Hildegard, mãe de Carl, tornou-se uma das maiores especialistas do país em ortóptica.

Hoje, o navio não existe mais e todos os seus tripulantes já morreram. Mas, 79 anos depois, a interessante história do Windhuk (que pode ser conferida clicando aqui) ainda é lembrada, todos os anos, sempre no dia 7 de dezembro, num certo restaurante de São Paulo.

 

Fotos: Álbuns de famílias

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.