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Guerra ao plástico: maior iate do mundo será usado para tirar lixo no mar

Jorge de Souza

06/01/2020 11h23

Fotos Divulgação/Guillaume Plisson

A campanha mundial de combate ao lixo plástico no mar ganhará, em breve, um reforço de peso: nada menos que o novo maior iate particular do mundo.

Batizado de REV (iniciais de Research Expedition Vessel, ou "Embarcação de Expedição de Pesquisa", em português), ele está sendo finalizado em um estaleiro da Noruega e será lançado ao mar no início do ano que vem para recolher resíduos plásticos dos mares do planeta e dar um fim ecologicamente correto para eles no próprio barco.

Ou seja, em vez de apenas recolher o lixo e levá-lo para um depósito em terra firme – o que exigiria um sem número de viagens com um consequente consumo de combustível que impactaria igualmente o meio ambiente – o futuro maior iate do mundo irá processar este material encontrado no mar dentro do próprio barco através de um incinerador de última geração e que não emite fumaça poluente – como uma espécie de usina flutuante.

Lixo que vira combustível

Com impressionantes 182 metros de comprimento (dois a mais que o atual maior iate do mundo, o Azzam, que pertence ao emir de Abu Dhabi e avaliado em cerca de R$ 2,5 bilhões), o futuro iate número 1 do planeta terá objetivos 100% científicos e será dedicado exclusivamente às pesquisas oceanográficas.

O megaiate usará motores híbridos, movidos alternadamente a diesel e eletricidade, terá sete laboratórios científicos a bordo, capacidade para abrigar até 60 pesquisadores ao mesmo tempo (além de uma tripulação fixa de 30 pessoas), e um mini submarino com capacidade de descer a mais de 2 000 metros de profundidade, para prospecção e coleta de amostras do fundo do mar – além do tal incinerador que não polui o meio ambiente.

O novo maior iate do mundo terá capacidade de queimar cinco toneladas de lixo plástico retirado do mar por dia e que ainda usará parte da energia gerada pelo processo para alimentar as baterias do próprio barco. Cada quilo de lixo plástico queimado gerará 110 kw de energia termal para uso no próprio iate.

Vai doar metade do que tem

O dono do REV é o megaempresário norueguês do setor marítimo Kjell Inge Røkke, de 61 anos e pai de quatro filhos, que começou sua vida como simples pescador e hoje é considerado o homem mais rico da Noruega, com uma fortuna estimada em R$ 10 bilhões.

"Quero devolver ao mar tudo o que ele me deu", explicou o bilionário, ao apresentar o projeto do inusitado megaiate, que começou a ser construído em 2017. "Este barco permitirá aos cientistas ir além de todas as pesquisas já feitas nos mares e ajudará na missão de tornar os oceanos novamente saudáveis".

Quando diz que quer devolver ao mar o que dele recebeu, Røkke não está apenas usando uma frase de efeito, mas seguindo o compromisso que assumiu em 2017, ao se juntar a uma campanha na qual bilionários de todo o planeta assumiram o compromisso de fazer a doação de mais da metade de suas fortunas para causas filantrópicas ainda em vida.

Entre eles, bilionários como Bill Gates, dono da Microsoft e tido como o homem mais rico do mundo, o investidor Warren Buffett, que já foi o número 1 do planeta, e Mark Zuckerberg, criador do Facebook. O norueguês é o 62º da lista.

Naquele mesmo ano, Røkke fundou o projeto REV, que, além do superiate, incluirá um gigantesco banco de dados sobre os oceanos.

"Queremos aumentar o conhecimento humano sobre os oceanos e desenvolver soluções concretas para os atuais maiores problemas, que são as mudanças climáticas, a pesca exagerada e a questão do lixo plástico, que chega a 12 milhões de toneladas lançadas no mar a cada ano, o que é um completo absurdo", diz a responsável pelo projeto, a norueguesa Nina Jensen, braço direito do bilionário norueguês. "Nessas três questões, o novo barco irá ajudar muito".

O REV irá atuar em diferentes mares do planeta, mas sobretudo numa área específica do Oceano Pacífico, onde o encontro de diferentes correntes marítimas gerou o que hoje é chamado de "maior lixão dos mares" – uma concentração inacreditável de garrafas pets, sacos plásticos, redes de nylon abandonadas por barcos de pesca e toda sorte de detritos não degradáveis, que hoje já reveste a superfície do mar numa área equivalente aos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo somados.

Nadando no lixo

No ano passado, para chamar a atenção mundial para o problema, o nadador francês naturalizado americano Ben Lecomte atravessou a nado toda a área, e ficou assustado com o que encontrou no mar. Especialmente a absurda quantidade de palitos de cotonetes e escovas de dentes usadas.

Usar o maior iate do mundo para recolher lixo, não parece, a princípio, fazer muito sentido. Mas é exatamente isso o que REV irá fazer, assim que for lançado. "E com muito orgulho", diz Røkke.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.