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Levado pelo mar: o idoso que está cruzando o Atlântico dentro de um barril

Jorge de Souza

05/02/2019 11h02

Neste exato instante, em algum ponto do Atlântico, um homem está tentando atravessar o segundo maior oceano do planeta de uma maneira inédita e bizarra: dentro de uma espécie de barril – uma cápsula feita de material resistente, mas sem velas, motor nem nenhum tipo de propulsão, que avança empurrada apenas pelo vento e pelas ondas do mar.

Loucura? Não é o que pensa o navegador e aventureiro francês Jean-Jacques Savin, dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível. Ou seja, sendo levado pelo próprio oceano, dentro de uma espécie de gigantesca rolha, sem nenhum tipo de comando ou controle.

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Ele partiu das Ilhas Canárias, na costa da África, no último dia 26 de dezembro. Hoje, 40 dias depois, já está a mais de 1.000 quilômetros de lá, avançando na direção do Caribe, onde pretende chegar dentro de dois meses – ou mais, se as correntes marítimas que estão empurrando o seu barril não ajudarem.

"Não sei onde vou chegar mas deve ser em uma ilha do Caribe", arrisca o francês, que, para isso, escolheu uma região onde as correntes marítimas cruzam de um lado a outro do oceano, embora ventos contrários e mudanças de correntezas sejam possíveis.

"Até aqui, está indo tudo bem", diz Savin, que se comunica quase que diariamente com o mundo exterior através do Facebook, graças aos equipamentos eletrônicos que leva dentro do seu barril de fibra de vidro, que ele mesmo construiu e que batizou com um nome bem humorado: OFNI – iniciais de "Objeto Flutuante Não Identificado", em uma brincadeira com os OVNIs do espaço.

"Meu OFNI tem capacidade para suportar as ondas e até eventuais choques com baleias", garante.

O curioso é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo. Ex-paraquedista, ex-piloto de aviões e ex-guarda de parques de animais selvagens na África, ele é também triatleta e já atravessou o Atlântico navegando quatro vezes – mas, até aqui, sempre com barcos convencionais.

"Não sou o capitão do barco e sim um passageiro do oceano. Ele me leva para onde quiser"

Empurrado apenas pelos ventos e correntezas, Savin tem avançado a uma velocidade média de apenas 2 ou 3 km/h (menos do que uma pessoa caminhando) e assim pretende chegar ao Caribe, a 4.500 quilômetros de distância de seu ponto inicial. Mas ele não tem pressa, até porque, mesmo que quisesse, nada poderia fazer para acelerar sua jornada.

"Passo o tempo lendo, escrevendo, checando o barril e lançando marcos na água, para ajudar uma instituição oceanógrafa a analisar as correntes marítimas", diz. "De vez em quando, também me exercito, nadando ao lado do barril, mas preso a ele por uma corda".

Quando a natureza ajuda, o francês consegue avançar quase 100 quilômetros por dia, embora nem sempre na direção desejada.

No início da jornada, seu barril foi empurrado pelas ondas e pelo mau tempo na direção Norte, contrária ao seu objetivo, mas agora já retomou, sozinho, o rumo do Caribe.

"No começo, o rumo não foi bom, mas o que isso importa? Não posso mesmo dar meia-volta"

O barril-navegador de Savin tem três metros de comprimento por 2,10m de diâmetro. Uma cama, uma pia (com água extraída do mar e dessalinizada), um fogareiro, um assento e compartimento onde ele guarda o estoque de comida liofilizada (um tipo de alimento desidratado), com quantidade para cerca de três meses no mar. Tem, também, uma portinhola de acesso e três janelinhas, uma delas no fundo, para ele poder observar os peixes que passam.

Mas como sua jornada incluiu a passagem de Ano Novo e o seu 72º aniversário, Savin também levou para bordo duas garrafas de vinho e um pote de fois gras, para celebrar as duas datas. Mas nem isso impediu que, no começo, ele passasse os dias totalmente enjoado, pelo constante balanço do seu exótico "barco". "Mas, agora, já me acostumei e não enjoo mais", diz.

A ideia de Savin de atravessar o oceano totalmente à deriva, dentro de um cilindro fechado, veio de uma velha – e igualmente insana – maluquice americana: a de se jogar nas Cataratas de Niágara, a mais famosa cachoeira dos Estados Unidos, na fronteira com o Canadá, dentro de um barril de madeira. Algo que, no passado, muitos fizeram e poucos sobreviveram para contar a história.

Quem iniciou essa quase tradição (hoje proibida e punida com prisão para quem tentar repeti-la) foi uma mulher, a americana Annie Edson Taylor, 118 anos atrás (clique aqui para conhecer esta história). E, tal qual o francês Savin, ela já era uma senhora de 63 anos quando decidiu embarcar na maior aventura de sua vida. E sobreviveu. Espera-se que o francês tenha a mesma sorte.

Fotos: Divulgação/Atlantique-tonneau.com

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.