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O que há no ponto mais profundo do Atlântico? Quem esteve lá conta

Jorge de Souza

25/01/2019 11h00

"Silêncio, um relaxante silêncio". Foi assim que o milionário explorador americano Victor Vescovo descreveu o que encontrou no lugar mais profundo do Atlântico, que ele atingiu um mês atrás, ao se tornar o primeiro ser humano a descer até o ponto mais fundo do segundo maior oceano do planeta.

A bordo de um submarino especial que ele mesmo mandou construir para a empreitada, Vescovo levou duas horas e meia para descer os 8.376 metros que separam a superfície do ponto mais baixo da Trincheira de Porto Rico, como é conhecida a profunda fenda que existe no solo do Atlântico naquela parte do mar do Caribe. E vibrou com a experiência, até então inédita.

"Como eu estava sozinho no submarino, foi muito relaxante descer, devagarinho, e tocar o verdadeiro fundo do Atlântico. Foi um momento de muita tranquilidade e extremo silêncio".

Aos 53 anos, Vescovo é um aventureiro nato. Já caminhou até os dois polos do planeta e escalou as sete maiores montanhas do mundo, incluindo a maior de todas, o Monte Everest — o que lhe valeu um lugar na seleta galeria dos mais audaciosos exploradores da Terra, que, até hoje, reúne apenas 17 pessoas.

Seu objetivo, agora, é ir no caminho oposto e explorar os cinco pontos mais profundos dos cinco oceanos do planeta – quatro deles jamais visitados pelo homem. O primeiro, a Trincheira de Porto Rico, no Atlântico, já foi vencido.

"Lá embaixo, a escuridão é total e o silêncio, absoluto. É um ambiente que traz paz de espírito".

O próximo desafio de Vescovo, no mês que vem, será tentar chegar ao fundo da Fenda das Ilhas Sandwich, nas imediações da Antártica, uma área praticamente inexplorada até hoje, a 8.428 metros de profundidade, que jamais foi vista por olhos humanos. Se conseguir, ele espera ter o esforço recompensado com o batismo da fenda pela comunidade científica com o seu nome.

"Nossa ignorância sobre os mares é dramática. Quatro dos pontos mais profundos dos cinco oceanos do planeta jamais foram visitados pelo homem".

Em seguida, Vescovo pretende descer até as profundezas da Fenda de Java, no oceano Índico, a 7.290 metros de profundidade, de Molloy, no Ártico (5.573 metros abaixo da superfície) e, por fim, a mais profunda de todas, a Fossa das Marianas, no Pacífico, que chega a 11.034 metros debaixo d'água.

"Sempre gostei de desafios. Meu objetivo, agora, é chegar aos limites submarinos".

Até hoje, nenhuma pessoa tem no currículo a visita aos dois pontos mais opostos do planeta: o topo da montanha mais alta do mundo, o Monte Everest, e o ponto mais profundo dos oceanos, a Fossa das Marianas. Vescovo pretende ser o primeiro. E empenho para isso não lhe falta, nem dinheiro.

Milionário, ele gastou cerca de 150 milhões de reais para construir o mini-submarino com casco de titânio de nove centímetros de espessura (para suportar a incrível pressão no fundo do mar), com o qual pretende visitar os pontos mais remotos dos cinco oceanos, "para ajudar a ciência a compreender o que há neles", e, também, em busca de alguma fama.

"Esta expedição fará história, tanto tecnicamente quanto cientificamente".

Seu projeto gerará imagens inéditas e produzirá mapas detalhados das áreas. E está sendo acompanhado por equipes do canal Discovery, que produzirá um documentário que irá ao ar no início do ano que vem, quando Vescovo completar seus cinco objetivos.

Em seguida, ele não descarta usar o seu mini-submarino para tentar localizar os restos do avião da Malaysia Airlines, que desapareceu em algum ponto do oceano Índico em 2014 e não foi encontrado até hoje.

"Admito que senti um alívio quando vi que o submarino atingiu o ponto máximo do Atlântico sem maiores esforços".

A declaração de Vescovo tem a ver com o que ele ainda pretende fazer com o seu mini-submarino. Para chegar ao ponto mais profundo dos cinco oceanos (e do próprio planeta), a Fossa das Marianas, no Pacífico, ele terá que descer mais de 11 quilômetros mar adentro, bem perto do limite do seu equipamento, que é de 13.000 metros.

"Ao final do projeto, teremos o mais confiável e útil submarino para pesquisas profundas do mundo".

Não será, porém, a primeira vez que um homem fará isso. Curiosamente, o ponto mais profundo do planeta é o único dos cinco lugares mais profundos dos oceanos que já foi visitado por seres humanos. E há bastante tempo.

Em janeiro de 1960, exatos 59 anos atrás, uma pioneira expedição da Marinha Americana levou dois homens até o fundo da Fossa das Marianas, a bordo do primeiro submarino de pesquisas do gênero, o primitivo Trieste, que funcionava como uma espécie de balão submarino ao contrário.

Mas eles pouco viram o que havia lá fora, porque, sem câmeras e com uma única janelinha do tamanho de uma moeda na escuridão das profundezas, a visibilidade era altamente prejudicada.

Mesmo assim, visualizaram uma nova espécie de peixe, quase transparente, e comprovaram que mesmo no ponto mais inóspito e profundo do planeta há vida. Foi a maior herança deixada por aquele histórico mergulho, cuja história pode ser conferida aqui.

 

Fotos: Five Deeps Expedition

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.