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Histórias do Mar

O que pode ter acontecido com o casal de Angra do Reis? O mistério continua

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Jorge de Souza

06/09/2021 13h36

Quinze dias atrás, no final da tarde de domingo, 22 de agosto, o casal carioca Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e Leonardo Machado de Andrade, de 50, embarcaram na traineira Novo Milênio I, que pertencia a ele, e partiram, só os dois, da Praia da Longa, na Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro, para apreciar o pôr do sol na vizinha Lagoa Verde, a pouco mais de um quilômetro de distância.

E desapareceram – bem como o barco no qual estavam.

Nove dias depois, o corpo de Cristiane surgiu em uma parte erma da Baía de Mangaratiba, a quilômetros de distância do ponto para o qual supostamente haviam partido, assim como dois itens que pertenciam ao barco, mas em áreas opostas – o que, juntamente com um intrigante foguete sinalizador avistado na região na noite seguinte ao desaparecimento, deu ao caso ares de mistério.

Embora a causa mais provável ainda seja um simples naufrágio, outras hipóteses ainda estão sendo consideradas pela polícia.

Como estas aqui.

Hipótese mais provável: naufrágio

Desde o princípio, a hipótese de o barco ter afundado e causado a morte por afogamento do casal é apontada, por todos, como a mais provável.

Mesmo assim, algumas dúvidas seguem no ar.

A mais óbvia é: se o barco afundou, onde ele está?

Vestígios em lados opostos

Desde o ocorrido, a polícia garante que a Marinha segue vasculhando toda a região, que é bem grande, já que mais de 50 quilômetros de mar separam a Lagoa Verde da baía da Marambaia, onde o corpo de Cristiane foi encontrado.

E, até agora, meio mês depois, tudo o que foi encontrado foi uma janela e duas boias do barco, boiando no mar.

Só que em locais opostos, o que confunde ainda mais as buscas pelo barco supostamente afundado.

Culpa da correnteza?

A janela, segundo a polícia, foi encontrada na Lagoa Verde, na Ilha Grande – um claro indicativo da área onde a traineira teria afundado.

Já as duas boias apareceram na baía de Marambaia, área oposta à da lagoa, mas a mesma onde apareceu o corpo de Cristiane, e aparentemente pelo mesmo motivo: a influência da correnteza, que teria arrastado corpo e boias da Ilha Grande para lá – algo bem comum de acontecer na região.

A polêmica do sinalizador

Para complicar ainda mais as buscas pelo barco, no início da noite do dia seguinte ao desaparecimento do casal, um grupo de amigos filmou o disparo de um foguete sinalizador, equipamento náutico usado para pedir socorro no mar, na região da Marambaia.

Aquele foguete poderia ter sido disparado do barco do casal, como um pedido de socorro.

Embora o autor do vídeo diga que entrou em contato com os Bombeiros para avisar sobre o estranho sinal, aparentemente, na mesma noite, nenhuma busca na região foi feita.

"A polícia só foi para lá dias depois, quando o corpo da Cristiane apareceu", lamenta a ex-esposa de Leonardo, Vanessa Morett, com que o casal mantinha um ótimo relacionamento.

Isso, para mim, é inadmissível. Disparar um sinalizador era algo que o Leonardo faria com certeza, numa situação daquelas. Ele era obcecado por segurança, especialmente no mar. Vivia treinando a gente para situações de emergência", recorda.

Teria vindo de outro barco?

Não há como relacionar o disparo do tal foguete com o barco do casal – pode ter sido um disparo acidental ou brincadeira vinda de outro barco, já que não são raros os donos de embarcações que usam erradamente aquele tipo de sinalizador como foguetes de comemoração.

Além disso, como explicar que a janela do barco tenha sido encontrada a dezenas de quilômetros de lá, na Lagoa Verde, no sentido contrário ao da correnteza?

Achar o barco é fundamental

Ainda assim, a divulgação do tal foguete sinalizador, que só pipocou nas redes sociais dias depois, levou a polícia e a Marinha a ampliar as buscas pelo barco em muitos quilômetros quadrados, aumentando assim também as chances de não encontrá-lo – porque, quanto maior for a área, mais difícil será o trabalho.

Achar o barco é fundamental", diz o delegado Vilson de Almeida Silva, da 166ª Delegacia Policial de Angra dos Reis, encarregado do caso. "Só a partir dele será possível entender o que aconteceu com o casal. Estamos concentrados nisso".

Buscas concentradas

Desde então, todas as buscas, tanto do barco quanto do corpo que falta, passaram a ser concentradas na região de Marambaia, a mesma do tal foguete, a despeito daquela enigmática janela do barco ter sido encontrada na direção oposta.

E isso, talvez, faça com que o barco jamais seja encontrado.

Se é que ele afundou de fato…

Corpo sem salva-vidas

Já a segunda dúvida que paira sob a hipótese de naufrágio é por que o corpo de Cristiane não estava com um colete salva-vidas quando foi encontrado, uma vez que vestir este equipamento costuma ser a primeira providência em casos desse tipo – sobretudo para alguém tão atento às questões de segurança, quando a primeira esposa garante que era o ex-marido.

"O Leonardo jamais deixaria a Cristiane ir para o mar sem um colete. É algo totalmente incompatível com os hábitos dele", garante Vanessa, mãe da primeira das duas filhas que ele teve.

Por que não foi usado?

Para reforçar o argumento de Vanessa, uma foto da traineira usada pelo casal que circulou nas redes sociais, mostra claramente muitos coletes salva-vidas armazenados debaixo da cobertura do convés, além de duas boias salva-vidas penduradas na lateral da cabine – as mesmas que foram encontradas na baía de Marambaia, na semana passada.

Por que estes equipamentos de segurança não foram usados pelas vítimas no eventual naufrágio?

Uma das hipóteses é que o naufrágio tenha sido tão fulminante que não houve tempo para nada – mas como teria dado tempo de disparar o tal foguete sinalizador?

Outra hipótese é que as duas boias encontradas no mar tenham se desprendido naturalmente do barco quando ele afundou, já que elas estavam apenas penduradas na lateral da cabine – e, no escuro da noite, não tenham sido agarradas pelos náufragos.

Isso se houve, de fato, um naufrágio – e se aquele foguete estava relacionado a ele.

Quebra do barco?

A possibilidade de haver uma relação direta entre o disparo do foguete sinalizador e o barco do casal, 24 horas depois do desaparecimento deles, só se explicaria se a embarcação tivesse tido algum problema (quebra do motor ou inundação parcial – o que explicaria aquela janela encontrada no mar…), e ficasse à deriva durante toda a noite e também ao longo do dia seguinte inteiro, sendo levada pela correnteza, na direção da baía de Marambaia.

No entanto, logo no dia seguinte ao desaparecimento do casal, um helicóptero sobrevoou a região e não encontrou nenhum sinal da traineira – que não poderia ter ido tão longe, em tão pouco tempo, levada apenas pela correnteza.

Além disso, é pouco provável que outro barco não tivesse visto a traineira à deriva, durante todo o dia, em uma das áreas mais movimentadas da região.

A menos que o barco do casal já não estivesse mais na superfície – o que, no entanto, eliminaria de vez a relação dele com aquele foguete, na noite de segunda-feira.

Ou, então, que o foguete não estivesse no barco e sim com um dos náufragos no mar…

Assalto e latrocínio no mar?

"O Leonardo era muito ligado em questões de sobrevivência e sempre mantinha uma mochila pronta, para qualquer emergência", garante a ex-esposa. "Era algo bem típico dele".

Além da hipótese de naufrágio instantâneo, causado por algum acidente – tese defendida pela maioria das pessoas –, Vanessa também não descarta a possibilidade de o casal ter sido vítima de um assalto e roubo do barco no mar.

Antes de sair de casa, Leonardo teria confidenciado a um amigo vizinho que, após assistir ao pôr-do-sol, pretendia "namorar" um pouco no barco, ou seja, já na parte da noite.

Isso pode ter deixado o casal desatento, além de levá-los para o interior da cabine, sem, portanto, visão externa de uma eventual movimentação ao redor do barco – situação na qual poderiam ser facilmente dominados por ladrões.

A opinião da ex-esposa

A tese de assalto seguido de latrocínio também explicaria por que o corpo de Cristiane fora encontrado sem um colete salva-vidas, equipamento que o barco tinha em profusão e algo que a ex-esposa de Leonardo garante ser totalmente incompatível com os hábitos do ex-marido.

Mas é contraditória com as duas boias encontradas no mar.

Ainda assim, Vanessa mantém sua opinião:

"Para mim, ou eles sofreram um naufrágio fulminante ou foram assaltados e jogados ao mar", diz.

Golpe nas famílias

Tão logo o desaparecimento do casal foi noticiado, o filho de Cristiane, Guilherme Brito, recebeu ligações de supostos sequestradores, que diziam estar com as duas vítimas e pediam resgate.

Mas era golpe: bandidos estavam se aproveitando do desespero da família para tentar extorquir dinheiro.

Ou outro tipo de golpe?

Embora a hipótese de o casal ter sido vítima de assalto, seguido de roubo do barco e arremesso deles ao mar não tenha sido abandonada pela polícia ("ainda não descartamos nenhuma hipótese", diz o delegado encarregado do caso), o surgimento das duas boias do barco, na semana passada, enfraqueceu essa tese – e reforçou ainda mais a de um simples naufrágio.

Ou, então, a de um golpe muito bem arquitetado…

Crime passional?

Cristiane e Leonardo vinham ensaiando uma reconciliação há tempos, após dois anos separados de uma união que durara mais de oito.

Foi com esse intuito que o casal decidiu passar um fim de semana junto, na mesma na praia onde Leonardo vinha morando há cerca de dois anos, desde que deixara o Rio de Janeiro e passou a se dedicar a consertar barcos.

Cristiane veio, então, de Salvador, onde estava morando, para encontrar o ex-companheiro, com quem vinha mantendo um bom relacionamento à distância.

Se algo aconteceu entre eles na noite do desaparecimento, não se sabe.

Mas câmeras de segurança da casa mostraram os dois saindo, para embarcar no barco, no final da tarde do dia em que desapareceram, em perfeita harmonia.

"De jeito algum acredito em crime passional ou feminicídio", garante Vanessa. "O Leonardo jamais foi violento".

Vítima do companheiro?

Ainda assim, a polícia também não descarta a hipótese de Cristiane ter sido vítima do ex-companheiro.

Segundo esta linha de raciocínio, ele poderia tê-la jogado ao mar, antes de fugir com o barco e simular um naufrágio – neste caso, a janela e as duas boias encontradas no mar fariam parte de uma encenação.

Ou, então, ter intencionalmente provocado o naufrágio.

Isso explicaria por que o corpo de Leonardo ainda não foi encontrado, bem como o barco – embora, casos desse tipo não sejam nada raro de acontecer no mar.

Quebra de sigilo

O fato de os documentos e celular de Leonardo não terem sido encontrados na casa (ao contrário dos de Cristiane), levou a polícia a pedir a quebra do sigilo telefônico e rastreio do aparelho dele.

Mas nada ainda foi provado.

"Não se trata de acusar uma vítima, mas é preciso investigar todas as possibilidades", argumenta a polícia.

O pior é não saber

"A cada dia que passa, só nos resta torcer para que o corpo do Leonardo apareça também, e essa triste história tenha um fim", diz Vanessa.

"Para nós, o pior de tudo é não saber o que aconteceu", diz.

Para a polícia, também.

Caso ainda mais misterioso

Essa não foi a primeira vez que um caso misterioso ocorrido no mar desafia a polícia de Angra dos Reis.

Três anos atrás, um caso ainda mais intrigante, que envolveu a morte de um argentino, dono de um veleiro que foi encontrado vazio e à deriva na mesma região onde apareceu o corpo de Cristiane, gerou inúmeras especulações.

Mas, até hoje, não teve uma explicação – clique aqui para conhecer este caso, ainda mais enigmático.

Espera-se que a história não se repita. Mas, enquanto isso, segue a dúvida: o que aconteceu com o casal de Angra dos Reis?

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.