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Histórias do Mar

Velejador parte para tentar o recorde da volta ao mundo nos dois sentidos

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Jorge de Souza

28/08/2021 04h00

Fotos Divulgação/Ant Artic Lab

Neste exato momento, em algum ponto do gelado Mar do Norte, já dentro dos limites do Círculo Polar do Ártico, um velejador está correndo contra o tempo, navegando, sozinho, dia e noite sem parar.

E ele pretende continuar assim, neste ritmo intenso, sem nenhuma parada para descanso, pelos próximos cinco meses, a fim de atingir o seu objetivo: bater o recorde mundial da volta ao mundo a vela mais completa que existe – aquela que atravessa o planeta nos dois sentidos.

Ele não quer apenas atravessar o planeta de um lado a outro, mas, também, de cima a baixo, o que pretende fazer em 165 dias consecutivos no mar, velejando sem parar.

Tem 59 anos

Bater este recorde, talvez o mais desgastante que existe no mundo da vela, tornou-se, há tempos, o principal desejo do velejador austríaco Norbert Koch, hoje com 59 anos.

Mas Koch só começou a botar o plano em prática na semana passada, quando partiu da cidade francesa de Les Sables D´Olonne, com a meta de retornar ao mesmo ponto no menor tempo possível, mas só após ter navegado nos cinco oceanos e – diferencial que tornará o seu feito ainda mais especial, caso consiga… – também os dois polos do planeta: o Ártico, no extremo Norte, e a Antártica, no Sul, ambos na mesma viagem.

Isso, poucos já fizeram.

Polos Sul e Norte

A esmagadora maioria dos velejadores que decide dar a volta ao mundo navegando contra o relógio, desafio cada vez mais popular entre os grandes navegadores, costuma cumprir um roteiro quase reto, de oeste para leste, visando varar o planeta na menor distância possível.

Já o austríaco pretende fazer o oposto disso e contornar a Terra da maneira mais longa – e difícil –, com a inclusão das regiões dos dois polos no roteiro.

Também de cima a baíxo

"É como se ele fosse cruzar o planeta duas vezes: uma na horizontal, outra na vertical", define um membro da equipe de apoio, que ficará de plantão em terra-firme, monitorando o avanço do velejador via satélite – o que qualquer pessoa também pode fazer, em tempo real, através do site da expedição.

Koch já atingiu os limites do Mar do Ártico (veja aqui onde ele está neste momento), deu meia volta e agora iniciará a descida do Atlântico, rumo a ponta da África, onde ingressará no Oceano Índico, depois no Pacífico e, após tocar o mar antártico, regressará à mesma cidade de onde partiu, no último dia 15.

Uma vez e meia a Terra

No total, Koch, um ex-condutor de bondes em Viena, onde nasceu, e que só descobriu sua paixão pela navegação aos 35 anos de idade, irá percorrer uma distância de 58 000 quilômetros navegando, ou quase uma vez e meia a circunferência da Terra, sem nenhum tipo de assistência no mar, a fim de bater o recorde.

Mas, para ele, tão relevante quanto conseguir o feito será alcançá-lo com o tipo de barco com o qual navega – um veleiro de quase 19 metros de comprimento, totalmente auto-sustentável e construído apenas com materiais recicláveis.

Nenhuma gota de combustível

Batizado de Innovation ("Inovação", em inglês), o barco do austríaco não usa uma gota de combustível fóssil, possui dois motores elétricos que são alimentados por um hidrogerador (que, quando o barco está velejando, transforma a água que passa pelo casco em energia que pode ser armazenada), e é repleto de placas solares para o consumo interno.

"Este veleiro é como uma usina", brinca um engenheiro que fez parte do projeto, batizado de Ant Arctic Lab, ou "Laboratório da Formiga do Ártico". "Ele produz a própria energia que usa. Sem falar que é movido apenas pelo vento".

Feito de pedra de vulcão

Além disso, o casco do barco do austríaco foi construído com um novo tipo de material, chamado "fibra vulcânica", feito a partir de rochas moídas expelidas de vulcões, com enorme dureza e resistência à tração.

E com este veleiro, totalmente ecosustentável, que Koch pretende entrar para a história dos recordes da navegação à vela.

Já deu três voltas ao mundo

Experiência para isso, ele tem.

Koch já teu três voltas ao mundo velejando, e, 20 anos atrás, passou três meses contornando, também sem parar, toda a Antártica, berço dos ventos mais violentos do mundo.

Agora, ele espera que a força da natureza também o ajude a bater o recorde que tanto almeja, pois dependerá da intensidade dos ventos para navegar rápido.

Desde a semana passada, o austríaco navega sem parar, correndo o tempo todo contra o relógio, visando atravessar o planeta nos dois sentidos no menor tempo possível – um desafio e tanto, sobretudo para quem já soma 59 anos de idade.

Idade não é problema

Se conseguir o recorde à beira de se tornar um sexagenário, Koch igualará outros feitos marcantes alcançados por velejadores que há muito haviam deixado de ser jovens atletas.

Um dos mais emblemáticos foi o americano Dodge Morgan, um ex-empresário que, ao se aposentar, em 1985, aos 53 anos de idade, botou na cabeça que iria se tornar o homem a dar a volta ao mundo pelo mar mais rápida da História, e partiu determinado a bater o recorde, que, até então, era de 292 dias.

Pois Morgan não só conseguiu o feito, como trucidou o antigo recorde, fazendo a travessia em praticamente metade do tempo, para surpresa dos próprios filhos e netos (clique aqui para ler esta interessante história).

Agora, Koch que ir ainda mais longe, e em menos tempo. Resta saber se a natureza permitirá isso.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.