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Histórias do Mar

No fundo mar: veja imagens do veleiro que afundou com uma casa dentro dele

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Jorge de Souza

18/08/2021 04h00

Duas semanas atrás, na madrugada do último dia 5 de agosto, o casal paulista de aposentados Wladimir e Rosane Popoff, de 65 e 62 anos de idade, viraram náufragos, quando o barco no qual eles navegavam – e no qual também moravam -, o veleiro Darwin, de 12 metros de comprimento, afundou a cerca de 13 quilômetros da costa de Porto Seguro, no sul da Bahia, após ter sido danificado por uma rede de pesca não sinalizada, sustentada por um cabo de aço.

O casal foi resgatado por pescadores e nada sofreu, além de um intenso estresse e um bom prejuízo, pois o seguro só cobrirá metade do que o barco valia, e tudo o que o casal tinha estava a bordo, já que o barco era também a casa deles.

Mesmo assim, as dores de cabeça da família Popoff com o naufrágio ainda não terminaram.

Agora, eles correm o risco de ter um prejuízo ainda maior, porque, pelas regras da Marinha do Brasil, os donos de embarcações naufragadas são também responsáveis por resgatá-las do fundo do mar, a fim de não comprometer a navegação nem poluir o meio ambiente – a menos que nem uma coisa nem outra seja afetada.

Mergulho até o barco

No fim de semana, uma empresa especializada esteve no local do naufrágio, com dois mergulhadores, para avaliar o estado e o local onde barco se encontra, a 23 metros de profundidade, a fim de produzir um relatório que será entregue à Marinha, a quem cabe decidir o que será feito do veleiro afundado: se ele terá que ser removido de lá ou simplesmente deixado no fundo do mar.

"Tomara que não seja preciso remover o barco, porque não temos dinheiro para pagar pelo serviço", diz o casal, que morava no veleiro há sete anos, desde que decidiram vender o único bem que tinham, uma casa de classe média em São Paulo, e viver no mar.

Valia R$ 800 mil

O mergulho, que foi filmado e fotografado pelos dois mergulhadores, e acompanhado pelo casal na superfície, apesar da baixa visibilidade, mostrou que o veleiro, que valia cerca de R$ 800 mil, está inteiro no fundo do mar (exceto por uma pequena rachadura na base do leme, causada pela colisão com o cabo de aço da rede, que provocou o seu naufrágio), mas inundado e tombado – clique aqui para ver o vídeo.

"Ver a nossa casa no fundo do mar, com nossos objetos pessoais se desprendendo de dentro do barco e vindo dar na superfície, foi bem triste, e não pretendemos voltar a visitá-lo. Até porque, em pouco mais de uma semana submerso, o barco já está parcialmente coberto por sedimentos, como se estivesse sendo enterrado pelo mar. E é lá que ele deve ficar", diz Wladimir Popoff, que considera altamente improvável a hipótese de o barco-casa do casal poder vir a ser resgatado e recuperado.

"Para mim, o barco é irrecuperável. Mas isso quem vai dizer é a empresa que fará o relatório à Marinha", diz o dono do veleiro.

Como era, como está

Por razões de segurança, os dois mergulhadores não penetraram no interior do barco, que tinha sala, cozinha e três camarotes, equipados como uma casa de verdade (veja fotos do interior dele, antes do naufrágio).

Apesar de o barco estar repleto de utensílios de uma casa de verdade, os mergulhadores também não recolheram nenhum objeto pessoal do casal.

"Tudo nosso ainda está dentro do barco. Inclusive roupas e documentos. Mas não pretendemos resgatar nada, porque pode ser ainda mais perigoso entrar em um barco inundado, cheio de cabos. O risco de enroscar em algo e morrer afogado é grande", diz o casal, que, desde o episódio, tem contado com a ajuda de amigos para se manter, já que nem mais casa para morar eles têm.

Vaquinha para ajudar

Também para ajudar o casal, pelo menos até que o seguro o indenize com parte do que valia o barco, um grupo de amigos criou uma vaquinha virtual na internet, que já arrecadou mais de R$ 70 mil.

"Descobrir o lado solidário e carinhoso das pessoas tem sido a melhor coisa dos últimos dias", diz o casal, que ainda está em Porto Seguro, cuidando dos trâmites legais do naufrágio.

"Até a dona do hotel que nos acolheu virou uma grande amiga. Esse é o lado bom da vida. Mesmo nos piores momentos, sempre fica algo de positivo", analisa o casal, que cultivava o hábito de gravar vídeos e postá-los na Internet, mostrando os cuidados que é preciso ter ao navegar com um barco – como neste vídeo, feito dias antes do naufrágio.

Relato dos náufragos

Também ao chegarem a Porto Seguro, eles redigiram um relato sobre como tudo aconteceu, que pode ser lido clicando aqui.

"Agora, é remar de tudo de novo, porque não perdemos o mais importante, que é a vida. E o resto, a gente corre atrás", diz o otimista casal, cuja casa hoje está no fundo do mar.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.