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Reformar ou afundar? Americanos discutem o que fazer com navio histórico

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Jorge de Souza

31/07/2021 04h00

 

Foto: Getty Images

Em 1934, quando foi lançado ao mar, em uma cerimônia que contou com a presença até do então rei da Inglaterra, George V, avô da atual Rainha Elizabeth II (que já soma 95 anos de idade), o transatlântico inglês Queen Mary, assim batizado em homenagem a esposa do monarca, era motivo de orgulho para os ingleses – um dos mais modernos, luxuosos e velozes navios da sua época, capaz de cruzar o Atlântico em pouco mais de cinco dias de viagem, o que lhe valeu o recorde da travessia daquele oceano durante muito tempo.

Mas hoje, 87 anos depois, o Queen Mary virou um problema do tamanho dos seus 300 metros de comprimento para a prefeitura da cidade americana de Long Beach, na Califórnia, para onde o velho navio foi levado na década de 1970 e transformado em hotel flutuante.

Vítima da pandemia

Com o fechamento das suas atividades hoteleiras por conta da pandemia, e um pedido de recuperação judicial da empresa que era responsável pela manutenção do navio, desde então permanentemente atracado junto ao porto de Long Beach, sobrou para a prefeitura e o conselho que administra a cidade resolver o que fazer com o histórico transatlântico, que há muito tempo clama por uma completa reforma.

Mas, se nada for feito – e rapidamente – o famoso transatlântico, um dos últimos sobreviventes da era de ouro das travessias do Atlântico e que já sendo vítima de pequenas inundações por falta de manutenção, corre o risco de começar a inclinar, o que tornaria a sua recuperação bem mais difícil.

Quatro alternativas

Na semana passada, o conselho de administração de Long Beach se reuniu para discutir o que fazer com o Queen Mary.

Um estudo preliminar mostrou que será preciso gastar mais de 20 milhões de dólares em reparos imediatos no navio-hotel, que está fechado desde o início do ano passado e cuja responsabilidade, com o pedido de recuperação judicial da empresa que o arrendara, a Eagle Hospitality Trust, passou a ser da prefeitura da cidade.

Na reunião, foram apontadas quatro possibilidades:

1 – Reformar e preservar o navio.

2 – Começar a desmontá-lo no próprio local onde está.

3 – Fazer os reparos emergenciais a fim de poder rebocá-lo para um estaleiro, onde seria demolido.

E, por fim:

4 – Mover o navio para o alto mar e afundá-lo.

O problema é que qualquer uma das quatro opções custará um bom dinheiro – uma verdadeira fortuna, caso a opção seja reformá-lo, o que, no entanto, conta com a simpatia de boa parte dos conselheiros da cidade.

Muitos milhões de dólares

De acordo com estimativas iniciais, a reforma do Queen Mary custará algo entre 150 e 500 milhões de dólares – dependendo do tipo de reforma a ser feita.

Se ela for superficial e executada no próprio local, com estimativa de manter o navio vivo por mais 25 anos, custará o equivalente a cerca de 800 milhões de reais.

Mas, se a opção for remover o transatlântico para um estaleiro e retirá-lo da água para reparos completos, o que garantirá sua sobrevida por mais um século, custará três vezes mais – uma fábula que poderá passar dos 2,5 bilhões de reais.

Afundar custará meio bilhão de reais

Mesmo assim, boa parte dos conselheiros – e a própria prefeitura da cidade – é favorável a recuperação e preservação do navio.

Até porque, mesmo a opção de afundar propositalmente o navio custará o equivalente a cerca de meio bilhão de reais, porque será preciso prepará-lo para isso, retirando tudo o que possa ser poluente, além de removê-lo até o local escolhido.

"Seria uma irresponsabilidade afundar um navio com o passado do Queen Mary", disparou o vice-prefeito de Long Beach, Rex Richardson, que, de olho em manter o atrativo turístico que o velho transatlântico representa para cidade, sugere transformar o navio em cassino ou parque temático.

"Precisamos uma solução para o navio que seja proporcional ao tamanho do problema que ele hoje representa para a cidade", explicou o vice-prefeito.

Transferir o problema para outro

Já boa parte dos conselheiros têm outros planos para o Queen Mary.

Eles pretendem convencer o governo federal americano a transformar o quase centenário transatlântico em um monumento nacional, tal qual a Estátua da Liberdade, o que eximiria a cidade de pagar pela sua reforma e manutenção futura.

Mas, como nada indica que isso possa acontecer, segue o problema:

O que fazer com o navio?

Passageiros ilustres no passado

Antes de se aposentado e virar hotel flutuante (já bastante decadente nos últimos anos, por sinal, o que rendia seguidas reclamações dos seus hóspedes), o Queen Mary teve um passado glorioso.

Reprodução: www.queenmary.com

Além de ter tido a realeza britânica como patrona, transportou, entre outros, Winston Churchill (para seguidos encontros com o presidente americano Franklin Roosevelt, durante a Segunda Guerra Mundial), Walt Disney (que foi quem primeiro teve a ideia de transformá-lo em hotel) e tropas inteiras de soldados americanos para lutar na Europa, às vezes, com mais de 15 000 homens – seis vezes mais do que a sua capacidade, que era de 2 500 passageiros.

Virou hotel flutuante

Em 1966, após 30 anos de serviço e 516 travessias do Atlântico, entre a Inglaterra e os Estados Unidos, o Queen Mary foi aposentado e vendido para prefeitura de Long Beach, que o transformou em hotel, mas arrendou a operação a empresas particulares – a última delas, a mesma que pediu recuperação judicial no ano passado, devolvendo o navio à municipalidade.

Foto: Getty Images

Desde que passou a ocupar um lugar de destaque na orla da cidade, não houve turista que visitasse Long Beach, cidade vizinha a Los Angeles, que não parasse para admirar – ou até se hospedar – no outrora garboso transatlântico.

Da mesma era do Titanic

Além de cabines que retroagiam quase à mesma época do Titanic, o Queen Mary Hotel oferecia atrações curiosas, como uma maquete de oito metros de comprimento do próprio navio feita com 250 000 peças de Lego, e um folclórico tour paranormal pelos seus corredores, nos quais eram contadas histórias sobre o seu passado um tanto tenebroso.

Foto: Getty Images

Em 1942, durante o transporte de tropas para a Segunda Guerra Mundial, o Queen Mary foi colhido por uma gigantesca onda solitária (fenômeno conhecido como "Onda Louca"), estimada em mais de 25 metros de altura, e adernou apavorantes 52 graus no meio do Atlântico – mais três graus e ele teria capotado, drama que, mais tarde, teria inspirado o filme O Destino do Posseidon.

Naquele mesmo ano, também atropelou o cruzador inglês Curacao, deixando um rastro de 400 mortes no mar.

Em 1997, um macabro evento aconteceu dentro do navio: uma exposição sobre a primeira expedição aos restos do Titanic, feita em um ambiente que remetia sinistramente ao fatídico navio.

Navio mal-assombrado

Por essas e outras, o Queen Mary também ficou conhecido como um navio mal-assombrado, fama que os administradores do hotel exploraram ao máximo, oferecendo aos hóspedes até uma certa cabine especial, tida como responsável por seguidos fenômenos paranormais.

Apesar de tudo isso, durante três décadas, o Queen Mary foi o transatlântico preferido dos viajantes entre a Europa e os Estados Unidos.

15 anos morando no mesmo navio

Luxuoso e confortável, durante os anos em que esteve em atividade, o Queen Mary colecionou seguidos admiradores, muitos deles ainda vivos – e quase todos contrários a demolição do navio.

Nenhum, porém, tão fiel ao navio quanto uma certa passageira – que acabaria virando moradora – de um de seus principais concorrentes nas travessias entre a Europa e os Estados Unidos.

Durante impressionantes 15 anos, a milionária americana Clara Macbeth viveu a bordo do transatlântico Caronia, indo e voltando, sem nunca desembarcar.

Considerada a primeira residente de um navio que se tem notícia, ela só voltava ao seu apartamento, em Nova York, quando o Caronia seguia para manutenções em um estaleiro.

Mas reembarcava, tão logo ele voltasse a navegar.

E sempre na mesma cabine, que acabou virando a sua casa – clique aqui para conhecer esta incrível história.

Se ainda estivesse viva e o seu navio predileto fosse o Queen Mary, Clara Macbeth, certamente, engrossaria o coro dos que agora lutam para que o histórico transatlântico favorito do Rei George V continue vivo.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.