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Um ano e meio depois, Irlanda não sabe o que fazer com o seu navio fantasma

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Jorge de Souza

23/07/2021 04h00

(Crédito: Cathal Noonan/AFP)

Há um ano e meio, o governo do condado de Cork, na Irlanda, convive com uma batata quente nas mãos: o que fazer com um navio abandonado que foi trazido pelo mar e jaz espetado nas pedras da orla de uma das principais vias turísticas da região desde fevereiro do ano passado, sem que ninguém apareça para reclamar a propriedade da embarcação?

O navio é o MV Alta, um cargueiro de 77 metros de comprimento, que foi abandonado pela sua tripulação no meio do Atlântico em setembro de 2018, e que durante incríveis 18 meses vagou à deriva, sem ninguém a bordo, até por fim encalhar na costa irlandesa e virar um problema para o governo local.

O problema é que, como os irlandeses não conseguem identificar o dono do barco, terão que arcar com o custo de remoção e destruição do navio, já estimado em mais de R$ 60 milhões.

Ou, então, não fazer nada e assumir a responsabilidade por um eventual problema ambiental, quando a embarcação, já está parcialmente destruída, apodrecer de vez e encher a região de resíduos e partes metálicas enferrujadas.

"Temos três alternativas", disse recentemente um governante local: "Tirar o navio das pedras e afundá-lo em alto mar, rebocá-lo até um estaleiro para ser desmanchado ou deixá-lo onde está. As duas primeiras opções, custam um bom dinheiro. E a terceira pode sair ainda mais cara, se a deterioração do navio causar um problema ambiental".

Esta é a razão pela qual o dono do navio não aparece: porque caberia a ele resolver o que fazer com o navio

Um navio sinistro

Mas este não parece ser o único motivo pelo qual ninguém assume a propriedade do cargueiro.

O próprio histórico do navio é repleto de fatos suspeitos.

Construído em 1976, ele mudou de nome oito vezes.

Já foi chamado Tananger, Pomor Murman, Polar Trader, K/S Murman, Avantis I, Avantis II e Elias, antes de virar MV Alta.

Também mudou cinco vezes de bandeira: Noruega, Grécia, Malta, Panamá e Tanzânia – país no qual foi registrado pouco antes de partir para sua última viagem, uma suspeita travessia da Grécia para o Haiti, que terminou com o abandono do navio no meio do oceano, após seus motores pifarem.

No entanto, o seu registro na Tanzânia venceu durante a própria travessia, o que não só o tornou um navio apátrida como permitiu supor que seria novamente registrado em outro país e, possivelmente, com outro nome – mudanças demais em tão pouco tempo, o que sempre levanta suspeitas.

Além disso, embora fosse equipado com um equipamento obrigatório de identificação automática, chamado AIS, nem sempre ele era ligado pela sua tripulação.

Tudo isso sempre levou o MV Alta a ser olhado com suspeitas pelas autoridades marítimas.

E o silêncio do dono do navio, que já dura um ano e meio, reforça ainda mais isso.

Deixado no mar, para afundar

O abandono do MV Alta em alto-mar aconteceu no dia 19 de setembro de 2018, a cerca de 2 500 quilômetros das Ilhas Bermudas, quando, por falta de manutenção, os motores pararam de funcionar.

Durante dias, sua tripulação, de dez homens, tentou em vão fazer o navio voltar a funcionar.

Mas, com o passar dos dias, a escassez de água e comida a bordo, além de feroz uma tempestade tropical que se aproximava, levou os tripulantes a pedirem socorro a Guarda Costeira Americana.

Em 1º de outubro, um avião da corporação sobrevoou o navio e lançou mantimentos para os tripulantes.

No dia seguinte, um barco veio resgatá-los.

Mas não havia como rebocar o cargueiro, que não transportava nenhuma carga, e por isso foi abandonado no mar.

A previsão era que, à deriva, o MV Alta não resistente por muito tempo. Talvez a própria tempestade que se aproximava se encarregasse de afundá-lo. Mas não foi o que aconteceu.

Um ano depois, em setembro de 2019, ele foi avistado pelo navio de patrulha inglês HMS Protector vagando no meio do Atlântico, feito um navio fantasma.

E, cinco meses depois, foi dar nas pedras do litoral do Condado de Cork , onde está até hoje, cada vez mais podre.

17 meses à deriva

No total, o MV Alta vagou por mais de 4 000 quilômetros, durante 17 meses sem ninguém a bordo – o equivalente a um avanço de cerca de 10 quilômetros por dia, mesmo sem ninguém ao comando.

A responsável foi a poderosa Corrente do Golfo, que empurra tudo o que encontra pela frente no Atlântico Norte na direção da costa da Irlanda.

Quando o MV Alta chegou e encalhou no litoral da pequena cidade de Ballycotton, a primeira providência das autoridades, uma vez que ninguém apareceu para reclamar a propriedade do navio, foi tentar retirar o combustível que havia dentro dele.

Um helicóptero içou mais de 60 barris de óleo diesel, mas estima-se que não tenha sido tudo o que havia nos tanques do navio, razão pela qual agora teme-se por um problema ambiental, caso o casco do cargueiro, que vem sendo deteriorado dia após dia pelas ondas, rompa de vez.

Parte da lateral do casco já foi destruída e o mar passou a invadir os porões do navio, que, por isso, após virar atração turística, teve o seu acesso proibido.

Visitar o "navio-fantasma de Cork", como o MV Alta passou a ser chamado na Irlanda, virou uma espécie de tentação entre os caçadores de aventuras, que não se cansam de postar imagens do interior cada vez mais decrépito do navio no YouTube.

Corroído pelo tempo

Quando o MV Alta foi dar no litoral da Irlanda, mesmo após um ano e meio à deriva no oceano, o seu interior ainda continha mobiliário, equipamentos e restos deixados pelos seus tripulantes – que não tinham nenhuma relação direta com o misterioso dono do navio.

(Crédito: Cathal Noonan/AFP)

Hoje, já não passa de carcaças enferrujadas, motivo pelo qual o desmanche do navio não é mais visto como a opção econômica mais adequada, já que não cobriria nem os custos de remoção dele das pedras.

"Os restos do MV Alta representam um risco potencial de poluição, tanto material quanto visual", resumiu um governante da região. "Mas o mais provável é que ele fique onde está, até ser demolido pelo próprio mar".

Em pelo menos um aspecto, porém, a presença do navio entalado na beira-mar tem gerado um efeito positivo: por causa dele, aumentou o movimento turístico na região.

Todos querem ver – e, se possível, entrar -, no navio fantasma de Cork.

O verdadeiro barco fantasma

Embora seja algo que sempre impressione as pessoas, embarcações que ficam meses vagando à deriva no mar, sem ninguém a bordo, são mais comuns do que parece.

E todos logo ganham a alcunha de "barcos-fantasmas".

Mas houve um caso em que isso chegou perto de ser verdade.

Em fevereiro de 2016, apenas dois anos antes de o MV Alta aparecer na costa irlandesa, um pequeno veleiro foi encontrado boiando próximo às Filipinas e, dentro dele, havia o corpo do seu único ocupante, o velejador alemão Manfred Bajorat – só que morto, mas incrivelmente mumificado.

Divulgação/Barobo Police/Philipines

Exames indicaram que ele havia morrido de infarto pelo menos seis anos antes, já que a última vez que fora visto foi em 2009, e que sua mumificação natural tenha sido fruto de uma rara combinação de fatores – clique aqui para conhecer este impressionante caso.

No caso do navio abandonado que atravessou o Atlântico sozinho, não houve nenhuma vítima. Mas agora espera-se que também a natureza não seja afetada.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.