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Após 27 anos, 3 países voltam a investigar naufrágio que matou 852 pessoas

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Jorge de Souza

16/07/2021 04h00

Foto: Getty Images

Na madrugada de 27 para 28 de setembro de 1994, o ferry boat Estônia, um misto de navio e balsa de transporte de veículos, afundou durante uma tempestade no Mar Báltico, matando 852 das 989 pessoas que havia a bordo.

Foi um dos piores desastres marítimos do século passado e o terceiro mais mortal envolvendo um navio europeu, desde o Titanic.

Na ocasião, uma investigação concluiu que o naufrágio do Estônia fora causado por uma falha mecânica: o portão de acesso dos veículos, bem na proa da embarcação, fora danificado por uma onda e se abriu durante a navegação, gerando a inundação do ferry boat – que afundou em menos de 30 minutos, embora tivesse onze andares de altura e 155 metros de comprimento.

A investigação também concluiu que a estabilidade do navio estava comprometida pela má distribuição dos veículos no seu interior, o que favoreceu o imediato tombamento do casco, impedindo que mais pessoas escapassem, e que a tripulação falhou tanto ao não detectar o problema rapidamente quanto na absurda demora para disparar o alarme para os passageiros.

Só 137 pessoas sobreviveram – uma catástrofe que, até hoje, 27 anos depois, os sobreviventes e parentes das vítimas tentam entender por que aconteceu, já que a conclusão do inquérito jamais foi aceita como definitiva.

E é justamente isso que, agora, os governos dos três países mais envolvidos na tragédia (a Suécia, para onde o ferry boat seguia, a Estônia, de onde ele havia partido, e a Finlândia, que teve a quarta maior quantidade de mortos no naufrágio) resolveram voltar a investigar, em uma missão conjunta, que começou na semana passada.

Esta nova investigação poderá dar uma nova explicação para a tragédia, mais de um quarto de século depois.

Documentário revelador

O que levou os governos destes três países a reabrirem um caso que parecia encerrado – exceto para as vítimas, que sempre questionaram a conclusão do inquérito oficial – foi um documentário sueco, feito pelo jornalista Henrik Evertsson e exibido em setembro do ano passado, com imagens do navio submerso, feitas por um robô submarino.

Nele, aparece claramente um grande rasgo na lateral do casco, com cerca de quatro metros de comprimento, que, a rigor, não teria nenhuma relação com a suposta abertura acidental do portão de acesso aos veículos durante a navegação.

Reprodução: Dplay

No começo, os governos da Estônia e da Suécia contestaram o documentário.

O primeiro ministro da Estônia alegou que o rasgo no casco mostrado nas imagens era pequeno demais para afundar um navio daquele tamanho tão rapidamente.

Já o governo da Suécia preferiu apenas acusar os autores do documentário de infringir a lei e violar o local do naufrágio, que, desde a tragédia, passou a ser considerado um santuário, decisão tomada por um acordo assinado pelos 17 países que tiveram vítimas no naufrágio.

Mas os realizadores do filme se defenderam, dizendo que, além de o naufrágio ter ocorrido em "águas internacionais", que não pertencem a país algum, as imagens foram feitas a partir de um navio com bandeira da Alemanha, país que não foi signatário daquele tal acordo.

Pressão pela nova investigação

Com a exibição do documentário e a revelação do até então desconhecido rasgo no casco, a gritaria dos sobreviventes e parentes das vítimas aumentou barbaramente e levou os governos da Suécia e da Estônia a mudar de atitude.

Eles, então, decidiram, junto com a Finlândia, reabrir a investigação do caso, o que começou na semana passada, com o envio de dois navios ao local do naufrágio.

A primeira parte da nova investigação consistirá em escanear o ferry submerso com imagens em 3D, para ter melhor ideia do estado do navio, averiguar outras eventuais deformações no casco e mapear o local onde ele está, analisando o tipo de solo e obstáculos que possam ter causado aquele intrigante rasgo no casco.

Com base na nova investigação, deverá acontecer, em abril do ano que vem, uma investigação bem mais profunda, que poderá tanto confirmar as conclusões do primeiro inquérito quanto alterar a causa do acidente.

Colisão com submarino?

Desde que aconteceu a tragédia, sobram teorias de conspiração, que pregam que o naufrágio do Estônia não teria acontecido por uma falha mecânica, mas sim pela explosão de material bélico que estaria sendo transportada em um veículo militar sueco a bordo do ferry boat, ou da colisão do navio com um submarino russo, o que explicaria aquele rasgo no casco – embora nunca nada disso tenha sido provado.

Outra tese que emergiu com a exibição do documentário foi a de que o tal rasgo poderia ter sido causado por parte da própria porta, que, ao ser arrancada da proa, batera na lateral do casco, o que também ainda não passa de mera especulação.

Como ocorreu o naufrágio

O naufrágio do Estônia, então o maior navio do país que o batizara e motivo de orgulho para os estonianos, porque simbolizava a então recente independência da extinta União Soviética, havia partido da capital Tallin, com destino a Estocolmo, na Suécia – uma travessia regular, que deveria durar a noite inteira.

Mas, na metade da viagem, pouco depois da meia-noite, aconteceu o naufrágio, que, no entanto, demorou demais para ser notificado pela tripulação aos passageiros e aos demais barcos na região.

Os sobreviventes contaram ter ouvido fortes barulhos metálicos antes de o navio começar a afundar, o que serviu de base para a primeira investigação concluir que houvera a abertura acidental do portão de acesso dos veículos durante a navegação, causada, muito provavelmente, pela ruptura das dobradiças após a colisão com uma onda mais forte.

Naquela noite, ventava muito e o mar estava especialmente agitado, o que dificultou ainda mais o resgate dos poucos sobreviventes.

Foto: Getty Images


650 pessoas afundaram com o navio, que hoje repousa a 85 metros de profundidade. A maioria dos corpos jamais foi resgatada.

Virou cemitério submarino

Por isso, logo após a tragédia, os governos da Estônia e da Suécia decidiram transformar o naufrágio em uma espécie de cemitério submarino.

300 000 metros cúbicos de areia e cascalho foram lançados sobre o casco submerso, na intenção de transformá-lo em uma espécie de tumba coletiva e, ao mesmo tempo, inibir a presença de mergulhadores curiosos, em respeito às vítimas – daí a irritação do governo sueco com a exibição do tal documentário.

Mas, apesar da intromissão ilegal, as imagens que ele mostrou surtiram o positivo efeito de reabrir as investigações, o que ninguém mais imaginava que pudesse ocorrer.

Resta aguardar pelas eventuais novas conclusões do que teria causado a maior tragédia em águas europeias, fora dos tempos de guerra.

Enquanto isso, no Brasil…

Ao mesmo tempo, no Brasil, outro antigo naufrágio finalmente começou a ser averiguado com mais profundidade.

Também na semana passada, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT, em conjunto com a Marinha do Brasil, concluiu a operação de reflutuação do navio cargueiro libanês Haidar, que afundou em outubro de 2015, junto ao porto de Barcarena, no Pará, com 4 920 bois vivos.

O naufrágio, que só gerou vítimas entre os animais, causou uma catástrofe ambiental no rio e expôs o pouco caso dos responsáveis por esse tipo de transporte de seres vivos – clique aqui e conheça a história desse naufrágio, que gerou cenas de pura selvageria, com a população caçando e abatendo os animais sobreviventes na própria água.

Só agora, seis anos depois, o navio foi retirado do fundo do rio.

Mas com outra intenção, que não contribuir com as investigações.

Apenas para liberar o acesso de outros navios ao porto.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.