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Navio alemão da Primeira Guerra Mundial ainda transporta pessoas na África

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Jorge de Souza

12/06/2021 04h00

Reprodução Youtube

Os raros turistas que decidem cruzar o lago Tanganika, entre a Tanzânia, Burundi, Zâmbia e a República Democrática do Congo, no leste da África, costumam levar um susto quando veem o barco no qual será feita aquela viagem: o Liemba, um arcaico navio a vapor alemão, construído em 1913, que combateu nas águas daquele mesmo lago ainda na Primeira Guerra Mundial – que, como se sabe, aconteceu mais de um século atrás.

Trata-se do único navio usado naquele conflito que ainda navega, e, com 108 anos de idade, um dos mais antigos barcos de transporte de passageiros em atividade no mundo.

Mas o que torna o Liemba ainda mais interessante do que a idade avançada é a sua própria história.

Construído em pedaços

O Liemba foi construído na Alemanha, sob o nome Graf von Goetzen, às vésperas da Primeira Grande Guerra, para ajudar a defender o então chamado Leste Africano Alemão, que compreendia os atuais territórios de Ruanda, Burundi, Tanzânia e todo o entorno do lago Tanganika, o segundo maior do mundo em volume de água.

Mas como o destino do navio era o miolo do continente africano, onde, obviamente, não seria possível chegar navegando, a sua construção foi bem original.

O Graf von Goetzen foi produzido em pequenos pedaços e acondicionado em 5 000 caixas, que foram transportadas (primeiro de navio, depois de trem, num total de 14 000 quilômetros) da Europa até o coração da África, onde, finalmente, foi montado – feito um gigantesco Lego.

Defendeu a Alemanha na África

A montagem do Graf von Goetzen só ficou pronta em 1915, quando a Primeira Guerra já corria solta na Europa e ameaçava invadir os domínios alemães na África.

Mas, equipado com quatro poderosos canhões, o navio logo se transformou em uma espécie de barreira contra a penetração dos Aliados naquela parte do continente africano.

Patrulhando intensamente as águas do Tanganika, o Graf von Goetzen impediu o avanço dos exércitos da Bélgica e da Inglaterra sobre o território alemão, o que levou os ingleses a usar o mesmo expediente dos inimigos e despachar para o lago dois navios de combate, igualmente desmontados.

Não adiantou. Nem assim os ingleses conseguiram derrotar o Graf von Goetzen, que seguiu garantindo a liderança alemã naquela parte da África.

Afundado pelos próprios alemães

Até que, já sem recursos para continuar se defendendo dos ataques cada vez mais violentos dos Aliados, e vendo a guerra cada vez mais perdida, os próprios alemães decidiram por um fim ao seu valioso navio: retiraram os quatro canhões e ordenaram que a própria tripulação do Graf von Goetzen o afundasse em uma das baías do lago, para que ele não caísse nas mãos dos ingleses.

Antes disso, porém, os mesmos engenheiros alemães que haviam montado o navio o "prepararam" para afundar com o mínimo de prejuízo, visando um futuro resgate, quando a guerra terminasse – o que, de fato, aconteceria, mas não exatamente como os alemães haviam imaginado.

O casco do Graf von Goetzen foi enchido de areia e suas caldeiras e demais partes mecânicas cobertas com uma espessa camada de graxa, a fim de protegê-las da água. Em seguida, as válvulas foram abertas e o navio deslizou suavemente para o fundo da baía de Katabe, em 26 de julho de 1916.

Resgatado pelo ingleses

Durante oito anos, o Graf von Goetzen ficou submerso, a 20 metros de profundidade.

Mas, com o fim dos combates e a retirada alemã da região, uma equipe inglesa resolveu resgatar o navio do fundo do lago, após constatar que ele estava em ótimo estado, graças as precauções tomadas pelos engenheiros alemães, anos antes.

Centenas de barricas foram infladas sob o casco e fizeram o outrora mais poderoso navio de combate da África voltar à superfície. E à vida.

Os ingleses, então, doaram o Graf von Goetzen ao recém implantado governo da Tanzânia, que o rebatizou Liemba, nome do Lago Tanganika no idioma Swahili, e, em maio de 1927, teve início a segunda vida deste navio, que perdura até hoje.

Desde então, lá se vão 94 anos, o Liemba tem sido usado ininterruptamente no transporte de cargas e pessoas, no próprio lago.

Serviu de inspiração para o cinema

Em 1979, suas caldeiras e máquinas a vapor foram substituídas por dois modernos motores a diesel, mas o restante do barco permanece praticamente igual a época em que atuou na Primeira Guerra Mundial.

Isso levou o Liemba a servir de inspiração para o romancista C. S. Forester escrever o clássico Uma Aventura na África ("The African Queen", no título original, em inglês), na década de 1930, que depois virou filme de sucesso, com Humphrey Bogart fazendo o papel de um comandante que é convencido por uma insinuante passageira, papel de Katherine Hepburn, a descer perigosos rios para atacar um navio de guerra alemão em plena África – uma clara alusão ao Graf von Goetzen alemão.


Virou símbolo na Tanzânia

Hoje, a grande maioria dos quase 600 passageiros que lotam o Liemba nos percursos regulares que ele faz, duas vezes por mês, entre as cidades de Kigoma, na Tanzânia, e Mpulungu, na Zâmbia – um roteiro de 570 quilômetros, que dura quase três dias inteiros, e soma mais de 20 paradas no caminho, para o embarque e desembarque de mais cargas e pessoas -, pouco sabe sobre o passado do navio que as transporta, exceto que se trata de um velho barco, como sua aparência deixa claro.

Foto: Handout via Reuters

O Liemba, que virou uma espécie de símbolo afetivo da Tanzânia, continua sendo o único elo de ligação entre centenas de esquecidos vilarejos africanos com o restante do mundo, mesmo papel desempenhado, no passado, por outros barcos, que por isso mesmo se tornaram lendários.

Mas pouquíssimos resistiram ao tempo. E nenhum tão ativo quanto o Liemba.

Um similar brasileiro

No Brasil, outro velho barco que também fez história, após navegar durante quase um século nas águas do Rio São Francisco, agora tenta voltar à vida.

Após sete anos desativado e esquecido nas margens do rio, na cidade mineira de Pirapora, o vapor Benjamim Guimarães, construído em 1913 e um dos mais antigos barcos do gênero no mundo, finalmente está sendo recuperado e restaurado, já que se trata do único barco do país que faz parte do Patrimônio Histórico do país – clique aqui para conhecer a interessante história do barco mais antigo do Brasil.

Para os ribeirinhos do trecho mineiro do Rio São Francisco, o velho vapor Benjamim Guimarães, cuja previsão é ficar pronto no final deste ano, tem a mesma relevância do Liemba para os moradores das margens do Lago Tanganika.

A esperança é que, tal qual os africanos, eles possam voltar a navegar em um barco que faz parte da sua História.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.