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Velejador solitário completa 11 voltas ao mundo. Aos 81 anos de idade

Jorge de Souza

06/03/2021 04h00

Foto: Royal Perth Yacht Club

No último dia de janeiro passado, o australiano Jon Sanders completou um feito fantástico: tornou-se a primeira pessoa da História a dar 11 voltas ao redor do planeta navegando sozinho um barco a vela, em diferentes épocas.

Se dar uma volta ao mundo, mesmo de avião, já é um feito e tanto, imagine navegando.

E o que dizer de alguém que já fez isso 11 vezes?

E a última delas, agora, aos 81 anos de idade?

Pois foi isso que o australiano Jon Sanders fez.

Foto: arquivo pessoal

Ele bateu dois recordes de uma só vez: tornou-se a pessoa que mais vezes deu a volta ao mundo velejando e, também, a mais velha a fazer isso, já além dos 80 anos.

A vida dele é dar voltas ao mundo

"É simplesmente impressionante", resumiu o Comodoro do Iate Clube de Perth, no sudoeste da Austrália, de onde o bravo velejador octogenário sempre parte e retorna em seus giros a vela pelo mundo. "Dar 11 voltas ao mundo navegando em solitário é algo realmente extraordinário. Mas fazer isso aos 81 anos de idade é quase inacreditável".

A vida de Jon Sanders, um simpático e carismático velejador, é ficar contornando o planeta com o seu barco. E sempre sozinho, como gosta de fazer.

Quando a travessia acaba e ele retorna ao mesmo ponto de onde partiu, começa tudo de novo.

Foto: arquivo pessoal

Para ele, o importante não é chegar. É estar sempre indo, navegando no mar, onde gosta de estar.

Uma volta atrás da outra

Jon Sanders já beirava os 40 anos de idade quando decidiu pegar o pequeno barco que tinha, um antigo veleiro de pouco mais de 10 metros de comprimento, batizado com o nome da fada do conto das 1001 Noites, Perie Banou, e dar uma volta ao mundo.

E nunca mais parou de fazer isso.

Voltou dois anos depois, com vários países visitados, já pensando em partir de novo.

E foi exatamente o que ele fez, quatro anos depois, em 1981.

Só que, desta vez, de maneira bem mais radical: deu duas voltas ao mundo sem parar em lugar algum, engatando uma circum-navegação na outra, o que lhe valeu dois anos sozinho no mar.

Sander gostou tanto da experiência que decidiu não só repeti-la, como incrementá-la.

Três vezes sem parar

Quatro anos depois, em maio de 1986, ele partiu de novo, já a bordo de outro barco, um pouco maior, com 14 metros de comprimento, e só retornou outro par de anos depois, após fazer o que ninguém jamais havia feito: deu três voltas navegando sem parar ao redor do planeta – uma a mais do que na vez anterior, que já havia sido um façanha e tanto.

Foto: Western Australia Museum

O feito lhe valeu, além de uma marca que dura até hoje (e da exposição permanente do seu barco em um museu da Austrália), a entrada no Livro dos Recordes, como a "mais longa distância navegada por uma embarcação [navios, incluídos] sem paradas". Nada menos que 131 000 quilômetros (ou 71 023 milhas náuticas), percorridos ao longo de 657 dias consecutivos no mar, sem sequer desembarcar.

Naquela época, Sanders já beirava os 50 anos de idade. Mas nem de longe pensava em voltar a viver em terra firme.

Ao contrário, gostava cada vez mais de estar sozinho no mar, navegando – mesmo que sem um destino nem objetivo definido.

Menos de dois anos depois, trocou novamente de barco.

Desta vez, por um de tamanho intermediário, de 12 metros de comprimento, o Perie Banou II, no qual vive até hoje (Sanders não tem casa, nem filhos, nem mulher, nem celular, nem nada. Mas diz que não sente falta de nada disso).

Com o novo barco que, na verdade, já era bem antigo, zarpou uma vez mais da Austrália, rumo a mais uma volta ao mundo, claro – travessia que, desde então, já repetiu outras cinco vezes.

A última delas, agora em janeiro, aos 81 anos de idade.

Foto: arquivo pessoal

Nunca quis bater recordes

O currículo náutico de Sanders é de meter inveja em muitos comandantes de navios.

Só o oceano Pacífico, o maior do mundo, ele já atravessou uma dúzia de vezes. O Índico, o segundo em tamanho, 14. E o Atlântico, 11.

No total, Jon Sanders já contabiliza 12 recordes. Mas não liga muito para isso nem considera tão excepcional assim o que faz.

"Eu nunca quis ser famoso, quebrar recordes ou me tornar a primeira pessoa a fazer determinada coisa. Se elas aconteceram, foi porque eu estava apenas convencendo a mim mesmo de que poderia fazê-las. E fiz porque quis, não porque perseguisse algo ou uma meta", diz Sanders, que tampouco se considera uma pessoa interessante. "Minha vida nada tem de excitante", avalia, sem falsa modéstia.

Capotou no mar

Além das 11 circum-navegações do globo terrestre, Sanders também entrou para a História como o primeiro velejador a contornar toda a Antártida em solitário, por duas vezes.

E ali ele sofreu o seu único acidente no mar até hoje.

No primeiro contorno da Antártida que fez, seu barco foi colhido por ondas gigantescas durante uma tormenta e virou de cabeça para baixo, com ele dentro.

O susto durou alguns minutos, até que o barco voltou à posição normal. E Sanders seguiu viagem, como se nada tivesse acontecido.

O barco dele é de meio século atrás

Por essas e outras, o veterano velejador sempre preferiu os veleiros mais antigos, que, segundo ele, são como garrafas de Coca-Cola tampadas com uma rolha – chacoalham, mas não afundam.

"Meu veleiro atual é de 1971 e tem 50 anos de mar. Mais até do que eu", brinca o australiano.

Solitário? Ele garante que não

Reprodução

Quando Sanders partiu para a sua 11ª viagem de volta ao mundo, em novembro de 2019 – como de hábito, da sua cidade natal, Perth, onde já virou até nome de rua , o mundo ainda não estava de cabeça para baixo com a covid-19, e não havia pandemia.

Ele só ficou sabendo da triste novidade quando, quatro meses depois, ao parar na ilha de Saint Maarten, no Caribe, foi informado de que não poderia desembarcar.

Nem partir, já que precisava de suprimentos para seguir viagem.

O jeito foi ficar três meses trancado no barco, o que para ele não foi nenhum tormento.

Foto: arquivo pessoal

"Não me incomoda ficar sozinho no mar. Não sofro de solidão, nem sou um solitário. Sou apenas indiferente a necessidade de ter alguma companhia ao meu lado", explica.

Ventos de 120 km/h

A parada forçada pela pandemia no Caribe alterou o cronograma da mais recente volta ao mundo do recordista no assunto – se bem que ele nunca foi de fazer roteiros detalhados, nem grandes planos de viagem.

Mas isso o obrigou a navegar na época errada em certas áreas, o que lhe rendeu uma viagem repleta de tempestades e desconfortos.

Numa delas, os ventos chegaram a 120 km/h.

"Dessa vez, a natureza não ajudou muito", minimiza o velho velejador.

Navegando como antigamente

Outra tormenta na mesma viagem danificou os equipamentos eletrônicos de navegação do barco, e o jeito foi "navegar como antigamente", com mapas e um pré-histórico sextante – instrumento manual que permite saber a posição de um barco e calcular distâncias, a partir da comparação entre o sol e a linha do horizonte.

"Foi como eu aprendi a navegar, ainda garoto, no final dos anos 40, quando ganhava a vida tosqueando ovelhas para poder andar de barco, nos fins de semana. Foi como uma volta as origens e gostei isso", diz Sanders, dono de uma simpatia cativante.

A mais recente circum-navegação de Jon Sanders teve, também, um caráter ecológico-educativo: alertar o mundo para a contaminação acelerada dos mares pelos lixos plásticos.

Contra o plástico no mar

Todos os dias, ao longo dos dois anos que passou navegando nesta última viagem, ele coletava pequenas amostras do mar por onde passava e as guardava, para serem analisadas depois por uma universidade australiana.

O objetivo era contar quantas partículas de micro plásticos havia em cada amostra colhida, e compará-las com as de outros mares.

Na costa do Brasil, as amostras colhidas por Sanders revelaram a presença de três vezes mais resíduos plásticos no mar do que no oceano Índico, o que o deixou chocado.

Foto: arquivo pessoal

"O plástico nosso do dia a dia está matando os oceanos e, consequentemente, o planeta, porque dois terços a Terra é coberto de água", avalia o experiente navegador.

E convém não duvidar, porque ninguém entende tanto quanto ele de dar volta ao mundo navegando.

Mas será que, aos 81 anos de idade, esta terá sido a última volta do mundo do velho velejador, ou em breve ele partirá de novo para mais um giro pelo planeta?

"Quem sabe?", Sanders desconversa.

"A gente nunca pode dizer nunca mais".

Outro aventureiro australiano

O gosto pela navegação e uma certa vocação natural para a aventura já renderam aos australianos outras incríveis ousadias no mar.

Em uma delas, em 1984, o francês há muito radicado na Austrália (mas casado com uma americana que viveu muito tempo no Brasil e dono de um português fluente) Serge Testa, também deu a volta ao mundo navegando, mas a bordo de um barco nada convencional: o Acrohc Australis (algo como "Coisa Australiana"), que ele mesmo construiu e media apenas 3,6 metros de comprimento – menor do que um Fusca!

Nele, Testa só conseguia navegar se estivesse sentado, com as pernas para dentro da cabine (onde, por sua vez, só cabia se fosse deitado), e não podia dar mais do que dois passos no minúsculo barco, que mais parecia um brinquedo de criança.

Foto: arquivo pessoal

Mesmo assim, Serge Testa deu a volta ao mundo ao longo de três anos navegando, espremido dentro do seu barquinho, o que também lhe rendeu a entrada no Livro dos Recordes como autor da navegação em torno do planeta com o menor barco de todos os tempos (clique aqui, para ler também esta incrível história de determinação e ousadia).

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.