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Histórias do Mar

300 anos depois, esqueletos reavivam a história de lendário pirata

Jorge de Souza

20/02/2021 04h00

Whydah Pirate Museum

Na noite de 26 de abril 1717, uma violenta tempestade pôs fim na carreira de um dos mais famosos piratas da história do Caribe: o inglês Samuel Bellamy, mais conhecido como "Black Sam".

A tormenta arremessou o seu barco, o igualmente lendário Whydah (pronuncia-se "Wih-duh"), de encontro a uma praia perto do que é hoje a cidade de Wellfleet, no estado americano de Massachusetts, e apenas dois dos 146 ocupantes sobreviveram – e os corpos de 43 deles jamais foram encontrados.

Mas, agora, esta história está prestes a mudar um pouco.

"Descoberta maravilhosa"

Na semana passada, três séculos depois do acontecido, uma equipe de mergulhadores, chefiada pelo explorador e arqueólogo americano Barry Clifford, criador de um museu dedicado ao naufrágio do Whydah e seu lendário comandante pirata, descobriu, no fundo do mar daquela praia, seis esqueletos em raríssimo bom estado.

E a expectativa é que um deles seja o do próprio Samuel "Sam" Bellamy, que não sobreviveu ao naufrágio, e foi uma das vítimas cujos corpos jamais foram encontrados.

Mas, agora, talvez sim – 304 anos depois da sua morte.

"Foi uma descoberta maravilhosa", disse o pesquisador Barry Clifford, que foi também quem encontrou os restos do Whydah, em 1984. "Agora, vamos comparar o DNA dos ossos com o de alguns descendentes de Bellamy, que nossa equipe descobriu vivendo até hoje na Nova Inglaterra".

Dentro de blocos sólidos

Os esqueletos foram encontrados compactados dentro de blocos de massa solidificada submersa, como costuma acontecer com conchas e outros resíduos marinhos, possivelmente porque ficaram retidos nos restos do barco e foram paulatinamente sendo envolvidos por sedimentos – que ajudaram a conservar as ossadas.

Isso deixa os pesquisadores ainda mais animados com a possibilidade de um dos esqueletos ser o do famoso pirata, porque, como ele era o capitão do Whydah, provavelmente permaneceu no barco até o naufrágio, como manda a praxe.  E pode não ter tido tempo de escapar com vida dele.

Um pirata diferente

Samuel "Sam" Bellamy foi um pirata um tanto fora dos padrões, o que o tornou ainda mais lendário.

Apelidado de "Robin Hood dos Mares", ou "Príncipe dos Piratas ", como ele próprio se apresentava, Bellamy era considerado justo com seus subordinados, generoso nas divisões dos butins, tolerante com outras raças numa época em que predominava o preconceito, sabia ouvir opiniões contrárias e era benevolente até com as vítimas que atacava.

"À sua maneira, Black Sam praticou a democracia muito antes de as chamadas sociedades civilizadas considerarem tal coisa", diz Clifford, um apaixonado pesquisador da vida de Sam Bellamy, que, apesar da fama duradoura, teve vida e carreira curta, como a imensa maioria dos piratas: morreu aos 28 anos de idade, após atuar na pirataria por apenas um ano.

Samuel Bellamy produziu uma espantosa sequência de saques, somando mais de 50 ataques a barcos no Caribe, em menos de 12 meses.

Transformou escravos em piratas

Um deles foi contra o próprio Whidah, então um barco negreiro inglês, que levava escravos para o Caribe.

Whydah Pirate Museum

Em fevereiro de 1717, ele foi atacado pelo bando de Bellamy, que resolveu tomar posse, também, do próprio barco, libertando, em seguida, alguns escravos, mas transformando-os em membros da tripulação.

Ou seja, viraram piratas negros, o que era ainda mais surpreendente para a época.

"Já sabemos que um terço da tripulação do Whydah era formada por homens de origem africana, o que não era nada comum", surpreende-se o pesquisador Barry Clifford.

Para enriquecer ainda mais o folclore em torno do curioso pirata, reza a lenda que sua última viagem, aquela que resultou no naufrágio do barco e morte de quase todos que estavam a bordo, estava sendo feita para encontrar um velho amor, na costa leste americana.

Ossadas viram atração no museu

Por enquanto, os blocos de sedimentos contendo os seis esqueletos dentro estão sendo mantidos no Whydah Pirate Museum, onde já viraram a principal atração do museu, que é totalmente dedicado a Sam Bellamy e seu barco.

Whydah Pirate Museum

No acervo do museu, há mais de 2 mil artefatos recuperados pela equipe de Clifford dos escombros do Whydah, inclusive o icônico sino de bordo, que era badalado antes dos saques, a fim de alertar a tripulação para o iminente ataque.

Agora, o museu dedicado ao famoso pirata, em ProvincetownMassachusetts, tem algo ainda mais extraordinário para exibir: talvez, o próprio Sam Bellamy.

Uma história ainda mais extraordinária

Desde a infância, histórias de piratas sempre povoaram a imaginação das pessoas.

Mas nem todas são pura fantasia.

A de Sam Bellamy e seus princípios revolucionários para a época, é uma delas.

Outra é a do também pirata inglês Edward Teach, bem mais conhecido como Barba Negra, apelido que entrou para a História quase como sinônimo de pirataria, que também existiu de fato.

No entanto, nenhuma história do gênero é tão surpreendente e extraordinária quanto a da inglesa Mary Read, que não só era uma pirata do sexo feminino, como passou anos disfarçada de homem nos diversos barcos em que atuou.

Mas, quando precisava, Mary usava um truque infalível para vencer os combates – clique aqui para conhecer esta curiosa história verídica.

Será ele?

Tal qual Sam Bellamy, a morte de Mary Read também nunca foi devidamente esclarecida pela História.

Mas, no caso do lendário pirata revolucionário, agora, ao menos, surgiu uma esperança.

Será dele um daqueles esqueletos?

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.