PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Histórias do Mar

Lancha que afundou: 5 falhas fatais que levaram os 5 amigos a morrer no mar

Jorge de Souza

13/02/2021 04h00

Fotos: Arquivo Pessoal

No dia 28 de janeiro, cinco amigos (os empresários Ricardo Kirst e Domingos Ribeiro, mais o pescador Wilson Martins, o mecânico José Cláudio Vieira e o capitão Guilherme Ambrósio Nascimento, todos do Ceará) partiram do Rio de Janeiro com o objetivo de chegar a Fortaleza, a bordo da lancha O Maestro.

Mas, menos de dois dias depois, emitiram um incompleto pedido de socorro durante uma tempestade na região do Cabo São Thomé, quase na divisa entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Em seguida, morreram afogados depois que a lancha afundou por completo.

Por que aconteceu a tragédia?

Para especialistas no assunto, a resposta está na infeliz combinação de um infortúnio (o mau tempo, em local perigoso) com uma série de imprudências que as pobres vítimas cometeram.

Como estas cinco.

1 – Não havia bote, balsa, nem coletes salva-vidas no barco

Balsa salva-vidas, uma espécie de bote inflável que fica acondicionada dentro de uma caixa e infla instantaneamente ao ser acionada, não é um equipamento obrigatório em embarcações que navegam perto da costa, como era o caso do roteiro que os cinco amigos fariam, do Rio a Fortaleza.

Mas o bom senso sempre recomenda que se tenha uma a bordo em viagens mais longas, como era o caso. E a lancha dos cinco amigos não tinha esse equipamento, que garante sobrevida aos náufragos por dias – porque, dentro das balsas, há, também, água e comida.

Aparentemente, também não havia coletes salva-vidas na lancha (ou eles não foram usados pelas vítimas), já que nenhum dos corpos trajava esse equipamento.

Coletes salva-vidas, bem como boias, ambos equipamentos obrigatórios em qualquer barco, de qualquer tamanho, poderiam tê-los ajudado a se manter na superfície por algum tempo – ainda que, naquelas condições climáticas (fortes ventos e grandes ondas), talvez não fossem suficientes.

A ausência de um bote inflável, equipamento imprescindível em qualquer embarcação com tamanho suficiente para tê-lo a bordo, como era o caso da O Maestro – que tinha quase 12 metros de comprimento-, foi decisiva para o acidente se tornar fatal para todos os ocupantes da lancha.

Sem a ajuda da embarcação que não afunda, mesmo se encher de água, não há como resistir ao esforço de se manter horas, ou dias, na superfície do mar, apenas pelos próprios meios.

O corpo humano não aguenta tamanho esforço. Ainda mais sob condições adversas, como estava o mar no dia do naufrágio.

Antes de partir do Rio de Janeiro, o dono da lancha, o empresário Ricardo Kirst, foi alertado pelo diretor do Iate Clube Jardim da Guanabara, Anselmo Almeida, onde a lancha estava guardada havia dois anos, sobre a relevância de levar um bote naquela longa viagem.

Ele concordou e disse que iria providenciá-lo.

Mas não o fez.

Ao zarpar do clube, o suporte para pendurar o barco de apoio na traseira da lancha continua vazio.

"Me dá uma dor no peito quando lembro disso", diz Anselmo, entristecido. "Eu devia ter insistido mais para eles levarem um barco inflável. Talvez, agora, estivessem vivos".

E ele completa: "Tenho certeza que o dono da lancha lembrou disso quando ela afundou e eles ficaram boiando no mar, sem nenhum apoio".

2 – Não tinham um plano de navegação para a viagem

Tal qual acontece com a aviação, a navegação também exige um planejamento prévio do roteiro a ser cumprido.

Em nome da segurança, é preciso traçar previamente a rota, fornecê-la à uma equipe de apoio em terra firme, e prever escalas alternativas no roteiro, onde seja possível parar o barco e se abrigar, no caso de um eventual mau tempo impedir de seguir adiante.

Nada disso foi devidamente feito por eles.

Confiando apenas na experiência do capitão da lancha, Guilherme Ambrósio do Nascimento, que já havia feito aquela travessia antes (mas não com um barco tão pequeno, o que faz toda diferença), o grupo, aparentemente, se limitou a seguir a costa, sem estudar previamente o roteiro, nem analisar as cartas náuticas, os "mapas do mar", das regiões por onde passariam.

Isso ficou claro quando, ao perceber a gravidade da situação (ondas altas, ventos violentos e um dos motores do barco fora de operação), o capitão avisou, pelo celular, que "iriam procurar uma ilha para se abrigar" – mas bastava consultar qualquer carta náutica para saber que ali onde eles estavam não havia ilha alguma por perto.

"Foram duas falhas primárias", diz o especialista Márcio Dottori, do portal Minuto Náutico. "Zarpar para uma travessia tão longa sem uma rota traçada, e navegar sem consultar as cartas náuticas. É como querer atravessar metade do Brasil de carro, sem um mapa das estradas", compara.

Outro detalhe confirmou a precariedade do planejamento daquela viagem: eles não sabiam dizer onde estavam.

Quando o pedido de socorro foi disparado, a pessoa que estava ao rádio da lancha que afundava (não se sabe se o capitão ou outro tripulante) não soube dar a posição do barco, nem as coordenadas de localização na carta náutica, a fim de nortear um resgate.

"Ele só dizia que estava 'empopado com o farol de São Tomé', o que, na prática, não ajudava nada, porque aquela área é enorme", lamenta o operador de rádio da plataforma de petróleo de Campos dos Goytacazes que recebeu o pedido de socorro da lancha O Maestro, naquela primeira hora da madrugada de sábado, 30 de janeiro – e que, depois disso, não conseguiu mais dormir.

"Não parei de pensar naqueles coitados, afundando no meio daquela tempestade. Nem eles sabiam onde estavam. Acho que a pessoa que falou comigo ao rádio não sabia ler coordenadas", lamenta o operador, até hoje.

3 – Não queriam fazer paradas no caminho

A rigor, o único plano de navegação que o grupo tinha era o de ir do Rio de Janeiro a Fortaleza sem escalas no caminho – uma meta ambiciosa demais, especialmente para um barco movido a motor, já que seriam mais de 3 000 quilômetros de travessia no mar.

Se o barco deles fosse um veleiro – um tipo de embarcação movida pelo vento, que não depende de reabastecimento, e bem menos sujeito a problemas mecânicos – não haveria maiores problemas. Mas, para uma lancha – ainda mais, com três décadas de uso e após um longo período parada -, sim. E muitos.

A começar pela questão da autonomia, já que seria impossível fazer aquela viagem apenas com o combustível que cabia no tanque da lancha.

Para resolver isso, além de encher o tanque da lancha até a boca, com cerca de 600 litros de óleo diesel, eles também alocaram 12 galões de combustível a bordo, cada um deles com capacidade para 50 litros cada, e os amarraram na frente e atrás do barco – que, com isso, virou uma espécie de tanque mambembe flutuante.

A ideia era ir esvaziando os galões no tanque, na medida em que o combustível fosse acabando. Com isso, julgavam que não precisariam parar para reabastecer no caminho, que era o que pretendiam.

Mas deveriam ter planejado justamente o oposto disso…

Paradas para reabastecimento teriam obrigado o grupo a parar para descansar um pouco em terra firme, já que a viagem era longa demais para ser feita em uma só tacada.

Além do mais, todos os ocupantes da lancha já haviam passado dos 50 anos de idade, portanto, mais sujeitos ao cansaço.

"Eles não conseguiriam ir do Rio a Fortaleza sem parar, em 15 dias, como queriam fazer", arrisca Anselmo Almeida, do iate clube de onde eles partiram, que também é major do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro – portanto, também especialista em segurança.

"É longe demais. E mesmo que o combustível desse para chegar lá, seria praticamente impossível que, durante duas semanas seguidas, eles não pegassem um ou outro dia de tempo ruim no mar. E, quando isso acontece, a única recomendação é parar e esperar melhorar".

"No mar, não se pode ter pressa. É preciso obedecer a natureza", diz Anselmo, que foi uma das últimas pessoas a ter contato com as cinco vítimas da própria imprudência.

"Lembro claramente da nossa despedida. Eu deveria tê-los impedido de partir", lamenta.

4 – Não fizeram a devida revisão no barco

O empresário Ricardo Kirst havia comprado a lancha O Maestro (assim batizada porque o seu primeiro dono fora o famoso regente de orquestras sinfônicas Isaac Karabtchevsky) no ano passado.

Mas só acabou de pagá-la em janeiro deste ano, ocasião em que viajou para o Rio de Janeiro, a fim de preparar a travessia com o barco até Fortaleza.

Enquanto aguardava a chegada dos amigos que fariam a viagem com ele, entre eles, o mecânico José Cláudio Vieira,, informalmente apelidado de MacGyver, pela destreza em encontrar soluções para problemas em barcos, Ricardo promoveu uma revisão superficial na lancha – mesmo sendo um barco com mais de três décadas de uso e estando parado há dois anos.

Entre outras providências, mandou fazer uma revisão rápida nos motores e esvaziar e limpar o tanque de combustível – mas não todo o sistema de alimentação, como filtros e mangueiras, como recomenda o bom senso.

 "As mangueiras de combustível são como artérias do coração. Se entupirem, a máquina para de funcionar e a vítima morre", compara Mário Dottori, do Minuto Náutico.

O primeiro sinal de que havia algo de errado com o sistema de alimentação de combustível para os motores veio logo após a partida do grupo, no próprio dia 26.

Minutos depois de zarparem do iate clube, um dos motores parou de funcionar, por entupimento das mangueiras. A lancha foi, então, levada para outro local, para desentupir o sistema.

"Foi como um alerta. Eles deveriam ter aproveitado o sinal e trocado todo o sistema de alimentação de combustível. Mas, aparentemente, não o fizeram, porque estavam ansiosos demais em partir", analisa o diretor do clube, Anselmo Almeida.

Dois dias depois, o grupo partiu novamente, e avançou sem novos problemas mecânicos só até Cabo Frio, distante apenas 150 quilômetros do Rio de Janeiro.

Ali, o mesmo motor voltou a parar de funcionar

A solução foi bombear combustível para o motor diretamente dos galões de óleo diesel que levavam na lancha, mas esse não é o tipo de operação fácil de ser executada com o barco balançando.

Mesmo assim, conseguiram.

Mas não por muito tempo.

Mais adiante, o mesmo parou uma vez mais de funcionar.

E, desta vez, de vez – ao mesmo tempo em que as condições do mar pioraram radicalmente na região, com muitas ondas e ventos violentos, como a meteorologia já havia previsto.

E o que era ainda pior: na parte mais perigosa daquele trecho da viagem, o temido Cabo São Tomé, no litoral norte do Rio de Janeiro – um local de confluência de correntes marítimas e baixa profundidade, o que gera grandes ondas e potencializa as tormentas.

A infeliz combinação de mar furioso em local perigoso, com a falta de bote ou balsa salva-vidas, e pane mecânica causada por negligência na manutenção do barco acabaria sendo fatal para os cinco amigos.

Isoladamente, talvez nenhum desses três motivos conseguisse provocar o naufrágio da lancha. Mas, combinados, se tornaram letais.

Não havia como escapar.

5 – Não prestaram a devida atenção à previsão do tempo

Desde o princípio, o dono da lancha havia demonstrado ansiedade em iniciar a viagem.

Era compreensível. Tratava-se de um velho sonho. Ele até pretendia filmar toda a travessia, para, depois, postar em um canal do YouTube.

Em várias ocasiões, no entanto, foi aconselhado por membros do iate clube onde a lancha estava guardada há anos a adiar a partida (ou mesmo cancelá-la, enviando o barco por transporte terrestre até Fortaleza), para ter tempo de revisar corretamente toda a embarcação, antes de iniciar uma viagem tão longa.

O clube chegou a oferecer isenção do pagamento das diárias de permanência da lancha, enquanto uma revisão realmente completa fosse feita no barco, bem como alojamento para ele durante esse tempo.

Ricardo Kirst agradeceu, mas recusou.

Queria partir logo.

Assim que os amigos chegaram de Fortaleza, o dono da lancha mandou colocar o barco na água, fez os últimos procedimentos e partiu. Para sempre.

Ao zarparem do iate clube, a previsão do tempo para a região não era ruim.

Mas, dois dias depois, quando finalmente conseguiram sair da Baía de Guanabara, após aquela parada para reparar um dos motores da lancha, a história já era outra.

Uma frente fria se aproximava da costa e a previsão da Marinha era de muito vento e grandes ondas, nos dias subsequentes.

Não se sabe se a tripulação da lancha checou a previsão do tempo antes de partir, ou se a atualizou durante o trajeto inicial.

Mas o fato é que, apenas um dia depois, as condições do mar pioraram radicalmente (como havia sido previsto), e, para azar deles, isso aconteceu justamente quando atingiram o perigoso Cabo São Thomé, e quando navegavam com apenas um dos dois motores do barco, porque o outro parara de funcionar novamente, pela terceira vez.

Naquela noite de sexta-feira, 29 de janeiro, quando navegando precariamente, com apenas um motor em funcionamento, eles atingiram a região do Cabo São Thomé, o vento já passava dos 80 km/h e as ondas beiravam os três metros de altura, com uma implacável sequência de uma nova onda a cada seis segundos – menos tempo do que você levou para ler esta simples linha!

Um mar muito perigoso. Especialmente naquele local onde eles estavam.

E foi ali também que o pior de tudo aconteceu: por causa das ondas, o barco começou a encher de água, fazendo com que o segundo motor também parasse de funcionar.

Com isso, a lancha ficou totalmente à deriva, sem condições de ser manobrada e enfrentar melhor as ondas e o vento.

Desesperados, eles jogaram a âncora ao mar, na tentativa de deter o barco, enquanto pediam socorro pelo rádio.

Não adiantou.

Não só não conseguiram informar o local exato onde estavam, como não conseguiram sequer terminar o pedido de socorro.

As últimas palavras de um dos tripulantes ao rádio foram: "Estamos indo para o mar" – sem bote, sem balsa, sem boias nem coletes salva-vidas.

Dez dias depois, o último dos cinco corpos foi resgatado.

Todos haviam morrido afogados.

Um caso parecido, sete anos atrás

A infeliz sequência de infortúnios e imprudências cometidas pelos cinco amigos naquela trágica viagem trouxe à memória dos especialistas no assunto outro caso recente e tristemente famoso, ocorrido na costa brasileira – e que, também, resultou na morte de todos os ocupantes de um veleiro de bandeira argentina, que vinha de Buenos Aires para o Rio de Janeiro.

Em agosto de 2014, quatro amigos argentinos desapareceram no mar, em algum lugar da costa do Rio Grande do Sul, depois que o veleiro Tunante II afundou, vítima de uma violenta tempestade, que eles também sabiam que chegaria.

Mesmo assim, decidiram partir, porque queriam chegar logo ao Rio de Janeiro.

O desaparecimento dos quatro velejadores causou comoção nacional na Argentina e gerou uma das mais intensas campanhas de buscas, tanto no mar quanto na internet, através de imagens de satélites, da história recente daquele país – clique aqui para conhecer esta impressionante história.

Em diversos aspectos, o triste fim dos cinco amigos brasileiros guarda muitas semelhanças com o que aconteceu com aqueles quatro argentinos.

Com a diferença de que seus corpos jamais foram encontrados.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.