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Afundou: Salvador faz festa para comemorar o naufrágio do velho ferry boat

Jorge de Souza

21/11/2020 16h22

Foto: @brasilnasalturas

Embora com bem menos festa do que havia sido originalmente programado, para evitar aglomerações em tempos de pandemia, Salvador comemorou, na manhã deste sábado, o afundamento proposital de um velho ferry boat, bem diante da cidade.

O ferry-boat Agenor Gordilho, velho conhecido dos habitantes da capital baiana, que durante quase meio século fez a travessia de carros e passageiros entre Salvador e a ilha de Itaparica, e estava desativado há três anos, agora vai virar atração submarina para turistas mergulhadores, juntamente com um antigo rebocador do porto baiano, o Vega, que também foi afundado na mesma ocasião:

Foto: @brasilnasalturas

"Esses dois naufrágios intencionais deveriam ter acontecido no ano passado, quando tínhamos programado fazer uma espécie de Carnaval no mar, que também marcaria a abertura do verão em Salvador. Mas, com a pandemia, tivemos que fazer um evento mais modesto", disse o secretário de turismo da Bahia, Fausto Franco.

"Queríamos ter convidado a população inteira da cidade, mas, ainda assim, quem estava nos prédios e na orla da Baía de Todos os Santos pode acompanhar os barcos afundando, além das pessoas que vieram de lanchas e jet skis para ver de perto", disse o secretário, que foi um dos grandes incentivadores da ideia de transformar os afundamentos em um evento alegre, em vez de trágico, como costumam ser os naufrágios.

"Não é todo dia que se pode ver dois barcos tão grandes assim afundando, e, ainda por cima, em clima de alegria", brinca o secretário, que de festa entende um bocado, já que trabalhou durante muito tempo com a banda Chiclete com Banana.

Vão gerar vida marinha

Os dois barcos foram afundados a pouco mais de um quilômetro e meio da margem, bem diante da cidade, mas em um local onde a profundidade passa dos 35 metros, para não comprometer a navegação.

O objetivo do duplo afundamento foi abrir espaço nos estaleiros onde eles jaziam parados há anos, e aumentar o cardápio de atrações do Parque dos Naufrágios Artificiais da Baía de Todos os Santos, que já abriga outras embarcações também afundadas propositadamente, além de restos de antigas naus históricas dos tempos em que Salvador era o principal porto do Brasil, para incrementar o turismo subaquático e fomentar a vida marinha, já que, após um tempo debaixo d'água, os naufrágios se transformam em recifes artificiais e fonte de alimentação para peixes e outros seres.

A grande ponte que vai por fim aos ferry boats

Os naufrágios intencionais também fazem parte do projeto do governo baiano de incrementação náutica da Baía de Todos os Santos, que, além de novas marinas e passeios turísticos a bordo de saveiros históricos, também ganhará uma gigantesca ponte, nos moldes da Rio-Niterói, só que ainda maior, ligando Salvador à Ilha de Itaparica – justamente a travessia que o famoso ferry boat afundado esta manhã fez durante quase 50 anos.

O contrato de construção da ponte, que será construída por uma empresa chinesa e, segundo o governo baiano, promete ser a maior obra pública do Brasil nos próximos anos, foi assinado na semana passada e prevê quatro anos para ficar pronta.

"Quando a ponte entre Salvador e Itaparica ficar pronta, todos os outros ferry boats que hoje fazem a travessia também serão afundados na baía, porque não terão mais serventia", comemora o secretário de turismo do estado.

Uma hora para afundar no mar

Foto: Ulgo Oliveira/Seinfra

Com 70 metros de comprimento, altura de quatro andares e, na época em que atuava, capacidade para mais de 300 passageiros e 32 automóveis, o ferry boat Agenor Gordilho levou cerca de uma hora para afundar, desde a abertura das válvulas no casco até ser completamente engolido pelo mar.

A ação foi coordenada por uma empresa especializada, a Engesub, contratada pela secretaria para operacionalizar os naufrágios, que, antes, tratou de limpar e livrar as duas embarcações de tudo o que pudesse causar danos ao meio ambiente da baía, além de cuidar para que elas afundassem em "posição de navegação", ou seja, que chegassem ao fundo da baía como se ainda estivesse navegando, o que agrada ainda mais os mergulhadores.

Foto: @brasilnasalturas

Cansei de atravessar para Itaparica nesse ferry boat e, agora, vou poder revisitá-lo debaixo d´água", diz, com alegria, o mergulhador baiano Bruno Souza, de uma das seis empresas que promovem mergulhos em Salvador.

Atração para turistas mergulhadores

O ferry boat e o velho rebocador do porto de Salvador foram afundados bem perto um do outro, para que os mergulhadores possam visitar os dois barcos com facilidade, o que os tornará ainda mais atraente aos turistas mais aventureiros que visitam a capital baiana.

"O turismo submarino atrai um público específico, mas de bom poder aquisitivo", diz o instrutor de mergulho Igor Carneiro, dono da maior operadora de mergulho de Salvador, a Shark Dive, que comprou a sucata do rebocador e conseguiu a doação do ferry boat para o duplo naufrágio. "E isso ajuda a girar a cadeia inteira do turismo, das companhias aéreas aos hotéis e restaurantes, o que é a prioridade de todos que dependem dos turistas nesse momento".

Festa até o último segundo

Foto: @brasilnasalturas

Segundo o secretário Fausto Franco, a visitação aos dois barcos recém-afundados começará imediatamente, para quem quiser ver o famoso ferry boat ainda inteiro no fundo da mesma baía que ele atravessou durante 45 anos.

"Isso vai trazer muitas lembranças para muita gente, porque, em Salvador, os ferry boats que atravessam para Itaparica são quase como membros da família ", aposta o secretário.

Mas, felizmente, nenhuma lembrança tenderá a ser ruim, porque, apesar dos muitos anos em que operou na baía, o Agenor Gordilho não passou por nenhum momento realmente crítico ou tenso, como o que acometeu, por exemplo, o ferry boat cubano Baragua, que foi sequestrado 17 anos atrás por um grupo de passageiros desesperados, na baía de Havana, que queriam desviá-lo para Miami (clique aqui para conhecer esta interessante história, que, no entanto, teve um final chocante).

Já o velho ferry boat baiano terminou os dias dentro do melhor espírito da Bahia – com festa, até o último segundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.