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Histórias do Mar

Como um barco com mais de meio século venceu na regata mais difícil do ano

Jorge de Souza

29/10/2020 09h11

Foto: @jonas_tresnomundo

Foram necessários quase quatro dias e noites inteiras para que o velho veleiro Aventura vencesse os poucos mais de 500 quilômetros de mar que separam a Baía de Santos da cidade do Rio de Janeiro. O barco construído em 1957 e com casco ainda de madeira participava da regata oceânica mais tradicional do Brasil, a Santos-Rio – que, este ano, comemorou 70 anos de existência.

O motivo de tamanha dificuldade foram as condições do mar entre a última sexta-feira (23), quando foi dada a largada para a prova, em Santos, e a chegada, quatro dias depois, no Rio de Janeiro,  que estavam difíceis demais.

Os ventos, contrários à direção na qual os barcos tinham que avançar, passaram dos 50 km/h, e as ondas beiraram os três metros de altura, o que gerou um desgaste enorme nas tripulações e uma quantidade recorde de abandonos e desistências entre os competidores.

Foto: IC Santos/Divulgação

Dos 68 veleiros que participaram da competição, que reuniu mais de 500 velejadores e alguns dos principais iatistas do país, mais da metade não conseguiu completar o percurso.

Pancada na cabeça

Foram 37 desistências e algumas delas preocupantes, como a do veleiro Kaze, cujo mastro caiu por conta do vento forte e atingiu a cabeça um dos tripulantes – cujo resgate sequer pode ser feito por outro barco, porque as ondas não permitiam uma aproximação segura.

Em uma das categorias, chamada de Bico de Proa, não houve sequer vencedor, porque nenhum dos barcos inscritos conseguiu chegar ao Rio de Janeiro.

"Foi uma regata dura, muito dura", avaliou o velejador profissional Lars Grael, dono de duas medalhas olímpicas. Seu irmão Torben Grael, um dos maiores velejadores brasileiros de todos os tempos, também participou da competição, mas em outro barco, com uma tripulação formada só por jovens aprendizes da escola de vela que ele mantém – e que também disse que não foi nada fácil.

Se afastar, para tentar avançar

O mar, muito agitado e com ondas desencontradas, castigou os barcos dia e noite, e obrigou as tripulações a traçarem estratégias diferentes, para tentar seguir avançando, rumo ao Rio de Janeiro.

Enquanto os comandantes de alguns barcos optaram pela pseuda segurança da costa, navegando mais perto do litoral, outros fizeram exatamente o contrário, e rumaram para o alto mar, onde, ao menos, não havia o risco de colisão com pedras e ilhas.

"Foi uma regata bem difícil, digna dos 70 anos do desafio que é a Santos-Rio", comemorou o presidente da Associação Brasileira de Vela de Oceano, Mario Martinez.

Só quatro dias depois

As condições de navegação durante a competição eram tão precárias que chegou a ser cogitada a suspensão da regra que determinava um prazo máximo de quatro dias para a chegada dos barcos ao Rio de Janeiro.

E alguns barcos, de fato, só cruzaram a linha de chegada poucas horas antes do prazo máximo estipulado.

Um deles foi o próprio veleiro Aventura, construído 63 anos atrás e o mais antigo barco da regata. E que, apesar de tudo isso, venceu na sua categoria, a de veleiros clássicos.

O Aventura venceu na categoria Belle Classe, assim chamada por ter a chancela do elegante Yacht Club de Mônaco, mas não o foi o primeiro barco do gênero a cruzar a linha de chegada.

Outro velho veleiro, o Áries, chegou quatro horas antes, mas perdeu o troféu para o Aventura no "Tempo Corrigido", uma fórmula matemática que permite que barcos de diferentes tamanhos participem da competição com igualdade de condições.

Sem comer, nem dormir

"Foi quase exaustivo, mas completamos o percurso, o que era o nosso principal objetivo. E em primeiro lugar, o que foi melhor ainda", comemorou a velejadora Renata Liu, única mulher na tripulação do Aventura, que teve quatro homens a bordo, todos tão maduros na idade quanto o próprio barco.

"Não dava para dormir, porque o interior do barco ficava o tempo todo molhado, nem para comer, porque era impossível cozinhar com o mar tão agitado. Fiquei toda roxa, de tantas pancadas, e bastante cansada, porque o Aventura é um veleiro pesado e isso torna as manobras muito mais desgastantes", disse Renata, na chegada. "Foi um teste de resiliência. Havíamos combinado que não desistiríamos e não desistimos!".

Para compensar o esforço de conduzir um barco tecnicamente ultrapassado sob condições de mar que fizeram metade da flotilha abandonar, o capitão do sexagenário veleiro, Atila Bohm, tomou a decisão de navegar bem perto da costa. Lá, o vento era um pouco mais fraco. Mesmo assim, fez duas quase paradas no caminho – o que não deixa de ser contraditório em uma competição que se resume a uma corrida contra o tempo – para a tripulação do Aventura se recompor fisicamente.

"Só então conseguimos comer uma refeição, e isso fez toda diferença no nosso rendimento dali em diante", diz Renata, que, tal qual a esmagadora maioria dos competidores, chegou ao Rio de Janeiro clamando por uma cama e um chuveiro.

"Ficamos quatro dias sem tomar banho, porque, ainda por cima, quebrou a bomba de água do barco. Mas, de resto, foi tudo bem com o barco. Ele chegou inteiro e em primeiro.

Barco de 1957

Construído entre 1955 e 1957, o Aventura é um veleiro feito ainda de madeira e sem nenhum equipamento moderno de navegação.

Foi restaurado recentemente, graças à ajuda financeira de um patrocinador entusiasta de barcos antigos, e desde então vêm participando de regatas oceânicas.

Sua participação na Santos-Rio foi, também, uma homenagem aos veleiros do passado que brilharam nesta competição, criada quase na mesma época que o Aventura foi lançado.

Mas pouquíssimos barcos resistiram ao tempo.

A começar pelo mais famoso de todos, o veleiro Vendaval, primeiro veleiro oceânico que o Brasil teve, que participou das primeiras edições da Santos-Rio, antes de iniciar uma triste saga, de mão em mão, até acabar, abandonado e desmantelado, nos fundos de um galpão, onde seus restos estão até hoje, a despeito de se tratar de um barco histórico – clique aqui para conhecer esta história.

"Com o Aventura não vai acontecer isso", garante o atual proprietário do barco, José Bastiani, mais conhecido como "Chicão" (embora não se chame Francisco), que comemorou bastante a vitória na mais prestigiada regata oceânica de longo percurso do país, que teve o veleiro Ventaneiro como vencedor geral, e os barcos Pangea, Pinguim e Rudá, este comandado por Torben Grael, nas demais categorias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.