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Acusados de tráfico e infectados por covid: drama em navio preso há 2 meses

Jorge de Souza

24/10/2020 04h00

Fotos: Arquivo Pessoal Jesús Russo

Há praticamente dois meses, desde 28 de agosto, um grande navio encontra-se detido próximo ao porto da capital de Trinidad e Tobago, com todos os seus 17 tripulantes impedidos de desembarcar, sob a acusação de tráfico internacional de drogas, armas e munições – algo nada raro nos dias de hoje.

Só que o navio, o petroleiro de bandeira panamenha Star Balboa, já foi vistoriado de proa a popa e de cima a baixo algumas vezes, teve os tanques esvaziados, cabines revistadas, partes do teto arrancadas, casco checado por mergulhadores especializados, câmeras de vigilância instaladas, porões rastreados por cães farejadores e nada foi encontrado.

Há quase dois meses, agentes de órgãos de combate ao tráfico vasculham o navio e não encontram nada. Mesmo assim, o navio e seus tripulantes seguem retidos. Por quê?

"É o que eu também queria saber", diz o capitão do navio, o comandante espanhol Jesús Russo, com mais de 35 anos de mar e uma ficha tão limpa quanto, ele garante, o seu navio.

Ação cinematográfica

"Uma semana depois que chegamos a este porto, sem nenhuma carga, só para retirar o lixo, abastecer o navio com água e comida e esperar por algum frete, veio um pelotão com uns 50 agentes armados, anunciando que estávamos detidos por tráfico. Mas tráfico do que, se o navio estava vazio e eles mesmos comprovaram isso?", questiona o comandante, que diz não saber mais o que fazer.

"Nós até ajudamos eles nas buscas, mostramos todo o navio, colocamos nossos pertences à disposição, mas não adiantou. Passamos de trabalhadores honestos a traficantes e delinquentes, e seguimos sendo tratados assim, quase dois meses depois. Estamos presos em nosso próprio navio, sem poder desembarcar nem partir, e ainda sem nem saber por quê?

Ao que tudo indica, a suspeita de que o navio estaria transportando algo ilícito teria partido do poderoso Departamento Antidrogas dos Estados Unidos, o DEA, que estaria trabalhando em colaboração com as autoridades da ilha, a fim de reprimir o tráfico de cocaína.

Daí a convicção que os agentes tinham de que encontrariam algo de errado no petroleiro ao abordá-lo, numa ação quase cinematográfica, que incluiu o imediato desligamento de todos os meios de comunicação do navio e até o confisco dos celulares dos tripulantes – que ficaram sob a vigilância de policiais armados.

Mas nem isso impediu que a operação se tornasse um completo fiasco.

Além de ter gerado um problema a mais para os tripulantes do navio: a contaminação pelo vírus da covid-19.

Contaminados pelos policiais

"Nós chegamos aqui saudáveis e sem nenhum caso de covid a bordo, mas, uma semana depois que começaram as buscas no navio, um a um fomos ficando doentes, até que 14 dos nossos 17 tripulantes foram dados como contaminados, inclusive eu", conta o comandante do petroleiro, que passou a ser chamado de "Navio da Covid".

"Os agentes chegavam no navio sem máscaras e nenhum cuidado. Isso fez com que, além de difamados e caluniados, nós ainda ficássemos contaminados", diz o comandante, que passou a clamar por ajuda legal e também médica.

Dos 17 tripulantes do navio, oito são panamenhos, quatro venezuelanos, um argentino, um colombiano, um peruano, um nicaraguense, além do comandante, que é espanhol. Mas todos já estão recuperados.

"Graças a Deus, ninguém precisou ir para o hospital, porque nem sei se eles permitiriam isso", analisa o comandante, que pediu a intervenção do governo do Panamá, país no qual o navio está registrado.

Virou crise diplomática

O caso virou, também, uma crise diplomática entre o Panamá e o governo de Trinidad e Tobago que, apesar das pressões, não se manifesta sobre a apreensão do navio, que já dura oito semanas.

"Neste momento, até a Organização dos Estados Americanos está tentando interceder, nem que seja para ficar claro por que estamos sendo mantidos nesta prisão flutuante, já que não foi encontrado nada no navio, nem será, porque não temos nada a esconder", diz o comandante, que tem uma única explicação para o que está acontecendo:

"Os agentes de Trinidad e Tobago cometeram um equívoco, abordaram o navio errado e, agora, não sabem o que fazer", diz o comandante.

"Meu receio é que, para justificar o erro grosseiro, eles decidam 'plantar' alguma prova qualquer contra nós no navio", teme o espanhol.

Crime também ambiental

Além de contaminar os tripulantes do Star Balboa com o vírus da covid, os agentes de Trinidad e Tobago, país formado por duas ilhas, no limite entre a América do Sul e o Caribe, também forçaram a tripulação a cometer crime ambiental, ao ordenar que os tanques de lastro do navio fossem esvaziados no próprio local de ancoragem, a menos de quatro milhas da costa, o que é proibido pelas convenções marítimas, a fim de examiná-los.

E nada encontraram.

Depois disso, não visitaram mais o navio, que segue proibido de levantar âncora e partir, apesar da ameaça da empresa dona do petroleiro de cobrar o pagamento de cerca de R$ 65 mil por dia, pelo custo do navio parado.

O caso dos jovens brasileiros

Usar o mar como rota para o tráfico de drogas e os navios como meio involuntário de transporte não é nenhuma novidade.

Que o diga o agora notório traficante André do Rap, cuja especialidade sempre foi despachar cocaína do Brasil para a Europa escondida em meio à carga, em navios que partem do porto de Santos.

No entanto, mesmo pequenos barcos particulares, sobretudo veleiros com capacidade de cruzar oceanos, costumam ser usados para este propósito – e nem sempre com o conhecimento dos seus tripulantes, como parece ser o caso do navio panamenho.

Imagem: Arquivo Pessoal Rodrigo Dantas

Um caso particularmente dramático, que ficou famoso no Brasil três anos atrás, envolveu quatro jovens velejadores brasileiros, que foram contratados para conduzir um veleiro até a Europa, mas, ao chegarem em Cabo Verde, foram flagrados com uma tonelada de cocaína escondida em compartimentos secretos no fundo do casco, sem que eles soubessem da existência da droga – clique aqui para conhecer essa história, que rendeu, injustamente, quase dois anos de prisão aos brasileiros, até que o erro foi reparado.

"Só queremos poder levantar âncora e ir embora, já que não existe nada contra nós", diz o comandante do navio panamenho, que, há quase dois meses, se sente como um prisioneiro em seu próprio navio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.