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Brasileira larga tudo pela vida no mar e comanda barco no “Fim do Mundo"

Jorge de Souza

03/10/2020 04h00

Um dia, 24 anos atrás, quando já somava 32 anos de idade, a mineira Christina Amaral surtou.

Dona de um pequeno restaurante em Belo Horizonte, ela se deu conta de que se aproximava da metade da vida e que, se quisesse mudá-la, era preciso agir enquanto houvesse tempo para recomeçar do zero.

O objetivo era apenas ser feliz e fazer aquilo que lhe dava prazer. Ou seja, viajar.

Primeiro, Christina pensou em virar aeromoça, único jeito de viajar bastante sem ter dinheiro. Mas a baixa estatura (1,56 m) jogou contra.

Depois, tentou entrar para a Marinha, após experimentar o prazer de velejar pequenos barquinhos nas lagoas mineiras. Mas, naquela época, ainda havia restrições à mulheres em navios.

Foi quando Christina surtou de vez.

Fechou o restaurante, entregou o apartamento onde morava, comprou uma Vespa e saiu viajando pelo litoral brasileiro, em busca de um barquinho para comprar, que coubesse no seu orçamento.

O plano era morar no próprio barco e viajar com ele.

Christina rodou quase 11 mil quilômetros com a insólita Vespa, subiu toda a costa brasileira, até o Nordeste, mas achou o que buscava: um pequeno veleiro usado, de pouco mais de 6 metros de comprimento, sem motor nem banheiro, que passou a ser o seu novo lar e no qual mora até hoje, mais de 20 anos depois.

Só que, desde o início deste ano, o endereço de Christina tem sido outro. E bem mais distante: o extremo sul da América do Sul, na Patagônia, região conhecida como Fim do Mundo – porque, depois dela, não há mais nada até o deserto gelado da Antártica.

Já avó, mas na ativa

Ali, em meio a paisagens deslumbrantes, mas banhadas por um dos mares mais violentos do planeta, Christina, que é capitã profissional e já respeitada por todos os marinheiros da região, divide o comando de um veleiro que tem o dobro do tamanho do seu com outro brasileiro, sócio no negócio que eles criaram: levar brasileiros, sobretudo mulheres, para navegar nas águas do Fim do Mundo.

"Achei o meu cantinho no mundo, aqui, no Fim do Mundo", brinca Christina, hoje com 56 anos, mãe de um filho de 38, avó de uma netinha de 1 ano, e com quatro casamentos no currículo – nenhum deles vigente no momento. "Porque os companheiros que tive não eram tão apaixonados pelo mar quanto eu", explica.

"A Terra do Fogo é linda e tem muitos lugares aonde o homem ainda não pôs as mãos", diz Christina. "Meu pedacinho favorito é Porto Toro, que é um povoado com apenas 23 moradores, todos em total entrosamento com a natureza. É onde eu gostaria de morar também. Mas…".

Na semana passada, após meses retida no barco dentro de uma marina da cidade de Ushuaia, na Argentina por conta da pandemia, que fechou todos os portos e fronteiras da região –, Christina decidiu retornar provisoriamente ao Brasil, de avião, para aguardar aqui a hora de voltar para lá.

E já não vê a hora de isso acontecer.

Ensina mulheres a navegar

Desde que decidiu mudar radicalmente de vida, Christina, que também é chef de cozinha ("Cozinhar é algo do meu passado que eu ainda adoro, só que, agora, faço isso dentro do barco"), ganha a vida como capitã profissional, conduzindo barcos para onde seus proprietários quiserem, e dando cursos de vela, especialmente para mulheres, algo que ainda é uma quase novidade no Brasil.

"Ensinar mulheres a velejar é muito gratificante, porque remete ao meu passado, quando decidi tornar a navegação o meu ganha-pão, mesmo sendo um ambiente tradicionalmente masculino. Por isso, criei uma escola de vela só para mulheres e, tão logo acabe a pandemia, vou voltar a levar minhas alunas para navegar no Fim do Mundo, aonde a imensa maioria dos velejadores homens jamais pôs os pés", diz Christina, que também é uma das coautoras de um livro recém-lançado, escrito só por mulheres que gostam de barcos, o Mulheres Velejando pelo Mundo, que traz relatos de 14 brasileiras que, em comum, possuem uma enorme paixão pela navegação.

Vai para onde o vento levar

"Navegar é o que eu gosto de fazer, é como vivo e onde ganho o meu sustento", resume Christina, que nem de longe pensa em voltar a viver em terra firme – muito menos em Minas Gerais, que nem mar tem.

"Não sou de fazer planos e sempre prefiro ver para onde o vento vai me levar. Mas já aprendi que a vida de verdade só acontece quando a gente sai da nossa zona de conforto, que foi o que eu fiz, quando joguei tudo pro alto e sai de Belo Horizonte, em busca do mar.

E é nele que, hoje, Christina busca novas experiências, comandando um veleiro em um dos mares mais difíceis do planeta: o que banha o Cabo Horn, ponto extremo do continente sul-americano, bem pertinho de Ushuaia, onde dois oceanos, o Pacífico e o Atlântico, se encontram (clique aqui para saber por que este pedacinho de terra firme, antes da Antártica, é tão temido pelos navegantes).

Experiencechile.org

O pior pedaço do Fim do Mundo

"Para mim, o Cabo Horn é como um portal para um mundo ainda selvagem e inóspito", define a brasileira, que esteve lá algumas vezes durante sua última temporada de navegação no extremo sul do continente.

"O frio que vem da Antártica é constante, as ondas costumam ser gigantes e o vento é tão violento que a única família de faroleiros que vive lá precisa fazer até testes psicológicos prévios, para avaliar se não irão enlouquecer. Mas, para mim, navegar no Cabo Horn é ter certeza que estou viva e fazendo o que eu realmente gosto".

A mineira Christina não sente saudade alguma da vida que levava antes de descobrir sua verdadeira vocação: navegar no Fim do Mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.