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O que pode explicar os ataques de orcas contra barcos na Espanha

Jorge de Souza

19/09/2020 04h00

Nos últimos dois meses, o litoral da Galícia, na costa da Espanha, tem sido palco de acontecimentos que estão deixando os cientistas intrigados e os donos de barcos bastante assustados.

Ali, desde o início de julho, já foram registrados 22 casos de incidentes (para muitos, autênticos ataques) de orcas, cetáceos da família dos golfinhos, erroneamente conhecidas como "baleias assassinas", contra pequenos barcos de passeio.

Os dois casos mais recentes aconteceram esta semana e seguiram o mesmo padrão das ocorrências anteriores: um grupo de orcas (não se sabe se o mesmo) cercou dois barcos que navegavam na mesma região e passou a desferir golpes e esbarrões mais violentos na parte submersa dos cascos, gerando apreensão e medo nos seus ocupantes.

Um caso atrás do outro

O primeiro caso aconteceu no início do verão europeu, quando um veleiro de bandeira inglesa passou quase uma hora sendo seguidamente abalroado por um grupo de nove orcas naquela parte da costa espanhola, até que, por fim, teve o seu leme avariado pelos choques com os animais e precisou ser rebocado.

A partir daí, os casos foram se sucedendo com uma frequência cada vez mais intensa, mas sempre com o mesmo padrão de comportamento: as orcas se aproximam dos barcos e passam a golpeá-los, aparentemente sem nenhum motivo.

Algumas orcas chegam a morder partes submersas dos barcos, num comportamento tão incomum quanto preocupante.

"Arrancaram o barco das minhas mãos"

Até agora, nenhum barco afundou por conta dos choques provocados pelas orcas, mas todos ficaram à deriva e tiveram que ser rebocados, depois de pedir ajuda pelo rádio às autoridades marítimas – que, por isso mesmo, estão emitindo alertas a todas as embarcações para que evitem contato e fiquem longe das orcas.

Mas como, se são elas que se aproximam dos barcos?

No mês passado, aconteceram diversos casos – sempre na mesma região.

Um casal inglês que navegava com seu veleiro durante a noite chegou a sentir o barco ser "erguido" pelos animais, depois se sucessivas pancadas no casco.

Em outro caso, um novíssimo veleiro que estava sendo levado para ser entregue ao seu dono, foi golpeado "pelo menos 15 vezes", de acordo com o comandante do barco, o inglês Justin Crowther, e acabou também perdendo o leme. "Elas praticamente arrancaram o veleiro das minhas mãos", disse ele, ao ser rebocado nas imediações da cidade de La Coruña.

O barulho era assustador. As orcas se jogavam de encontro ao barco, enquanto assobiavam alto, como se estivessem coordenando o ataque. Em certo momento, fizeram o nosso barco girar 180 graus. Achei que íamos capotar", contou a bióloga inglesa Victoria Morris, que era uma das tripulantes do veleiro na ocasião.

Já o caso que teve maior repercussão foi o do veleiro da Armada Espanhola, Mirfak, com experientes marinheiros a bordo, que foi atacado na mesma região por um grupo de orcas, que não sossegou enquanto não arrancou o leme do barco para, em seguida, passar a mordê-lo na superfície, para espanto da tripulação.

"Nunca vi isso", disse um dos marinheiros.

Três ataques no mesmo dia

Este mês, está sendo ainda pior. Na semana passada, em menos de 24 horas, três barcos foram atacados na mesma área, possivelmente pelo mesmo grupo de orcas.

O primeiro ataque aconteceu logo após a meia noite da última segunda-feira e envolveu o veleiro francês Amadeus, que tinha um casal a bordo. Três horas depois, a vítima foi o veleiro espanhol Urki 1, no qual viajavam dois casais.

E, no mesmo dia, à tarde, foi a vez do veleiro inglês Aliana, que levava dois amigos.

Nos três casos, os lemes dos barcos foram seriamente avariados pelos impactos, mas ninguém se feriu.

O que dizem os especialistas

Os especialistas em animais marinhos ainda não sabem exatamente por que tantos casos assim vêm ocorrendo naquela parte da costa espanhola este ano.

"Isso é bem incomum", diz a coordenadora de Estudo dos Mamíferos Marinhos da Galícia, que tem a mesma opinião do especialista em cetáceos Ezequiel Cazalla, que classificou os episódios como "muito estranhos".

Mas todos são unânimes em afirmar que não se trata de um fenômeno inédito, porque, todos os anos, durante o verão europeu, as orcas se aproximam bastante da costa entre Portugal e a Espanha em busca de cardumes dos atum, um dos seus alimentos preferidos.

"Este ano, porém, a quantidade de barcos na região aumentou bastante, o que pode ter facilitado estes ´encontros´", arrisca um dos técnicos, sem, contudo, muita convicção.

As orcas podem também estar estressadas com o intenso movimento de barcos, já que isso atrapalha a captura dos atuns"

Orcas versus pescadores

Em algumas áreas do mar espanhol, a velha disputa entre orcas e pescadores pelos cardumes de atum já gerou tensos embates.

Na região de Gilbraltar, os pescadores costumam se guiar pelas orcas para localizar os cardumes e, ao chegarem lá, tentam afugentá-las, o que, às vezes, gera retaliações dos animais.

Por outro lado, as orcas já aprenderam a roubar atuns das linhas dos pescadores, deixando-os apenas com as cabeças dos peixes, o que só faz aumentar a rivalidade.

Mas é pouco provável que as orcas que estão atacando os barcos na costa espanhola sejam as mesmas que frequentam as águas de Gilbratar ou que estejam "se vingando" contra os barcos errados.

Os pesquisadores ainda não têm todas as respostas, mas é certo que por trás do comportamento incomum daqueles animais, estão os cardumes de atum, que costumam se aproximar da costa espanhola nesta época do ano. E, junto com eles, chegam as orcas.

Seriam brincadeiras?

O biólogo marinho Bruno Díaz, do Instituto de Pesquisas de Golfinhos acredita, porém, que há, sim, um envolvimento grupal das orcas no caso dos ataques na região da Galícia.

"Talvez seja um único grupo que esteja causando tudo isso, já que alguns incidentes aconteceram bem próximos uns dos outros. E pode ser que isso esteja acontecendo porque, neste grupo, podem haver indivíduos jovens, que são naturalmente mais curiosos acerca dos barcos", pondera o especialista.

Orcas se aproximarem dos barcos não é algo nada raro, já que elas têm o mesmo comportamento dos golfinhos. Mas, no caso da Espanha, o que tem chamado a atenção é a forma como essas aproximações têm se dado – com trombadas intencionais nos cascos.

"Pode ser que algumas orcas mais jovens gostem de brincar com os lemes dos barcos, já que eles se movimentam", pondera outro especialista, Alfredo López.

"O problema é que o leme é justamente a parte mais vulnerável e importante para a navegação de qualquer barco. E o simples contato com um animal de peso, como as orcas, invariavelmente resulta em quebra do equipamento, o que deixa os barcos à deriva, numa situação que pode perigosa", avalia.

Mesmo assim, López descarta qualquer possibilidade de ataques intencionais das orcas contra os ocupantes dos barcos. "Não há evidências, em nenhuma parte do mundo, de ataques premeditados de orcas contra seres humanos e elas tampouco saltam propositalmente sobre os barcos para afundá-los", tranquiliza. "Mas acidentes mais sérios causados por essas colisões podem, sim, acontecer", reconhece.

Afundados por uma baleia

A colisão entre grandes seres marinhos (baleias, principalmente) e pequenos barcos é algo bem mais frequente do que parece. E nem sempre sem maiores consequências para as embarcações.

Ao contrário, ser abalroado acidentalmente por uma baleia no meio do oceano é uma das maiores preocupações dos donos de veleiros, um tipo de barco naturalmente silencioso, já que é movido pelo vento, não por um motor, o que nem sempre faz com os animais detectem a sua aproximação.

E, quando isso acontece, as consequências para os barcos podem ser trágicas.

Um dos casos mais famosos do gênero foi o dos ingleses Maralyn e Maurice Bailey, cujo barco foi atingido por uma baleia no meio do Pacífico e afundou, deixando o casal em dois minúsculos botes infláveis, sem água nem comida, por impressionantes 118 dias – até que, milagrosamente, foram resgatados.

Depois disso, o casal passou a se dedicar ao estudo do comportamento das baleias, num curioso caso de admiração em vez de raiva (clique aqui para conhecer esta interessante história).

No caso das orcas, são bem mais ágeis e as chances de incidente assim acontecer são praticamente desprezíveis.

Mas as consequências de uma pancada mais forte ou mordida no casco podem ser bem maiores do que um simples susto, como vem acontecendo na costa da Espanha, onde a primeira coisa que os donos de barcos estão fazendo a verem orcas na superfície é fugir delas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.