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Agência de viagem transforma clientes em náufragos numa ilha deserta

Jorge de Souza

05/09/2020 04h00

Fotos: Docastaway/Divulgação

Você pagaria um bom dinheiro para ficar sozinho numa ilha deserta sem água, nem comida, sequer um abrigo?

Pois, só no ano passado, quase 100 pessoas disseram sim a esta proposta de uma das mais originais agências de viagens do mundo, a Docastaway (algo como "Faça como um náufrago").

Durante dias, eles viveram as mesmas situações de um náufrago de verdade – tiveram que se virar para encontrar água, comida e um lugar para dormir e se proteger do sol, em pequenas ilhas ainda selvagens e desabitadas, mas muito bonitas.

"Nós oferecemos a oportunidade de as pessoas viverem uma experiência única e intensa", explica o espanhol Alvaro Cerezo, dono da agência. "A de viver apenas com o que a natureza oferece, mas com toda a segurança, porque estamos sempre por perto, para qualquer emergência".

"Somos a antítese do turismo de massa. Oferecemos uma fuga da civilização e a oportunidade de qualquer pessoa se transformar numa espécie de Robinson Crusoé, em locais paradisíacos, sem ver ninguém pela frente durante alguns dias"

Formado em economia, Álvaro jamais colocou os pés em um banco, em busca de emprego. "Mas foram os olhos de economista que me fizeram ver que havia uma brecha no mercado de viagens diferenciadas e um bom negócio por trás da ideia de transformar clientes em náufragos".

Um terço não aguenta

A agência existe há cerca de 10 anos e, até hoje, segundo Alvaro, não teve nenhuma real situação de perigo entre seus clientes, que, no entanto, sempre recebem um aparelho de telefone via satélite para qualquer emergência.

"Os problemas mais comuns são excesso de sol, sensação de fome constante e eventuais diarreias, por conta da mudança dos hábitos alimentares. Mas nada muito sério", diz Alvaro, que sempre foi apaixonado por ilhas remotas.

"As pessoas costumam associar ilhas desertas com locais perigosos, repletos de animais selvagens, mas posso garantir que o maior risco que os nossos clientes passam é de um coco cair na sua cabeça na praia", brinca.

Mesmo assim, na média, um terço das pessoas que embarcam nesse tipo de aventura desistem antes do final do prazo estipulado, vencidas pelas privações, desconfortos e… tédio – o que soa contraditório para quem busca justamente o total isolamento.

"Mas isso só acontece quando a pessoa opta por ficar muito tempo na ilha, coisa de 15 dias ou mais. Uma semana todo mundo aguenta e volta revigorado para a civilização", explica o empresário que, tal qual o resto do mundo, viu o seu negócio ser afetado pela pandemia do coronavírus.

Ironicamente, o que seria o mais perfeito isolamento contra a covid-19 (uma ilha só sua e sem mais ninguém à vista), também foi afetado pela crise. Desde o início do ano, a agência do espanhol não teve nenhum cliente.

"O problema não é a falta de interessados e, sim, o fechamento das fronteiras dos países, o que impede os clientes de chegarem às ilhas", explica Alvaro. Os europeus e asiáticos, povos habituados a viver em grandes centros urbanos, são a maior clientela da agência.

Do Brasil, ele ainda não teve nenhum cliente para os programas mais radicais de sobrevivência, mas vê uma explicação para isso:

O Brasil tem muitas ilhas, e, por isso, o pessoal não se interessa tanto pelas nossas propostas"

Ilhas de verdade, mas com nomes falsos

Em seu portfólio de ilhas paradisíacas e desertas, a grande maioria em mares asiáticos, sobretudo nas Filipinas e na Indonésia, há preciosidades como a Ilha Amparo (todas as ilhas são rebatizadas com nomes fictícios, para inibir a presença de curiosos durante as estadias dos clientes), farta em peixes e frutos do mar que, no entanto, os próprios clientes têm que capturar com os únicos meios que a ilha oferece. Ou seja, quase nada.

Os mais habilidosos e criativos conseguem comer até lagosta, porém, a grande maioria sofre até para fazer fogo. Mas os perrengues fazem parte da experiência"

"Tempos atrás, dois amigos passaram dias comendo só gafanhotos, e uma japonesa teve que caçar um lagarto para matar a fome. Mas nenhum deles reclamou do cardápio. Ao contrário, vibraram com a descoberta de que são capazes de sobreviver pelos seus próprios meios", explica o empresário.

Para quem não quer sofrer tanto

Como, porém, nem todo mundo aprecia o total desconforto, a empresa do espanhol oferece, além da opção mais radical, outra bem mais aceitável para quem sempre viveu na cidade: o chamado "Modo Conforto", que igualmente põe os clientes numa ilha deserta, mas, ao menos, com víveres básicos e uma cama de verdade.

Se o cliente quiser, ainda pode ter a companhia de um guia profissional em sobrevivência, que o acompanhará durante a experiência – além de um barco pronto para uma eventual evacuação da ilha, caso isso não seja o bastante.

Também é possível fazer um upgrade na experiência e ficar hospedado em um bangalô, o único da ilha, com ainda mais recursos alimentares"

Foi esta a opção de um casal de italianos que queria que o primeiro filho fosse "gerado numa ilha deserta", o que de fato aconteceu, após o casal tomar a precaução de só viajar no período mais fértil da futura mamãe.

Casais são o segundo tipo de cliente mais típico da empresa, especialmente para luas de mel, quando tudo o que se mais quer é que não haja ninguém por perto. Os campeões em candidatos a náufrago são homens solitários

O mais famoso "náufrago voluntário"

Este mesmo desejo de isolamento e total comunhão com a natureza já levou alguns aventureiros natos a viverem em ilhas totalmente desabitadas por pura opção, como náufragos de verdade.

Ainda hoje, alguns deles resistem, como o italiano Mauro Morandi, que há mais de 30 anos vive sozinho numa ilhota entre a Sardenha e a Córsega e não quer saber de outra vida.

Mas o caso mais célebre do gênero foi o neozelandês Tom Neale que, nos anos de 1970, entre idas e vindas à civilização, passou 15 anos num esquecido atol do Pacífico Sul, onde se transformou no ermitão mais comentado do planeta embora tudo o que ele quisesse era apenas viver em paz com a natureza (clique aqui para conhecer a interessante história deste aventureiro, que, ao morrer, não teve o merecido reconhecimento na ilha que tanto amava).

"Nossas experiências também deixam lembranças para sempre", garante o dono da peculiar agência que, em troca de um punhado de euros (os preços cobrados pela Docastaway começam a partir do equivalente a R$ 5 000 por pessoa, para uma semana numa das ilhas), põe qualquer pessoa numa espécie de reality show solitário, mas para viver uma experiência de sobrevivência de verdade.

Você encararia?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.