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77 anos depois, lancha de Kennedy reaparece soterrada na lama em Nova York

Jorge de Souza

27/06/2020 04h00

Fotos: John F. Kennedy Library

Quase cinco décadas após ter sido abandonado nas margens do Rio Harlem (na parte norte da ilha de Manhattan, onde fica Nova York), e 77 anos depois ter protagonizado ações militares sob o comando de um jovem tenente, os restos de um velho barco emergiram da lama durante uma obra de contenção contra enchentes, conduzida pela empresa de metrô da maior cidade dos Estados Unidos.

Teria sido apenas um inconveniente contratempo no serviço, caso o apodrecido barco não fosse o que restou de uma lancha de patrulha militar usada pela Marinha dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, logo identificada como sendo a PT59.

E não haveria nada demais nisso, não fosse o nome de quem havia comandado aquele barco, naquela época: o então tenente John Fitzgerald Kennedy, que, anos depois, se tornaria o mais carismático presidente dos Estados Unidos de todos os tempos.

Havia sido abandonada

A identificação do barco foi feita através de um número de registro gravado no que restou do casco de aço carcomido pelo tempo, e também pela garantia do biógrafo americano William Doyle — autor de um livro sobre a participação de Kennedy na Guerra –, que, tão logo viu os destroços, disse ter 99,99% de certeza de que se tratava dos escombros da histórica lancha.

E era ela mesmo, embora estivesse abandonada e soterrada pela lama do imundo canal desde de, pelo menos, meados da década de 1970, quando foi abandonada pelo seu último dono — um modesto professor que não tinha onde morar e transformara o velho barco em sua casa.

Nem a Marinha sabia

Antes disso, sem saber o relevante detalhe do passado histórico do barco, a ex-lancha comandada por Kennedy, que fora vendida pela Marinha Americana como simples resto de guerra, nos anos 50, já havia virado barco de aluguel para pesca.

Além disso, foi vítima de vandalismo, quando foi quase destruída por um incêndio provocado por arruaceiros do então perigoso bairro nova-iorquino do Harlem, onde, por fim, seus restos foram descobertos acidentalmente por um guindaste há duas semanas.

Destino será um museu

Agora, depois de recolhidas todas as partes que puderam ser resgatadas da lama, o futuro da "Lancha de Kennedy", como passou a ser chamada, ainda é incerto.

O mais provável é que vá para um museu, talvez o Battleship Cove, em Fall River, Massachusetts, ou o John F. Kennedy Presidential Library and Museum, em Boston, que já guarda boa parte do acervo do icônico presidente americano.

Foto: John F. Kennedy Library

A lancha encontrada soterrada na parte norte do Rio Harlem, bem ao lado das ruas do bairro, foi usada por Kennedy na região das Ilhas Salomão, entre agosto e outubro de 1943.

Em uma das missões, Kennedy, que comandava o barco, chegou a resgatar dez fuzileiros navais americanos, que estavam acuados pelos inimigos japoneses numa ilha.

Mas, logo em seguida, diagnosticado com exaustão física e mental, ele foi mandado de volta aos Estados Unidos, para tratamento.

Um herói de guerra

Antes disso, porém, quando ainda estava no comando de outra lancha torpedeira, a PT-109, Kennedy protagonizou um feito bem mais relevante, que o içou a categoria de herói, e lhe valeu a medalha do mérito da Marinha Americana.

Foi quando, após sua lancha ser atropelada por um navio japonês em alto mar e afundado, Kennedy liderou seus homens com bravura, tanto no mar quanto na ilha deserta onde o grupo se abrigou, até a salvação de todos eles.

Como em um roteiro de filme de aventura, Kennedy precisou até escrever um pedido de socorro na casca de um coco para conseguir tirar seus homens da ilha onde ficaram abrigados, depois de passarem um dia e uma noite boiando no mar (clique aqui para conhecer essa história, que, mais tarde, acabaria sendo decisiva para Kennedy se eleger presidente)

Com o fim da guerra, Kennedy entrou para a política e, amparado pelos seus feitos heroicos no comando dos dois barcos, foi eleito com facilidade – até ser assassinado, por um fanático, em 1963.

Ali terminou a vida de John Fitzgerald Kennedy. Mas não a sua história, como comprovou a descoberta do seu antigo barco, num esquecido lamaçal em plena Nova York, quase oito décadas depois.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.