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Mar doce lar: eles moram em um barco e só veem vantagens nisso

Jorge de Souza

06/06/2020 04h00

Os Silveira — pai Fabio, mãe Ana Taís, filha Maria Eduarda, a Duda, o cachorro Frank e o gato Joaquim –, de Itajaí (Santa Catarina) são uma típica família classe média brasileira.

O casal, assalariado, trabalha fora, enquanto a filha, de 7 anos, passa o dia na escola. E todos vivem em um espaço com cerca de 45 m², com três pequenos quartos, sala, cozinha, banheiro e área externa.

Aos fins de semana, quando o tempo permite, saem para passear pela região, mas sem descuidar do orçamento. Tanto que, mesmo durante os passeios, todas as refeições são sempre feitas em casa, já que eles levam a casa junto com eles… um barco.

Apartamento pelo barco

Em vez morarem em uma típica moradia de classe média, como a que viviam antes, os Silveira hoje vivem em um veleiro, que fica parado praticamente o tempo inteiro na Marina de Itajaí.

"Trocamos o aluguel do apartamento pelo parcelamento do barco, e o dinheiro do condomínio pela mensalidade na marina. E foi a melhor decisão das nossas vidas", diz Fábio, de 50 anos, que trabalha como gerente de operações na Penitenciária de Itajaí, ao lado mulher, que está em outra área.

Foto: Karine Bosse

"Passamos o dia fora, trabalhando, mas quando voltamos para casa, a tempo de ver o pôr-do-sol na marina, é só alegria. E é assim todos os dias", comemora o catarinense.

"Somos uma família como outra qualquer. A única diferença é que moramos num barco, o que para a grande maioria das pessoas soa como algo absurdo, mas não é".

Vizinhos mais interessantes

O que para a maioria das pessoas soaria como uma maluquice (morar em um barco, balançando dia e noite sobre a água), para os Silveira foi uma escolha mais que acertada.

"De outra forma, talvez, não conseguíssemos morar de frente para o mar, nem ter tamanha qualidade de vida. Hoje, moramos no próprio mar e o quintal para a nossa filha é enorme. A única coisa que nos arrependemos é de não ter feito isso antes".

A barco-casa dos Silveira, batizado por eles de NovvuEu ("Porque, com o barco, começamos a viver uma nova vida", explica Fábio), é um veleiro de pouco mais de dez metros de comprimento, que compraram ainda na construção e terminaram sozinhos, trabalhando nas folgas e fins de semana.

"Levou dois anos, mas valeu muito a pena. Já moramos no barco há quatro anos e nem de longe pensamos em voltar a viver em um apartamento", diz Fábio, que também adora os vizinhos que tem na marina – alguns também moradores de barcos.

 "No prédio onde morávamos, nós nem conhecíamos os vizinhos. Já aqui na marina, aparecem barcos vindos do mundo inteiro, com pessoas interessantes, receptivas, solidárias e sempre dispostas a ajudar, especialmente quem ainda está aprendendo a navegar, como é o nosso caso", diz Fábio.

Nenhuma experiência com barcos

O mais curioso é que, antes de decidirem trocar o apartamento por um veleiro, o casal Ana Taís e Fabio não tinha nenhuma experiência com barcos.

Ela jamais havia pisado em um veleiro, até que o marido confessou que gostaria de ter um, e que havia encontrado uma boa oferta: o barco custaria o mesmo que o apartamento onde eles moravam.

"Daí eu pensei: por que não? No mínimo, a Duda vai gostar morar num barco", conta Ana Taís, de 28 anos, que tampouco sente saudades do apartamento onde viviam.

A adaptação à vida no barco foi rápida. Até cãozinho Frank e o gato Joaquim se acostumaram — embora, no começo, ambos tenham caído na água.

Até quarto de hóspedes

Hoje, até os aniversários de Maria Eduarda passaram a ser comemorados dentro do barco, com decoração de festa e tudo mais.

 "O mar virou o nosso lar. Mar doce lar. E a Duda, agora, acorda vendo peixinhos quase ao lado da cama, o que seria impossível numa casa convencional", avalia Ana Taís.

"Vendemos tudo, porque, num barco, o espaço é limitado. Mas isso é bom, porque você aprende a viver com pouco e não fica acumulando coisas. Hoje, na nossa ´casa flutuante`, temos tudo o que precisamos para viver bem. Até quarto de hóspedes, para quando alguém da família vem nos visitar", diz.

Em busca de outra "casa"

Mesmo assim, de tempos para cá, o casal vem pensando em se mudar. Mas para outro barco.

"Com a Duda crescendo, a 'casa' ficou um pouco pequena", brinca Fábio, que, por isso, decidiu colocar o NovvuEu à venda, mas para comprar outro veleiro, "um pouco maior".

"Como ficamos o tempo todo no barco, às vezes, sentimos falta de um pouquinho mais de espaço. Mas não temos pressa. Quando surgir uma oportunidade, a gente muda. Mas não mais de vida", garante.

"Nossa casa não tem mais CEP", brinca. "Quando a gente diz que está indo 'pra casa' é porque estamos indo 'pro barco', e ninguém entende".

Vantagens até na quarentena

Como, porém, todas as famílias brasileiras nesse momento, os Silveira também estão de quarentena, e só saem de casa para trabalhar, já que tanto Fabio quanto Ana Taís atuam em atividades essenciais.

Mas, até nisso, veem vantagens em morar num barco, em vez de uma casa convencional.

"Nos fins de semana, a gente sai para passear no mar sem sair de casa, porque ela vai junto com a gente. E mesmo quando saímos não quebramos a quarentena, porque continuamos na nossa casa", analisa. "Somos como caramujos; sempre levamos a casa junto", diverte-se Fabio.

Sonho de sair navegando

Por ora, os Silveira não têm planos de alterar a rotina da vida – seguem trabalhando, de segunda a sexta, e a filha estudando.

Mas, quando adquirirem mais experiência na vida no mar e uma vida financeira mais estável, sonham em levantar âncora e sair para viajar com sua casa móvel.

"Morando num barco, podemos ir para onde quisermos, sem abrir mão da nossa casa", comemora Fábio. "E a Duda pode continuar estudando à distância, no próprio barco, como fazem outras famílias com crianças que moram em veleiros, viajando pelo mundo".

O veleiro que virou escola

No Brasil, famílias com filhos em idade escolar que optam por viver em um barco navegando ainda são poucas. Mas já existem.

Uma delas são os Gandelman, que, neste momento, estão no Caribe, aguardando passar a temporada de furacões – e a reabertura de todos os portos, por conta da Covid-19 – para seguir viagem.

Como eles têm um filho em idade escolar, e a mãe é professora, decidiram transformar o barco-casa da família também em sala de aula, com até quadro negro – clique aqui para conhecer a curiosa história desta outra família, que também trocou a vida convencional por um barco no mar, e não quer mais saber de voltar.

Mais ou menos como também estão fazendo os Silveira, que levam uma vida absolutamente normal, exceto pelo fato de que a casa deles fica boiando na água e não tem endereço fixo.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.