PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Iraniano quer tentar de novo atravessar o mar dentro de uma bolha plástica

Jorge de Souza

02/06/2020 04h00

Imagem: Vice/Divulgação

Desde que botou na cabeça que iria "correr sobre o mar" dentro de uma espécie de bolha plástica (dessas usadas para divertir crianças em piscinas e laguinhos), o iraniano Reza Baluchi já tentou por três vezes atravessar da Flórida para as ilhas Bermudas dessa forma.

E nas três vezes foi detido pela Guarda Costeira americana, por "colocar em risco a própria vida" – além de gerar despesas com operações montadas para resgatá-lo no mar.

Só que Reza não se deu por vencido e já planeja uma nova tentativa, tão logo consiga arrecadar dinheiro para construir uma nova bolha, já que a anterior foi afundada pela polícia para que ele não tentasse de novo.

Mas nem isso o fez mudar de ideia.

"Penso que todo mundo deveria ir atrás do seu sonho e o meu é chegar às Bermudas correndo sobre a água", diz Reza, que é um peculiar corredor de ultra-maratonas, especializado em longas jornadas em solitário.

Como Forrest Gump

Ele garante já ter atravessado duas vezes os Estados Unidos correndo de costa a costa, e feito em mesmo em todo o perímetro do país, bordeando as fronteiras com o México e o Canadá — sempre para arrecadar fundos para missões filantrópicas e, ao mesmo tempo, angariar publicidade para si mesmo.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

A prática começou quando ele ainda era pequeno, no Irã, porque não havia meio de transporte para ir à escola. A obsessão em correr longas distâncias por dias a fio já rendeu ao iraniano o apelido de "Forrest Gump", o icônico personagem vivido por Tom Hanks no cinema, que corria sem parar e, embora simplório, era adorado por todos.

As três tentativas do Capitão Bolha

Mas, de tempos para cá, Reza passou a ser mais conhecido como o "Capitão Bolha", por causa da ousadia de querer correr sobre o mar dentro de uma espécie de roda giratória, o que ele já tentou três vezes.

Hoje com 48 anos, é dono de certa popularidade nos Estados Unidos por conta justamente de seus feitos folclóricos — o vídeo da sua tentativa de travessia já teve mais de 1 milhão de visualizações.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

A primeira vez foi em 2014, quando Reza partiu de uma praia da Flórida e, dias depois, foi resgatado com visíveis sinais de esgotamento físico após ter pedido orientação a um barco, no meio do mar, sobre "qual direção seguir para chegar às Bermudas?".

Foto: US Coast Guard

Alertada pelo tal barco, a Guarda Costeira enviou embarcações e até um helicóptero para resgatá-lo em alto-mar, o que, segundo a entidade, gerou um custo de 140 000 dólares na operação.

Multa, se voltasse a tentar

Na volta, frente a determinação do iraniano, que não queria ser resgatado, Reza foi alertado de que, caso tentasse novamente aquela insana travessia, seria multado em 40 000 dólares, "por navegar em embarcação considerada inadequada".

Na ocasião, o chefe da Guarda Costeira da Florida resumiu a ousadia de Reza Baluchi da seguinte forma: "É mais fácil ganhar na loteria do que aquela maluquice dar certo".

Mesmo assim, dois anos depois, Reza tentou de novo realizar o trajeto com sua bolha de plástico. E, mais uma vez, foi detido e trazido de volta para a terra firme.

Mas não por muito tempo.

Partiu do alto mar

Apenas quatro meses depois, Reza partiu novamente. Mas, desta vez, tomou a precaução de partir de outro ponto, para não infringir as leis americanas.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

Ele convenceu um amigo, dono de um barco, a levá-lo até além dos limites do mar territorial americano, e de lá tomou o rumo das Bermudas, com sua bolha navegadora.

Mas, de novo, não foi longe.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

Alertada uma vez mais, a Guarda Costeira foi novamente em busca do iraniano e o abordou quando ele "navegava" a cerca de 150 quilômetros da costa americana.

Nas extenuantes sessões de corridas dentro daquela engenhoca revestida de plástico, o calor interno beirava os 45 graus.

Mandado para o hospital psiquiátrico

Como de hábito, Reza, a princípio, não quis desistir da travessia.

Mas acabou sendo removido a força, algemado e levado para exames em um hospital psiquiátrico – de onde saiu dias depois, após convencer os médicos de que não era louco, mas apenas um sujeito com uma ideia maluca na cabeça.

Já a sua bolha, para que não pudesse mais ser usada, foi furada e afundada.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

"Talvez eu leve uns três ou quatro anos para conseguir o dinheiro, mas isso só aumenta a vontade de realizar o meu sonho. Não vou desistir dele", avisa o destemido aventureiro.

Tudo dentro da bolha

Maluquices a parte, a bolha do iraniano, projetada por ele mesmo, era um primor de engenharia criativa.

Continha, entre outras coisas, painéis solares que alimentavam baterias que o permitiam assistir até filmes no computador portátil (seu filme preferido era "O Náufrago", que assistia enquanto descansava), e um dessalinizador, que transformava água do mar em potável.

Foto: Divulgação Reza Baluchi

Para dormir, Reza montava uma rede dentro da bolha e passava as noites boiando à deriva no mar, sendo rolado pelas ondas, feito uma rolha.

E para comer, servia-se – apenas – de barrinhas de cereais, que ele mesmo produzia.

Por dia, Reza conseguia avançar cerca de dez quilômetros, correndo sobre o mar feito um hamster dentro de sua bolha giratória.

Sua previsão é que levaria cerca de cinco meses para chegar às Bermudas, que ficam a mais de 1 600 quilômetros da costa da Florida.

De lá, ele ainda pretendia descer até Cuba, antes de retornar aos Estados Unidos, completando assim toda a região conhecida como Triangulo das Bermudas, famosa pelos desaparecimentos misteriosos de aviões e embarcações.

Pior que o homem-boia

Apesar da originalidade do seu meio de propulsão, Reza Baluchi não foi o primeiro aventureiro a se lançar ao mar de maneira bizarra.

No final do século 19, um irlandês chamado Paul Boyton ficou famoso tanto nos Estados Unidos, quanto na Europa por navegar usado apenas o próprio corpo, graças a uma roupa inflável que o fazia flutuar feito uma boia humana

Com a tal roupa, ele chegou a fazer longas travessias no oceano – clique aqui para conhecer a história deste outro aventureiro nato.

Mas nada que se compare a ideia do iraniano Reza de correr sobre o mar durante meses a fio, dentro de uma cápsula na qual ninguém aguentaria ficar mais do que míseros minutos.

"Assim que der, eu tento de novo", avisa o desmiolado Capitão Bolha.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.