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Histórico

Morre milionário que comprou segundo naufrágio mais relevante do mundo

Jorge de Souza

27/05/2020 04h00

Foto: Divulgação Gregg Bemis

No ano passado, o milionário americano Gregg Bemis, então com 90 anos, fez a doação do seu bem mais precioso.

Durante uma cerimônia no condado de Cork, na Irlanda, ele cedeu os direitos sobre os restos do naufrágio do transatlântico inglês "Lusitânia".

Afundado por um torpedo alemão na Primeira Guerra Mundial, o navio foi adquirido em 1982 por um mísero um dólar – mas, depois, fez com que Gregg gastasse milhões para ter os direitos legais reconhecidos pelo governo irlandês.

Ele doou o naufrágio

Já doente e sem condições de continuar à frente das pesquisas que patrocinava, Bemis decidiu doar todos os objetos que tinha, além dos direitos legais sobre os restos do navio, com o intuito de reconstituir a história do famoso transatlântico.

Este, que é considerado o segundo naufrágio mais relevante do mundo (depois do Titanic), foi doado ao Museu do Lusitânia montado no promontório de Old Head, em Kinsale, bem em frente do local onde o navio afundou em 7 de maio de 1915.

Foto: The Old Head of Kinsale Signal Tower

Em seguida, Bemis recolheu-se a sua mansão no estado americano do Novo México. E foi lá onde morreu vítima de um câncer, na semana passada aos 91 anos, sem ter realizado o seu grande desejo: descobrir por que o luxuoso transatlântico afundou tão rapidamente, 105 anos atrás.

Uma história nebulosa

O Lusitânia terminava uma travessia entre os Estados Unidos e a Inglaterra, naqueles primórdios da Primeira Guerra Mundial, quando foi atingido por um torpedo disparado pelo submarino alemão U-20, afundando em menos de 20 minutos – rápido demais para um navio tão grande.

Mas, como contaram os sobreviventes (poucos, porque das 1 959 pessoas que havia a bordo do navio, 1 195 morreram no naufrágio), houve uma segunda explosão, gerada, possivelmente, pelas munições que o transatlântico transportava secretamente.

Elas teriam sido doadas pelo governo americano — então ainda oficialmente neutro no conflito — para ajudar os ingleses nos esforços de guerra.

E o torpedo do submarino alemão teria feito explodir, também, a carga secreta do Lusitânia, acelerando o seu naufrágio.

Em busca da verdade

Era isso que o milionário americano tentava provar há quase quatro décadas, desde comprara os direitos sobre os restos do naufrágio. Uma forma preservar a história e evitar que saqueadores mutilassem os restos do navio, que repousam a cerca de 90 metros de profundidade.

Foto: The Old Head of Kinsale Signal Tower

Bemis financiava expedições científicas ao naufrágio e chegou a mergulhar no local, em 2004, quando já somava 76 anos de idade – um feito notável, dada a grande profundidade.

Tesouro mais valioso

"Eu queria ver o Lusitânia com os meus próprios olhos e poder tocá-lo", explicou na ocasião o milionário, que era fascinado pela nebulosa história do transatlântico, que até hoje desperta suspeitas de traição pelo então chefe do Almirantado Britânico, Winston Churchill, que teria deliberadamente "entregue" o navio aos inimigos para forçar os Estados Unidos a aderirem a guerra, ao mesmo tempo em que protegia algo mais valioso – clique aqui para conhecer esta história.

"Agora, cabe ao museu de Old Head proteger dos restos do Lusitânia", disse o milionário benfeitor, ao doar o seu bem mais precioso: um navio afundado há mais de 100 anos.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.