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Cinco meses depois, barco e corpo do remador que cruzava o oceano aparecem

Jorge de Souza

05/05/2020 09h19

Onze dias atrás, um corpo em decomposição, sem os pés nem a cabeça, mas ainda revestido por uma roupa à prova d'água, foi dar nas pedras da ilha de Kinapusan, nas Filipinas.

Perto dele, havia um curioso barco de pouco mais de sete metros de comprimento, pintado com faixas que lembravam as da bandeira americana, um grande número 88 e claros sinais de que jazia no mar há muito tempo.

Com estes dois fatos ficou fácil para as autoridades filipinas descobrirem a identidade da vítima.

Reprodução: Facebook

Tratava-se do remador chinês Ruihan Yu, um aventureiro de 35 anos, que havia partido de São Francisco, na Califórnia, no segundo semestre do ano passado, com o objetivo de atravessar o Oceano Pacífico sozinho e a remo, até atingir à Austrália – onde, no entanto, jamais chegou.

No dia 27 de novembro, através de uma amiga nos Estados Unidos, o chinês enviou um pedido de socorro, quando estava a cerca de 750 quilômetros do atol de Majuro, nas Ilhas Marshall, no noroeste do Pacífico.

Seu barco havia capotado e ele não conseguia desvirá-lo.

Disse, também, que havia perdido todos os suprimentos no acidente e que logo ficaria também sem bateria, para uma nova comunicação.

A amiga, então, ligou para o serviço de emergências 911, que acionou a Guarda Costeira Americana, que, por sua vez, acionou a base militar dos Estados Unidos na ilha de Guam, que enviou um avião para tentar socorrer o remador.

Achado, mas não resgatado

Ele foi localizado, sentado sobre o fundo do barco capotado, mas o avião já estava no seu limite de combustível e teve que retornar à base.

Um bote salva-vidas inflável foi lançado pelo avião no mar, na esperança que o remador o alcançasse. Mas isso, aparentemente, não aconteceu.

No dia seguinte, quando o avião retornou ao mesmo ponto, só avistou o inflável e o barco capotado do remador – mas ele não estava mais aboletado sobre o casco.

Por mais dois dias, os americanos continuaram as buscas pelo ar, até que deram o chinês como perdido para sempre no mar.

Reprodução: Facebook

Em momento algum, foi enviado um barco ou mergulhador ao casco emborcado, a fim de averiguar se Ruihan Yu estava abrigado dentro dele. E essa falha pode ter custado a vida do remador.

"Eu tentei convencer as autoridades de que ele poderia estar dentro do barco, que precisavam mandar alguém pelo mar para checar, expliquei que ele já havia passado uma noite assim, que havia dito que tinha feito furos do casco para poder respirar, na segunda e última comunicação que fez, e que isso já havia acontecido antes, com outros navegadores, como Tony Bullimore, mas ninguém me deu ouvidos", disse a americana Lia Ditton, também remadora e amiga não tão íntima do chinês.

Já havia acontecido antes

Tony Bullimore foi um velejador inglês, que, durante uma regata de volta ao mundo com veleiros em solitário, em 1996, capotou com seu barco e passou quatro dias debaixo dele, com água pelo pescoço, até ser encontrado, numa das mais dramáticas e surpreendentes operações de resgate da história das competições à vela (clique aqui para conhecer esta história).

Reprodução: Facebook

"Se algum mergulhador tivesse sido enviado para checar dentro do barco, talvez Ruihan Yu tivesse sido encontrado e ainda vivo", escreveu Lia, no seu Facebook.

Mas, como isso não aconteceu, o mais provável é que o remador chinês tenha morrido (afogado, por inanição ou desidratação) dentro do casco virado, e que seu corpo tenha sido levado, junto com o próprio barco, pelas correntes marítimas, até dar nas Filipinas dez dias atrás, e cinco meses depois.

"Eu não consegui convencer o comandante da operação de resgate a reabrir as buscas", resumiu a colega do desafortunado remador.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.