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Histórico

O navio-bomba da Segunda Guerra Mundial que apavora a Inglaterra até hoje

Jorge de Souza

02/05/2020 04h00

Em 20 de agosto de 1944, o navio cargueiro americano SS Richard Montgomery ancorou na entrada do Rio Tâmisa (Inglaterra) com uma carga, literalmente, bombástica: cerca de 9 000 bombas que seriam usadas na Segunda Guerra Mundial.

E até hoje, 76 anos depois, continua no mesmo lugar, ainda com boa parte daquelas bombas no seu interior — para terror dos moradores da pequena cidade inglesa de Sheerness. Foi lá que onde ele parcialmente afundou, depois de encalhar em um banco de areia bem na entrada do principal rio.

Como isso é possível?

A retirada da explosiva carga do SS Richard Montgomery começou a ser feita três dias após o acidente. Mas logo teve que ser interrompida, porque o casco do navio passou a apresentar rachaduras. Temendo a explosão da sua carga, as equipes de resgate abandonaram o local. Para sempre.

Hoje, das 6 100 toneladas de bombas que havia no navio, cerca de 1 400 toneladas continuam dentro dele, sob permanente risco de explosão, mesmo após tanto tempo.

Não seria um problema tão terrível assim, já que navios que afundaram durante a guerra com explosivos a bordo não foram poucos, não fosse o local onde o naufrágio ocorreu e as condições em que se encontram os escombros do navio até hoje.

Em frente a ele, uma cidade

O SS Richard Montgomery encalhou e afundou apenas parcialmente bem diante de Sheerness, onde hoje vivem 12 000 pessoas e onde um gaiato outdoor, na entrada na cidade, dá as boas-vindas aos visitantes, desejando que eles tenham "uma visita bombástica" – coisa do típico senso de humor inglês.

Há 76 anos, ninguém em Sheerness dorme absolutamente tranquilo, porque sabe que há um navio cheio de bombas bem em frente a cidade. Mas eles já se acostumaram.

Foto: Maritime & Coastguard Agency

Até hoje, os mastros do navio são visíveis fora d´água, já que o local é tão raso que não permitiu que o navio ficasse totalmente submerso – e isso torna a questão ainda mais delicada, pelo risco de colisão de outros barcos.

Além disso, o SS Richard Montgomery afundou bem no estuário do Rio Tâmisa, que registra um movimento de cerca de 5 000 navios por ano.

Tempos atrás, dois deles só não colidiram com o naufrágio porque, no último instante, conseguiram desviar a tempo.

Para contornar o problema, as autoridades marítimas inglesas criaram, desde o final da Segunda Guerra, uma "área de exclusão" em torno do local do naufrágio, sinalizada com boias e cartazes ameaçadores, avisando que a aproximação de pessoas é terminantemente proibida. E a área é monitorada por radares 24 horas por dia. Até hoje, 76 anos depois.

Por que não removem as bombas?

A opção mais óbvia para resolver o problema seria a remoção das bombas que ainda estão ativas dentro do navio. Mas isso não é algo tão simples assim.

Depois de três quartos de século debaixo d´água, ou quase isso, o estado do SS Richard Montgomery é precário e sua estrutura está seriamente comprometida.

Qualquer ação mais efetiva no navio poderia gerar o colapso do que resta do seu casco e o movimento poderia acionar uma das bombas, já que uma parte delas foi transportada com seus disparadores instalados.

Bastaria uma bomba ser acionada por um movimento qualquer nas ferragens, para disparar todas as demais, com consequências imprevisíveis para a cidade e toda a região próxima ao naufrágio.

Medo que a história se repita

Em julho de 1967, uma operação similar, feita em um navio também da Segunda Guerra Mundial naufragado no Canal da Mancha, gerou uma explosão equivalente a um terremoto de 4,5 na escala Richter, abriu uma cratera de seis metros de profundidade no leito oceânico e gerou pânico nos moradores da região.

Mesmo a explosão controlada das bombas que restam dentro do SS Richard Montgomery é algo fora de questão.

Estudos já mostraram que, caso o navio viesse a explodir, a quantidade de bombas geraria uma coluna de água com cerca de 300 metros de altura, lançaria detritos nove vezes mais alto que isso e geraria uma espécie de tsunami, com ondas de até cinco metros de altura – o bastante para inundar Sheerness, que também sofreria danos em seus edifícios, com todas as janelas de vidro sendo estilhaçadas.

"Para explodir as bombas que há no navio, seria necessário evacuar todos os moradores da cidade", diz um técnico no assunto. "Por isso, a melhor medida ainda é a não intervenção. Deixar o navio como ele está, e como vem sendo há 76 anos".

Um navio inteiro em quatro dias

O SS Richard Montgomery era um Liberty Ship, um tipo de navio cargueiro criado nos Estados Unidos para uso na Segunda Guerra Mundial, que usava métodos pioneiros de construção, como a união das chapas de aço com solda, em vez dos tradicionais rebites, e montagem em forma de linha de produção, como os automóveis, tendo, inclusive, as mulheres como operárias.

Isso permitia uma construção incrivelmente rápida, ainda que não muito confiável, como foi o caso do SS Richard Montgomery, que se partiu ao meio, depois de encalhar no banco de areia.

Apesar disso, alguns Liberty Ships duraram muito.

Um deles foi o cargueiro Robert Peary, que, no entanto, ficou famoso por outro aspecto: foi o navio construído em menor tempo da História, já que levou apenas inacreditáveis quatro dias para ficar pronto (clique aqui para ver como isso foi feito).

Alvo terrorista nas Olimpíadas

Em 2012, durante as Olimpíadas de Londres, uma equipe de agentes especiais da polícia inglesa ficou de plantão no entorno do naufrágio do SS Richard Montgomery, porque havia o temor que ele pudesse ser usado como matéria-prima para um ataque terrorista – bastaria um drone despejar uma simples bombinha sobre os escombros do navio para a sua carga letal cuidar do resto.

Mas, talvez, um dia, essa aparente tranquilidade tenha que ser quebrada.

Até tempos atrás, o então prefeito de Londres, e atual Primeiro Ministro da Inglaterra, Boris Johnson, tinha planos de erguer um novo aeroporto no estuário do Rio Tâmisa, bem próximo ao local onde repousam os restos do SS Richard Montgomery.

Se isso acontecesse, a primeira providência teria que ser a remoção do navio, o que gerou o protesto em dobro dos moradores de Sheerness, que não queriam saber nem de uma coisa nem de outra.

Não se sabe o quanto a questão do navio-problema pesou na decisão, mas o novo aeroporto, por enquanto, não saiu do papel.

"É melhor que fique assim", diz um morador da cidade. "Melhor conviver com um navio-bomba adormecido do que correr o risco de acordá-lo".

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.