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Vinho que vem do fundo do mar: vinícola afunda garrafas e recria a História

Jorge de Souza

23/09/2019 09h59

De tempos para cá, algumas vinícolas vêm usando o fundo do mar como adega. O objetivo é aprimorar o sabor dos seus vinhos.

Por que elas fazem isso? Porque o fundo do mar tem características que tornam o amadurecimento dos vinhos bem mais consistentes.

No fundo do mar, a temperatura é sempre mais baixa e sem tantas oscilações quanto na superfície, a luminosidade é bem mais fraca ou praticamente não existe, e o suave balançar das marés, substitui, com maior eficiência, o trabalho de girar diariamente as garrafas, para movimentar o líquido e dar homogeneidade ao amadurecimento do vinho.

Diversas vinícolas já fazem isso (inclusive a brasileira Miolo, da Serra Gaúcha, que tem mandado garrafas para serem envelhecidas no mar da França, país que tem expertise no assunto), mas poucas com a originalidade da produtora Edivo, da Croácia.

Todos os anos, ela deposita cerca de 5 000 garrafas no fundo da baía de Mali Ston, um tradicional ponto de criação de ostras e mexilhões no mar da Croácia, e as deixa ali por dois anos – o bastante para as garrafas saírem da água devidamente cobertas de cracas e incrustações, que não são retiradas.

O objetivo é dar aos compradores a exata noção de onde vieram aquelas garrafas, e as incrustações servem como prova cabal do tempo que passaram debaixo d´água.

Mas a vinícola croata vai mais longe e usa, também, ânforas feitas de argila terracota, em vez de garrafas de vidro, como faziam os antigos romanos. E ainda as deposita dentro de um velho barco afundado, para dar aos clientes que decidam buscar, eles próprios, no fundo do mar, o vinho que irão comprar, uma "experiência diferente", como explicam os donos da vinícola.

Batizado de "Navis Mysterium Amphora", o vinho submarino croata não custa barato (os preços variam entre o equivalente a R$ 350 e R$ 900, dependendo do tipo de vinho), mas virou atração, inclusive turística, nas regiões de Zuljana e Dubrovnik, onde também existem "adegas submersas" da marca.

"Depois de um tempo no fundo do mar, o vinho ganha um sabor mais suave, que levaria muito mais tempo para conseguir em terra firme", explica um dos donos da vinícola, que deposita as garrafas e as ânforas a uma profundidade de 25 metros.

"Nossa missão é oferecer vinhos de qualidade, mas, também, de uma maneira única e que tem a ver com a nossa história, porque a atual Croácia já fez parte do Império Romano, que usava ânforas para armazenar os vinhos que produzia", explicam os donos da excêntrica vinícola.

Português recria a experiência

Usar o mar para aprimorar a qualidade dos vinhos, não é, porém, nenhuma novidade.

Os navegadores portugueses já usavam isso nos tempos das caravelas, depois de descobrirem, acidentalmente, que as barricas de vinho levadas nos porões das naus retornavam das longas viagens com um gosto especial, que passou a ser muito apreciado.

Nascia assim o "Vinho da Roda", porque "rodava o mundo" antes de ser consumido, uma experiência que, neste exato momento, outro navegador português, o velejador Henrique Afonso, de 57 anos, está recriando a bordo do seu barco, um veleiro de dez metros de comprimento, com o qual está dando a volta ao mundo, velejando sozinho.

Henrique, mais conhecido pelo apelido "Pirata", partiu da Ilha da Madeira, onde ele vive, em janeiro deste ano, levando a bordo duas grandes barricas cheias de vinho, que só serão abertas quando eles retornar da longa viagem, prevista para terminar em julho do ano que vem – antes disso, por volta do mês de março, ele deverá passar pelo Brasil, onde espera ficar alguns dias descansando.

Neste momento, Henrique está nas Ilhas Samoa, no Pacífico Sul, depois de ter vencido mais de metade do percurso de 50 000 quilômetros e o maior oceano do mundo, numa viagem que ele mesmo define como "uma completa maluquice".

"Pior do que passar semanas sozinho no mar, navegando dia e noite sem parar, é não poder beber nem um pouquinho do vinho que levo no barco, porque as barricas foram lacradas para poder se ter certeza de que realmente contornaram todo o planeta pelo mar antes de serem consumidas", diz o aventureiro português. Conheça essa curiosa travessia.

Fotos: Divulgação

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.