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Paulistanos passeiam no rio poluído e descobrem um novo ângulo da cidade

Jorge de Souza

12/09/2019 16h29

Duas dúzias de paulistanos experimentaram nesta quinta (12) algo que nem passaria pela cabeça de todos os demais moradores da cidade de São Paulo: eles passearam de barco no Rio Pinheiros, o segundo mais poluído do país, depois do Rio Tietê, que é quase uma continuação dele.

A iniciativa fez parte da ação Por uma Cidade Navegável, promovida pela quarta vez nos dois rios mais poluídos da capital paulista pelo salão náutico São Paulo Boat Show, que começa na cidade na semana que vem.

"Apesar da atual situação dos dois rios, São Paulo pode ser uma cidade navegável, e nossa ação visou conscientizar as pessoas disso, já que o governador João Dória prometeu começar a despoluir o Rio Pinheiros. No nosso passeio, convidamos uma pequena amostra da população para navegar no rio e ver que isso é possível, tanto a lazer quanto como transporte público", disse o dono da ideia, o empresário Ernani Paciornik, organizador do São Paulo Boat Show.

A ação consistiu em navegar um trecho de seis quilômetros do Rio Pinheiros, entre o Pomar Urbano, próximo à Ponte João Dias, e a Usina de Traição, passando sob a Ponte Estaiada, um dos símbolos modernos da cidade de São Paulo.

Mais rápido que os carros

Ao longo do caminho, a presença de dois barcos de passeio navegando no quase esgoto a céu aberto que é o Rio Pinheiros atualmente chamou a atenção dos motoristas nos frequentes congestionamentos que assolam as avenidas marginais do rio.

Mas não houve quem não sentisse uma pontinha de inveja, já que, apesar do mau cheiro causado pela absurda poluição do rio, os barcos avançavam bem mais rápidos que os carros.

"O transporte fluvial seria uma ótima solução para desafogar as avenidas Marginais de São Paulo e melhorar o trânsito, além de ser menos poluente. Mas, para isso acontecer, o primeiro passo é limpar o rio, porque do jeito que está, mal dá para navegar", diz Paciornik.

Ele sabe o que diz, porque em duas das três ações que já promoveu no vizinho Rio Tietê, os barcos quebraram, fruto da quantidade de objetos imersos no rio.

Carro X barco

As ações anteriores consistiram num curioso desafio entre um carro e um barco, para ver qual chegava primeiro ao longo de um percurso com a mesma extensão, dentro e fora do rio – o barco na água e o carro na Avenida Marginal. Nas duas ocasiões, as lanchas estavam na frente, com larga vantagem, quando seus hélices foram atingidos por detritos na água.

Hoje, não aconteceu nada disso e o passeio chegou a surpreender os convidados, que foram escolhidos após se inscreverem na internet.

"Fiquei surpreso tanto com a linda vista dos prédios da cidade que se tem de dentro do rio, um ângulo que a gente não tem como apreciar, quanto com a quantidade de lixo que há rio. Tinha de tudo: sacolinhas plásticas, sacos de lixo, garrafas pets e todo tipo de porcaria. Mas dá para imaginar como seria bonito o passeio se o rio fosse, ao menos, menos sujo", disse um dos participantes, "que ainda sonha em poder fazer isso".

Um dos objetivos do passeio era justamente inspirar não apenas os participantes, mas toda a população de São Paulo sobre a importância da limpeza dos rios e das consequências nefastas do lixo depositado em locais inadequados. "Quem joga lixo na rua nem imagina que ele acaba indo parar num dos rios da cidade", diz Pacionik.

Com a promessa do governador de São Paulo de começar a despoluir o Rio Pinheiros, a esperança é que a quantidade de lixo, ao menos, diminua.

"Vamos retirar 500 mil metros cúbicos de lixo do Rio Pinheiros em um ano e já estamos analisando qual navegabilidade é possível a médio e longo prazo, visando, sobretudo o transporte coletivo fluvial", diz o presidente da EMAE – Empresa Metropolitana de Águas e Energia, Ronaldo Camargo, que também esteve no passeio. Na Europa, diversos rios que eram poluídos foram recuperados e trabalharemos nesse sentido".

O exemplo inglês

O rio que mais inspira os otimistas quanto a possível recuperação dos rios Tietê e Pinheiros é o Tâmisa, na Inglaterra, que corta Londres e chegou a ser o mais poluído da Europa.

Mas um trabalho sério de contenção de dejetos fez com que o rio (que chegou a protagonizar uma tragédia, quando as vítimas de um naufrágio que escaparam com vida acabaram morrendo contaminadas dias depois – leia essa impressionante história) voltasse à vida.

"O Pinheiros também merece isso", completa Paciornik.

Fotos: Victor de Oliveira/SkySampa e Rogério Pallatta/Take Boom

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.