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O curioso farol de São Paulo que foi engolido pela cidade pede socorro

Jorge de Souza

10/09/2019 14h31

A cidade de São Paulo, como bem se sabe, não fica à beira-mar. Mesmo assim, possui um farol, um tipo de construção que, como todo mundo também sabe, tem como objetivo ajudar os barcos a navegar.

É o Farol do Jaguaré, também conhecido como "Mirante do Jaguaré", nome oficial da curiosa torre que se ergue no ponto mais alto do populoso bairro.

Ele fica na Praça do Relógio, na rua Salatiel de Campos, bem diante da confluência dos dois principais rios que cortam a capital paulista, o Pinheiros e o Tietê.

Hoje poluídos até a última gota, qualquer tentativa de torná-los navegáveis é uma quase utopia, apesar de algumas ações nesse sentido – como a que será feita na próxima quinta-feira (12), com um grande barco de passeio num trecho no rio Pinheiros como parte da campanha Por Uma Cidade Navegável.

Na época em que o Farol do Jaguaré foi construído – em 1943 – havia, sim, o objetivo de usá-lo como sinalizador náutico e referência para os barcos no então sinuoso trecho do rio Pinheiros.

Tanto que, além do farol, havia o projeto de construção de um porto fluvial na margem do rio, bem perto daquela grande torre, hoje completamente deslocada na paisagem da cidade.

Quem teve a ideia de construir o farol, hoje engolido pelas casas e prédios da maior cidade do país, foi o arquiteto, urbanista e visionário Henrique Dumont Villares, um sobrinho e afilhado de Santos Dumont, o inventor do avião. Ele queria criar na região do Jaguaré uma espécie de cidade-modelo e o farol seria, também, o símbolo do projeto. Mas acabou virando o que virou: um monumento completamente deslocado na paisagem.

"É muito triste ver o que aconteceu com o farol", diz a historiadora e cineasta Bruna Callegari, que, três anos atrás, fez um filme curta metragem sobre o Farol do Jaguaré, que pode ser assistido no YouTube.

"O farol foi engolido pelas casas e favelas que revestiram completamente o morro onde ele fica, e ainda foi ofuscado na paisagem por um prédio de 12 andares, erguido bem diante dele, que tapou parte da vista maravilhosa que se tem lá de cima", lamenta a cineasta, que, assim como boa parte dos antigos moradores do bairro, é apaixonado pelo farol.

"Sigo este farol há mais de 15 anos", diz Bruna, que não por acaso escolheu o inusitado farol paulistano como tema da sua tese de mestrado na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, um rico documento histórico e arquitetônico sobre o peculiar monumento, que pode ser lido inteiro (PDF).

"Como todo farol, o de São Paulo tem um quê de mistério e magia, que me fascina. E, como todo farol, ele aponta algo. No caso, agora, a falta de um projeto global de urbanismo da cidade, que bem poderia ter usado os seus dois maiores rios para o transporte fluvial", diz a cineasta.

Farol até hoje

"De certa forma, o Farol do Jaguaré continua fazendo o seu papel de sinalizar coisas, embora, hoje, ele tenha quase sumido na paisagem, engolido pelas construções desordenadas, embora fique a menos de 800 metros em linha reta do rio Pinheiros".

E Bruna vai além. "A estrutura da torre, que tem 28 metros de altura, já dá sinais de desgaste, exibe algumas rachaduras, e o sino que havia no topo foi roubado, bem como todo o maquinário dos quatro relógios que decoram suas faces. Além disso, o mato cresce descontrolado no antigo jardim que cercava o farol, hoje uma praça pública, mas praticamente esquecida pela prefeitura", lamenta.

"Até alguns anos atrás, a gente mesmo cuidava do mirante e até reformamos ele inteiro, em 1999, com nossos próprios recursos", diz Maria Gema, moradora do bairro há mais de 40 anos e atual presidente da SAJA – Sociedade Amigos do Jaguaré.

"Em 2013, a Prefeitura pegou o mirante de volta e nada fez para mantê-lo. Agora, querem devolvê-lo para nós, mas só aceitaremos se ele retornar do mesmo jeito que estava, limpo, pintado e com tudo funcionando. Até os ponteiros dos relógios foram roubados", revolta-se Maria Gema, que prefere chamar o farol de "Mirante".

"Mirante do Relógio do Jaguaré é o nome correto dele, porque a vista que se tem lá de cima é linda", diz Maria Gema. "Dá para ver quase 360 graus da cidade inteira e uma vista espetacular tanto da Raia Olímpica da USP, quanto do Pico do Jaraguá e da Serra da Cantareira, que rodeiam São Paulo. Quando alguém quer visitá-lo, a gente pede para um dos nossos voluntários abrir a porta que dá para a escadaria, e acompanhá-los. Mas fazemos isso por pura boa vontade, porque o mirante não está mais sob a nossa responsabilidade".

Atualmente, um cadeado tranca a porta que dá acesso à escadaria, em forma de caracol, de 84 degraus, que leva ao topo do farol-mirante, que, no passado, por muito pouco não virou uma simples caixa-d´água para o bairro.

"A sorte foi que conseguimos que ele fosse tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, em 2004. Se não, talvez já tivesse sido até derrubado, porque, em determinado momento, virou abrigo para drogados e desocupados", diz Maria Gema.

Por conta disso, a porta que dá acesso ao farol ganhou o tal cadeado e a praça onde ele fica foi cercada com altas grades, já que, também no passado, havia planos de transformá-la em estacionamento para automóveis dos usuários do Posto de Saúde da Prefeitura que funciona ao lado do monumento – o que, em determinado momento, fez com que, de certa forma, o farol e a praça ficasse sob responsabilidade da Secretaria da Saúde, num dos casos mais bizarros de administração pública da cidade.

Mesmo hoje, a chave da escadaria do farol fica guardada no vizinho Posto de Saúde, que, durante certo tempo, também usou o interior da torre para armazenar material de construção durante uma obra de ampliação das suas instalações. "Quando alguém quer subir, eu peço que volte num sábado, quando o Posto de Saúde está fechado. Daí, eu abro o cadeado e levo o pessoal até o alto, para mostrar a vista, que é muito bonita", diz, também com boa vontade, um dos vigilantes terceirizados do Posto de Saúde ao lado.

Outras histórias de farol

Apesar de peculiar, o Farol do Jaguaré não é o único do gênero na cidade de São Paulo. Nas margens da Represa Guarapiranga, que banha parte da capital paulista, há outro farol náutico, este em pleno funcionamento.

Ele é particular e foi erguido no quintal de uma casa na beira da represa, pelo próprio dono dela, para facilitar sua volta para casa nas noites em que saia para passear com sua lancha.

E virou atração na represa paulistana.

"Faróis são emblemáticos e todos deveriam ser preservados, porque guardam muitas histórias", diz a cineasta Bruna, com propriedade.

De fato, faróis e histórias sempre andaram de mãos dadas.

Uma das histórias mais famosas envolvendo faróis náuticos foi a americana Ida Lewis, que se tornou faroleira numa isolada ilha do estado de Rhode Island aos 16 anos e, sozinha, salvou tantas pessoas remando velhos barcos de madeira que acabou batizando não apenas o próprio farol onde trabalhou a vida inteira, como, também, uma das avenidas do estado e o mais famoso iate clube dos Estados Unidos – outra interessante história que pode ser conferida em outro post.

Fotos: Espaço Liquido/O Farol Invisível e Jorge de Souza

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.