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Entrar numa fria: a próxima meta do homem que cruzou oceano com uma prancha

Jorge de Souza

01/09/2019 04h00

No sábado passado (24), após 76 dias no mar, o aventureiro espanhol Antonio de la Rosa tornou-se o primeiro homem a cruzar boa parte do oceano Pacífico remando uma prancha especial de stand up.

Ele foi de São Francisco ao Havaí, numa distância de 4 750 quilômetros, movido apenas pela força dos braços, sem nenhum tipo de ajuda ou barco de apoio.

Antonio chegou 13 quilos mais magro, barbudo, cansado, com as mãos calejadas pelo uso do remo durante oito a dez horas por dia, mas eufórico – e já pensando na sua próxima aventura.

"Minha próxima expedição será em terra firme, mas num local bem frio", avisou o aventureiro, assim que colocou os pés numa marina de Waikiki, na ilha de Oahu, no Havaí, onde chegou após dois meses e meio remando, sozinho, no maior oceano do mundo. "Gosto de intercalar ações no mar e na terra, e é o que farei em breve", disse Antonio, que completou 50 anos de idade durante a própria travessia.

E convém não duvidar da capacidade deste espanhol de fazer coisas pra lá de radicais.

Ele já foi da África à Europa remando um caiaque, pedalou quase 2 000 quilômetros no inverno do Alasca, foi o primeiro homem a remar uma prancha de stand up no gelo do Círculo Polar Ártico, atravessou o Oceano Atlântico remando, também em solitário, um pequeno barco, e até entrou para o Livro dos Recordes por ter batido o recorde de beijos debaixo d'água – ele ficou sete minutos submerso uma piscina, respirando apenas o ar que recebia da boca de duas mulheres na superfície.

No ano passado, usando esquis de neve especiais, Antonio atravessou, a pé, a Lapônia, sob temperaturas que chegaram a 30 graus abaixo de zero, numa ousadia que durou um mês inteiro.

E sempre sem nenhum acompanhante ou equipe de apoio, como o espanhol gosta de fazer. "Ir sozinho não significa solidão", define. "Eu amo o tipo de vida que levo".

Uma prancha diferente

Na travessia do Pacífico, que começou no início de junho e só terminou na semana passada, Antonio usou uma prancha especial, que mandou construir, que mais parecia um pequeno barco.

A prancha-barco do espanhol tinha placas solares para gerar energia para o GPS que lhe indicava o rumo a seguir na imensidão do oceano, um sistema que transformava a água do mar em potável e uma pequena cabine, onde ele dormia. Para comer, tinha alimentos liofilizados, que dissolvia na água, e, eventualmente, pescava.

Não havia, contudo, nenhum tipo de vela ou motor na sua prancha – só mesmo o remo. "Meu motor eram os meus braços", resumiu, na chegada, aos repórteres, os primeiros seres humanos que encontrou após dois meses e meio sozinho no meio do mar.

Agora, na sua próxima expedição, que será outra longa travessia, Antonio diz que repetirá a dose e irá, uma vez mais em solitário, "para algum lugar congelado, onde não exista ninguém", nem mesmo para socorrê-lo, caso ele precise de ajuda.

Contra o lixo nos mares

A travessia do Pacífico, a primeira do gênero feita com uma prancha de stand-up, teve, também, um apelo ecológico, já que Antonio usou a repercussão do seu feito para protestar contra a quantidade de lixo plástico que vem sendo jogada nos oceanos.

"Vi muita coisa boiando no mar que não deveria estar ali", disse o remador, que batizou sua curiosa prancha com o nome "Defensora dos Oceanos".

Na chegada, ele fez questão de caminhar (ainda que com dificuldade, depois de tanto tempo balançando no mar) até uma lata de lixo reciclável na marina e depositar todos os resíduos sólidos que gerou na travessia.

"Trouxe comigo todo o meu lixo e passei 76 dias remando, até encontrar o lugar correto para descartá-lo", brincou. "Todo mundo deveria fazer o mesmo com seu lixo diário".

Protesto também à nado

Recentemente, a questão da quantidade absurda de lixo plástico que vem sendo lançada nos mares levou outro aventureiro a também atravessar uma parte do Pacífico de uma maneira inédita, para chamar atenção para o problema.

Escoltado por um barco de apoio, o nadador francês naturalizado americano Ben Lecomte nadou mais de 500 quilômetros no trecho de maior concentração de lixo do maior oceano do mundo, também entre o Havaí e a Califórnia, em outra grande odisseia.

"Gostei da minha travessia justamente porque ela foi difícil", resumiu o espanhol Antonio, que sempre viveu em busca de novos desafios. Sejam eles na terra, na água, ou, como ele promete agora, no gelo.

 

Fotos: Divulgação Antonio de la Rosa

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.