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Colecionador de naufrágios: o mergulhador que fez a casa virar quase barco

Jorge de Souza

28/08/2019 09h15

Entre as dezenas de milhares de casas de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, uma se destaca. Não pela localização privilegiada, arquitetura arrojada ou qualquer outra característica imobiliária, mas sim pelo que há dentro dela: um misto de depósito de equipamentos para barcos com museu náutico particular.

Nela, os corrimãos das escadas são pesadas correntes de navios, algumas portas são de submarinos, no lugar de janelas há escotilhas, as plantinhas do quintal ficam dentro de vasos feitos com luminárias de barcos, a base da mesa é uma gigantesca hélice e a campainha do portão é um sino, que, um dia, foi usado em alguma antiga embarcação.

"Aqui, eu me sinto num barco", diz o dono da casa e da ideia de equipá-la só com peças náuticas, que, não por acaso, também é dono do maior acervo de equipamentos marítimos da região e do maior museu particular do gênero do litoral de São Paulo. O grego, naturalizado brasileiro, Jeannis Michail Platon, de 70 anos, está há quase 50 deles atuando como mergulhador em busca justamente de itens retirados de naufrágios.

Titanic brasileiro

"Vim para o Brasil com 12 anos de idade, mas naquela época já mergulhava na ilha de Creta, onde nasci. Aqui, virei escafandrista profissional e me dediquei a pesquisar velhos naufrágios, sobretudo um em particular: o do transatlântico espanhol Príncipe de Astúrias, que afundou em Ilhabela 103 anos atrás e é considerado o Titanic Brasileiro", conta Jeannis, que passou 18 anos mergulhando regularmente nos restos do navio, no fundo do mar da ilha.

Da experiência no naufrágio do Príncipe de Astúrias, Jeannis extraiu conhecimento e equipamentos, inclusive algumas estátuas de bronze que seguiam no navio e que foram doadas à Marinha do Brasil e à Prefeitura de Buenos Aires, para onde seguiam, e tomou gosto de vez pelo tema.

"Naufrágios são como cápsulas do tempo, que permitem descobrir como viviam e como navegavam as pessoas no passado", diz o velho mergulhador, hoje um dos maiores colecionadores de artefatos náuticos do Brasil, quase todos guardados em sua própria casa – que, como isso, virou um misto de museu e depósito.

"Minha casa é quase um estaleiro", brinca a mulher de Jeannis, Kátia, que de tanto conviver com âncoras e timões pelos cômodos da casa, hoje cuida de uma loja de decoração náutica na cidade, a Sportmar, criada por Jeannis décadas atrás.

Na época, além de pesquisar naufrágios, Jeannis passou a visitar desmanches de navios, em busca de mais equipamentos, que foram preenchendo tanto o depósito da loja quanto a sua própria casa – que, por conta disso, precisou ser ampliada.

Duas casas só de depósito

Hoje, além da própria casa onde mora, Jeannis mantém outras duas casas, na parte de trás do terreno, abarrotadas de peças e equipamentos náuticos, sem falar na garagem repleta de caixas e prateleiras etiquetadas, onde guarda ainda mais coisas.

"Mas não há bagunça", avisa. "Tudo está catalogado e sei exatamente onde fica cada pecinha", diz o colecionador, que não mostra o que tudo o que tem em casa, e cujo acervo divide em duas partes: uma que vende para apreciadores e colecionadores do gênero, e outra que apenas exibe, nos museus náuticos que já criou.

Museu náutico itinerante

Criar exposições com seus equipamentos e achados no mar é outro hábito de Jeannis. Até três anos atrás, ele respondia por boa parte do acervo do rico Museu de Naufrágios de Ilhabela, que, no entanto, fechou as portas por questões políticas. Jeannis, no entanto, não se deu por vencido.

Pegou uma pequena parte do seu acerco, de milhares de peças, algumas delas retiradas do próprio naufrágio do Príncipe de Astúrias, e criou uma espécie de museu náutico itinerante, algo até então inexistente no Brasil. "Em vez de as pessoas irem até o museu, decidi levar o museu até as pessoas", diz Jeannis, que, para isso, passou a escolher locais com grande concentração de visitantes. Como os shoppings centers.

Atualmente, o seu interessante museu náutico móvel está "ancorado", por assim dizer, no shopping Serramar, em Caraguatatuba, o maior do litoral norte de São Paulo, e é uma mistura de museu e loja, já que alguns itens também estão à venda.

"Mas não vendo tudo, por dois motivos", explica o colecionador-empresário. "Primeiro, porque não quero que parte da História náutica da região se espalhe por aí. Segundo, porque sou apaixonado pelas histórias que estão por trás de alguns desses objetos e não quero deixá-los de tê-los ao meu lado. Mas já está faltando espaço", reconhece o quase acumulador inveterado de apetrechos náuticos.

A consequência disso é que também a sua casa virou uma espécie de antiquário náutico, embora ali as peças não estejam à venda. "Em casa, eu só as guardo", diz Jeannis, que, embora grego, fala e escreve em português fluente, sem nenhum sotaque.

Caçador de tesouros

Tanto que, além de pesquisar, coletar e colecionar artefatos de barcos, ele já escreveu cinco livros, todos sobre naufrágios, sobretudo o do famoso transatlântico, e o lendário tesouro que haveria em Ilhabela – o mesmo que fez um obstinado pesquisador belga passar 40 anos vasculhando uma parte erma da ilha, numa intrigante história, que pode ser conferida aqui.

Jeannis tem íntima relação com esta história, mas, para ele, o verdadeiro tesouro são algumas peças de velhos barcos que entulham sua casa. "Sou uma espécie de guardião da história náutica da região", diz, orgulhoso, das toneladas de material náutico que guarda em sua casa.

Fotos: Jorge de Souza e Arquivo pessoal

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.