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Imitando egípcios: pesquisador está navegando com um barco feito de plantas

Jorge de Souza

22/08/2019 09h26

Neste exato instante, um grupo de aventureiros de oito países europeus liderado por professor alemão está navegando no Estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia, com um grande e curioso barco. Feito de junco, um tipo de capim, ele é uma réplica dos primitivos barcos usados no Egito Antigo e foi construído por dois indígenas bolivianos, no litoral da Bulgária.

O objetivo desta salada multicultural é comprovar uma teoria: a de que os antigos egípcios já navegavam entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Negro 2 mil anos antes de Cristo, a fim de buscar materiais que não possuíam. Como a magnetita, um minério que eles teriam usado para construir ferramentas a fim de erguer as pirâmides, que só existia em terras distantes.

A teoria é do próprio professor que está por trás do experimento, o pesquisador e arqueólogo experimental alemão Dominique Goerlitz, de 53 anos, que já promoveu outras expedições do gênero, tentando também provar que os egípcios navegavam para muito além do que se imagina, tendo, inclusive, chegado à América muito antes de Cristóvão Colombo.

"Minhas expedições se baseiam em escritos de Heródoto, o Pai da História, e estad mostrarão que já existia um comércio entre os povos destas duas regiões, 4 mil anos atrás", explicou Goerlitz ao partir de um porto perto de Varna, na costa da Bulgária, na última sexta-feira, com o objetivo de chegar à ilha de Creta, a 1, 3 mil quilômetros de distância, navegando seu exótico barco na companhia de oito voluntários.

"O correto seria usar papiro, como faziam os antigos egípcios, mas esse material não existe mais em abundância, então usamos o junco, que é bem parecido", explicou o pesquisador.

Para isso, Goerlitz recorreu a dois especialistas no assunto: os índios bolivianos da tribo aimara Fermin Limachi e seu filho, Yuri, que, há décadas, constroem barcos de junco totora no Lago Titicaca, na divisa entre o Peru e a Bolívia.

No passado, o boliviano Fermin ajudou a construir o barco com a qual o famoso pesquisador norueguês Thor Heyderahl realizou a mais conhecida expedição do gênero da História, ao cruzar o Oceano Atlântico com uma jangada feita de junco, para provar a capacidade de navegação dos antigos egípcios.

No caso de Goerlitz, além dos dois especialistas, ele também precisou importar 12 toneladas de junco da Bolívia para a Bulgária, onde o barco foi montado, usando para isso dois quilômetros de cordas, a fim de prender os feixes de totora.

O resultado, contudo, ficou extraordinário.

Batizado de Abora IV, o exótico barco tem 14 metros de comprimento, capacidade para dez pessoas, e – espera-se – resistência suficiente para suportar os mais 1 mil quilômetros de mar aberto que separam os pontos de partida e chegada da expedição, prevista para durar semanas.

Por enquanto, apenas um pequeno trecho de 300 quilômetros, entre a costa da Bulgária e a Turquia, foi cumprido ao longo de três dias (clique aqui para saber onde eles estão, neste instante).

Mas agora virá a parte mais difícil, quando a embarcação cruzar o Estreito de Bósforo e entrar no Mar Egeu, onde os ventos são sempre muito fortes. Sobretudo para um barco feito de simples feixes de plantas amarradas.

"Se ele desmanchar, tudo bem", comentou bem-humorado um dos tripulantes voluntários da expedição, o holandês Mark Pales, de 42 anos. "O junco totora não afunda e gente pode ser agarrar nele até o resgate chegar".

Algo parecido aconteceu durante a expedição mais famosa de Goerlitz até hoje, a da travessia do Atlântico, doze anos atrás, com um barco similar. Quando o grupo estava a cerca de 900 quilômetros das Ilhas dos Açores, depois de ter partido de Nova York dois meses antes, o barco virou, encharcou e todos precisaram ser resgatados.

Experiências oceânicas a bordo de embarcações rústicas não são, contudo, nenhuma novidade. Diversas já foram feitas, com os mais variados objetivos.

Uma das mais excêntricas foi a conduzida pelo antropólogo mexicano Santiago Genovés, que, em 1973, confinou cinco homens e seis mulheres, que até então não se conheciam, numa grande balsa no meio do oceano, para analisar o comportamento humano em espaços confinados, estimulando o confronto e o relacionamento livre.

Apelidado de "Balsa do Sexo", o experimento (cuja polêmica história pode ser conferida aqui) foi uma espécie de precursor dos Big Brothers e acaba de virar o filme-documentário "A Balsa", que chegará em breve aos cinemas brasileiros.

Já a expedição de Goerlitz precisa, primeiro, dar certo,  antes de virar algo mais do que apenas uma aventura.

 

Fotos: Divulgação

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.