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"Foi horrível", diz navegadora espancada por ladrões em pleno mar da Bahia

Jorge de Souza

25/07/2019 14h16

Uma velejadora capixaba que participava de um alegre cruzeiro coletivo de 15 barcos pela costa brasileira foi atacada por dois bandidos (ou "piratas", como se diz em caso de ataques no mar) nesta quarta-feira (24), quando descansava em seu barco, ancorado na baía de Camamu, no litoral sul da Bahia.

Maria Augusta Favarato, mais conhecida como Guta, foi dominada com facilidade por dois bandidos que chegaram numa canoa e abordaram o barco. Eles a amordaçaram, amarraram, prenderam seus pés e mãos à uma cadeira. Guta foi espancada durante um bom tempo, até conseguir indicar, através apenas do olhar, já que não podia falar nem se movimentar, onde estava a sua bolsa, com a carteira, que era o que os bandidos queriam.

"Eles só perguntavam por dinheiro, onde estava o dinheiro, achando que a gente, por estar num veleiro, era milionário".

"Como eu não conseguia me comunicar, porque estava imobilizada, apanhava ainda mais. Apanhei no rosto, nas pernas, na barriga, nas costelas e fiquei com hematomas pelo corpo inteiro", disse a velejadora.

Guta viajava com o marido, Fausto, e o cachorrinho do casal, o pinscher Xerife, que tem esse nome justamente porque ajuda a proteger o barco e dá alerta sempre que alguém se aproxima. Mas eles não estavam no barco no momento do ataque.

"O Fausto desembarcou para levar nosso cachorrinho até terra firme e eu fiquei na cabine do barco, descansando. Em seguida, ouvi alguém chamando 'Dona! Dona!', e saí para ver quem era. Dei de cara com um sujeito subindo no barco, com uma faca na mão, enquanto outro ficou na canoa. Eu corri para a cabine, mas não consegui fechar a porta a tempo. Daí ele entrou e me imobilizou. Acho que eles estavam nos vigiando e sabiam que o meu marido havia saído com o cachorro", diz Guta, que mora no próprio barco com o marido há 18 anos e já deu a volta ao mundo navegando.

"Antes de sair, o ladrão me espancou ainda mais e eu desmaiei. Quando acordei, meus pés estavam roxos pelo aperto da fita na cadeira. Para pedir socorro, me arrastei pelo chão com a cadeira até o rádio do barco e me machuquei ainda mais. Mas, pelo menos, consegui pedir chamar os outros barcos do cruzeiro e eles vieram me ajudar", contou a navegadora, que, agora, está tentando ir até uma delegacia de polícia registrar a ocorrência, já que o barco do casal está ancorado numa área erma e remota da baía de Camamu.

"Estou tão machucada e dolorida que não consigo sair do barco, mas vou tentar ir até a polícia, diz Guta, que lamentou não ter uma arma a bordo.

"Se eu tivesse, como todo cidadão brasileiro, o direito de me defender, tenho certeza que não teria sido espancada nem roubada, porque tive tempo para reagir. É um absurdo ser impedida pela lei de me defender", diz a velejadora.

Ela, junto com o marido, ganha a vida hospedando pessoas no seu barco.

"Somos uma espécie de pousada flutuante e vivemos disso", diz Guta, que perdeu R$ 1.200 no assalto. "O bandido levou até as moedas que estavam na minha bolsa e ficava o tempo todo me cutucando com o cabo da faca, ameaçando me matar, enquanto me espancava".

O ataque à velejadora, que acabou de publicar um livro em que fala justamente dos prazeres de viver num barco (ela e o marido moram no próprio veleiro, com o qual já visitaram mais de 30 países, sem nenhum tipo de ocorrência até ontem), gerou indignação nos demais participantes do cruzeiro. Eles, então, decidiram lançar imediatamente um abaixo-assinado pela internet, exigindo mais segurança também para quem está no mar.

"A pirataria está igualmente se espalhando pelo nosso país, com violência e requintes de crueldade", diz o documento.

"É preciso que o governo crie uma força-tarefa especializada nesse tipo de crime. Não podemos permitir que os bandidos façam o que bem quiserem também no mar" finaliza o abaixo-assinado, que está coletando assinaturas na internet e será entregue às autoridades assim que o cruzeiro chegar a Salvador, na Bahia, onde terminará o cruzeiro.

A agressão à velejadora fez a comunidade náutica e todos os ocupantes dos demais barcos do cruzeiro recordarem da morte do também navegador paranaense Abel Aguilar (amigo de muitos deles, por sinal), dez anos atrás, quando dormia em seu barco na Ilha de Itaparica, também na Bahia.

Abel foi atacado enquanto dormia no barco por dois homens, levou dois tiros à queima-roupa e morreu na hora. Os bandidos fugiram e foram perseguidos por uma escuna. Para escapar, se atiraram ao mar. Mas foram presos no dia seguinte.

O caso mais famoso de pirataria contra navegadores em águas brasileiras, no entanto, aconteceu em dezembro de 2001, quando o velejador neozelandês Peter Blake, na época o mais celebrado navegador do mundo, foi assassinado por bandidos que também invadiram o seu barco quando ele estava ancorado em Macapá, capital do Amapá, durante um intervalo da expedição científica que vinha fazendo pela Amazônia.

A morte estúpida de Blake, que era uma espécie de ídolo nacional na Nova Zelândia e considerado um dos maiores velejadores de todos os tempos, gerou indignação mundial e encheu o Brasil de vergonha.

"Só espero nunca mais passar por nada perto disso", diz Guta, que, machucada e traumatizada, ainda mal consegue caminhar. "Foi horrível".

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.