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O morador de rua que vive no barco-barraco mais bem localizado da Bahia

Jorge de Souza

30/05/2019 09h00

O baiano Alberto Jesus da Conceição tem 34 anos, é solteiro, não vive de emprego, passa os dias de bermuda e sem camisa e mora a bordo de um barco permanentemente ancorado bem diante de um dos principais cartões postais da cidade de Salvador: o Mercado Modelo. Quando sente calor ou apenas vontade, ele dá meio passo para fora da sua casa flutuante e mergulha nas águas da Baía de Todos os Santos, onde, vira e mexe, também pesca, para garantir um almoço fresquinho, pouco importando se é domingo ou segunda-feira.

Dito assim, mais parece que o baiano Alberto leva a vida que pediu a Deus, sem precisar trabalhar e vivendo num barco magnificamente ancorado bem em frente a um dos mais famosos e valorizados pontos da capital baiana. Mas não é nada disso…

O barco-casa de Alberto não passa de uma espécie de barraco flutuante, feito de pedaços de madeira e sacos plásticos. Ele só não pode ser chamado de "morador de rua", porque, em vez de viver debaixo de uma marquise ou nas calçadas, mora dentro d'água, numa espécie de favela náutica, que ele mesmo construiu.

"Vim pra cá com 10 anos e vivo aqui há 34", diz Alberto, se atrapalhando todo com as contas, já que, a despeito da sua esperteza e habilidade ("Sou pintor, cantor, mergulhador, auxiliar de serigrafia e o que mais pintar pela frente, porque essas mãos sabem fazer muitas coisas", garante ele), o raciocínio linear não é o seu ponto forte.

Alberto é usuário de crack, dependente químico até a última pedra e como sempre viveu nas imediações imundas do Mercado Modelo ganhou, ainda pivete, um apelido que carrega até hoje: "Sou o Cara Suja", diz, orgulhoso.

"Pode botar meu nome na internet que aparece até filme no You Tube. Põe lá, Cara Suja, um cara que sabe viver a vida e que vive aqui há 14 anos", diz, misturando assuntos, embaralhando os números e falando compulsivamente, como sempre faz.

"A cara é suja, mas o coração é limpo", recita Alberto.

Ele costuma se dedicar a uma atividade bem curiosa para um morador de rua, quando não está fumando crack nas redondezas do Mercado Modelo, claro: limpar a prainha onde fica o seu barco-barraco.

Sai recolhendo o lixo que chega na areia e, depois, armado com um puçá (tipo de peneira para pegar peixes), ele vai para a amurada da avenida e fica "pescando" o que chega pelo mar – garrafas pets, sacos plásticos, embalagens vazias e todo tipo de porcarias.

"Atrapalha os peixes", ele explica, já que o lixo interfere na terceira atividade que ele mais pratica: a pesca de minúsculos peixinhos, que são a base do que ele come todos os dias.

Isso quando ele come algo, porque enquanto não acabarem todas as pedras do crack que conseguiu comprar com os trocados que ganha fazendo bicos para os moradores da redondeza, Cara Suja não come nada. Passa dias em jejum, o que explica o corpo esquelético, mas sempre elétrico.

"Eu ajudo ele sempre que posso", diz o maior anjo da guarda de Alberto, o comerciante Cesar Rezak, responsável por uma loja de passeios náuticos vizinha ao Mercado Modelo e ao barco-favela do mais famoso personagem do pedaço.

"A cabeça dele não é 100%, mas ele é do bem. Não briga, não rouba e gosta de conversar, embora nem sempre dê para entender o que ele diz, ", conta Cesar, que vive tentando achar uma maneira de ajudar o insólito vizinho de maneira mais consistente.

"Sempre peço pro pessoal doar coisas para ele, mas não dinheiro, porque tudo que ele ganha ele gasta, na mesma hora, com o crack", diz Cesar, que, sempre que surge uma oportunidade tenta escarafunchar a vida pregressa de Cara Suja, fazendo perguntas que ele responde misturando tudo.

"A cabeça dele é um turbilhão de raciocínios muitas vezes sem sentido, por conta de anos e anos fumando crack, mas já descobri que ele tem quatro irmãos, embora nenhum contato com a família. E que também nunca estudou, embora seja bem inteligente", diz o amigo Cesar.

O barco no qual Cara Suja vive, um pequeno catamarã originalmente movido a vela, foi um presente de um velejador francês que vivia em Salvador. Ao partir da cidade, ele doou o barco, já caindo aos pedaços, para aquele extrovertido sujeito, que não tinha onde dormir e aparecia todos os dias, falando sem parar.

Cara Suja, então, ergueu uma espécie de engradado entrelaçado com varetas de bambu e revestido de plástico sobre o casco e criou sua exótica casa flutuante, que, para completar a aparência insólita, ainda ostenta uma bandeira do Brasil presa ao teto.

Em seguida, conseguiu que a Marinha fechasse os olhos e permitisse que o seu estranho barco ficasse permanentemente ancorado numa área que pertence à Base Naval de Salvador, bem diante de três dos maiores cartões-postais da cidade: o Mercado Modelo, o monumento à cidade de Salvador e o lendário Elevador Lacerda. Ninguém mais em Salvador tem uma vista tão privilegiada. Muito menos a partir de um barraco.

A opção de morar num barco em vez de uma casa não é nenhuma novidade. Muita gente já fez isso e outros continuam fazendo. Mas ainda são poucos os menos afortunados que já perceberam que uma boa maneira de morar nas melhores áreas das cidades é trocar a terra-firme pela água – como fez o esperto baiano Alberto.

Outro que também descobriu isso foi o aposentado capixaba Jackson da Silva, que, sem recursos para alugar uma casa, viveu numa simples canoa adaptada na melhor praia da capital do Espírito Santo durante anos a fio. Até que, um dia, ele resolveu realizar o sonho de navegar com sua canoa-moradia até a Amazônia e partiu. Mas não foi muito longe, porque a frágil canoa bateu nas pedras e afundou, quase levando o aposentado junto (clique aqui para ler esta história).

Mesmo assim, Jackson não se deu por vencido. Agora, com a ajuda de amigos, está construindo outro barquinho-moradia, para voltar a viver na parte mais nobre de Vitória sem ter que pagar um centavo por isso.

"É por isso que vivo aqui, bem na frente do Mercado Modelo, há 44 anos", completa o mentalmente atrapalhado (24, 34 ou 44 anos, afinal?), mas mais exótico, folclórico e original morador de Salvador.

 

Fotos: Arquivo pessoal/Cesar Rezak

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.