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Atravessar o maior lixão dos mares a nado: o novo desafio do supernadador

Jorge de Souza

2018-04-20T19:09:00

18/04/2019 09h00

(Legenda: The Longest Swim/Divulgação)

Em dezembro do ano passado, o nadador francês naturalizado americano Ben Lecomte, de 51 anos, precisou desistir da inédita travessia que vinha fazendo do oceano Pacífico a nado por um problema que não teve nada a ver com sua capacidade para encarar aquele desafio monumental: seu barco de apoio quebrou e a travessia teve que ser abortada, quando Lecomte, que havia partido do Japão, já havia cumprido dois terços do caminho e se aproximava do Havaí.

Na ocasião, apesar da decepção, o nadador não saiu da água totalmente frustrado, porque um novo projeto brotara em sua mente justamente enquanto ele nadava: voltar a nadar no Pacífico, mas numa área específica, a da maior concentração de lixo plástico do mundo, que fica ali mesmo.

(foto: iStock)

"Enquanto eu nadava, vi tanto plástico no mar que conclui que a melhor maneira de ajudar a chamar a atenção das pessoas para a gravidade desse problema seria atravessar o maior lixão oceânico do planeta", disse o nadador, ao apresentar o seu novo projeto.

E é isso que Lecomte irá fazer agora. No mês que vem, ele partirá do Havaí com o objetivo de chegar, nadando, à Califórnia, numa travessia de cerca de 4.000 quilômetros, que deve durar cerca de três meses.

O objetivo dele é cruzar, a nado, o trecho do Pacífico que tem o maior acúmulo de lixo plástico do planeta, a fim de sentir o problema, literalmente, na pele.

"O problema é realmente sério".

"Na travessia do Pacífico, cansei de esbarrar em peças plásticas na superfície e ver grandes emaranhados de redes de pesca abandonados no meio do mar e é isso que nossa expedição irá mostrar, documentar e tentar mensurar", diz Lecomte.

Iceberg de lixo

Segundo pesquisadores, a cada ano, oito milhões de toneladas de lixo plástico vão parar no oceano Pacífico, levados pelos rios que nele deságuam. E o que é visto boiando na superfície representa apenas 1% disso.

"99% dos resíduos plásticos que poluem os mares estão submersos ou transformados em micropartículas, que se tornam fatais para os seres marinhos ao serem ingeridas", diz o cientista ambiental Markus Eriksen. "O que vemos na superfície é só a pontinha do iceberg".

Mesmo assim, Eriksen é otimista. "Ainda dá tempo de fazer algo e reverter este quadro. Mas é preciso agir rápido e convencer as pessoas de todo o planeta de que sempre que elas descartam lixo fora dos locais apropriados, ele vai parar inevitavelmente no mar, levado pelas enchentes, pelas tubulações e pelos rios. Este hábito precisa mudar".

(foto: iStock)

Os mais pessimistas vêem a questão com olhos bem mais alarmantes. Segundo eles, em 2050 (portanto, daqui apenas 31 anos), haverá mais plásticos do que peixes nos oceanos.

Dados ainda mais catastróficos estimam que, hoje, já existe cerca de 1,8 trilhão de peças de lixo plástico nos oceanos, ou 250 resíduos para cada habitante do planeta.

Exagero? Não é o que pensa o próprio nadador Lecomte. "O Grande Cinturão de Lixo do Pacífico já está chegando perto disso e cobre uma área colossal, com três vezes o tamanho da França", diz.

Girando sem parar

A razão pela qual essa monumental quantidade de plástico se concentra naquele ponto específico do oceano tem a ver com as correntes marítimas da região.

Ali, diversas correntes se encontram, acrescentando cada vez mais resíduos ao lixão do Pacífico.

Em seguida, os resíduos embarcam no chamado Giro do Pacífico, uma espécie de corrente marítima circular, que fica girando eternamente de um lado a outro do oceano.

Por conta desta característica, boa parte do Pacífico virou uma espécie de ralo, concentrando a sujeira do oceano, sobretudo o plástico, que leva décadas para começar a se degradar na água.

Uma garrafa pet lançada ao mar na costa da Califórnia irá chegar ao litoral do Japão, do outro lado do Pacífico, num prazo entre três e cinco anos. E após outro período igual a esse, retornará ao mesmo ponto, dando início a um novo giro. E assim indefinidamente.

Por ficar eternamente girando no oceano, o ciclo do lixo no Pacífico não termina nunca. E o plástico, que compõe a grande maioria dele, praticamente também não. "O plástico foi feito para desafiar a natureza", lamenta um ambientalista da equipe de Lecomte.

Esta perversa característica das correntes marítimas da região foi descoberta, por acaso, em 1990, quando um navio deixou cair um container com 65 000 pares de tênis no meio do Pacífico.

Embora o container tenha espalhado sua carga no mar, nenhum tênis jamais chegou à costa, por conta das correntes circulares. E estão lá até hoje.

Segundo a oceanógrafa Sarak Royer, da Universidade do Havaí, plásticos que foram parar no mar quando da invenção deste material, na década de 1950, ainda seguem boiando no Pacífico ou (o que é pior ainda) transformados em micropartículas, imperceptíveis ao olho humano, mas com efeito letal ao serem engolidas pelos seres marinhos.

(foto: iStock)

"É como se o ar que respiramos estivesse impregnado de partículas toxicas", diz a oceanógrafa. "E é isso que a humanidade está fazendo com os peixes, baleias e tartarugas, ao permitir que o lixo plástico chegue ao mar".

Se, por um lado, as correntes circulares do Pacífico evitam que o lixo lançado ao mar chegue ao litoral, por outro vão sendo entupidas cada vez mais de detritos, que é o que já está acontecendo – fato que levou Lecomte a dedicar a questão do lixo plástico a sua próxima expedição oceânica a nado.

"Durante a travessia, vamos coletar dados para a criação do primeiro levantamento realmente prático da poluição causada pelo plástico", explica o nadador, que, por isso mesmo, está recrutando voluntários mundo afora para ir junto com ele na expedição, obviamente de barco.

Vagas para voluntários

"Abrimos seis vagas na equipe para novos tripulantes do barco de apoio", diz a gerente de operações da equipe de Lecomte, Hannah Altschwager. "A preferência é para engenheiros, cientistas, médicos, influenciadores digitais e pessoas que tenham alguma experiência com barcos, embora isso não seja fundamental. É um trabalho voluntário, não remunerado, mas uma experiência única e com todas as despesas pagas durante a viagem", explica. "Pena que praticamente todas as vagas já estejam preenchidas, embora ainda estejamos recebendo currículos, através do email join@thelongestswim.com".

Ao longo do extenso trajeto que pretende cumprir movido apenas pela força dos bracos (só parando para se alimentar e descansar no barco), Lecomte irá aplicar sinalizadores de GPS nos maiores objetos flutuantes que for encontrando pelo caminho. "Queremos saber exatamente como o lixo navega no Pacífico", diz o experiente nadador, que tem no currículo façanhas incríveis, como a travessia do oceano Atlântico, também a nado, em 1998.

Na ocasião, porém, seu feito foi bastante questionado, porque, enquanto ele descansava no barco de apoio, a embarcação seguia navegando (veja mais detalhes aqui).

Contido, na tentativa de travessia do Pacífico, o protocolo foi alterado e sempre que Lecomte subia a bordo para comer, dormir ou descansar, o barco parava de se movimentar – mesmo procedimento que será usado agora, quando o francês/americano voltar para a água, disposto a atravessar, a nado, o maior lixão dos mares.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.