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A linda praia do litoral fluminense onde ninguém (mesmo!) pode entrar

Jorge de Souza

22/12/2018 12h14

No Brasil, por força de lei, todas as praias são públicas. Mas existe uma praia (na verdade, duas, embora unidas pela mesma faixa de areia) onde esta lei não se aplica: as lindas praias-siamesas de Leste e de Sul, no lado de fora da Ilha Grande, no litoral sul Rio de Janeiro. Nelas, ao contrário do que determina a lei, o acesso de qualquer pessoa é terminantemente proibido. Mas por um bom motivo: para mantê-las cem por cento preservadas.

As praias de Leste e de Sul fazem parte de uma Reserva Biológica, a mais severa das classificações ambientais no Brasil e, por isso, não podem ser visitadas. Apenas biólogos, cientistas e pesquisadores têm permissão para conhecê-las, mesmo assim, mediante autorização do Inea – Instituto Estadual do Ambiente, responsável pelo Parque Estadual da Ilha Grande e, também, por aquela enorme área ainda totalmente virgem – um dos últimos e maiores santuários de mata atlântica do litoral fluminense.

Ao fundo das duas praias, ambas sempre desertas e sem viva alma por perto, porque o controle é feito por fiscais que ficam no vizinho povoado do Aventureiro munidos de binóculos, há densas montanhas cobertas de mata e um sinuoso riozinho, com águas cor de Coca-Cola, fruto da decomposição de materiais naturais nas margens, que forma duas lagoas e avança até a areia da praia, dividindo-a em duas (de um lado é chamada de Praia do Sul; do outro, Praia do Leste).

Entre uma praia e outra, há ainda uma caprichosa ilha. Juntas, elas têm mais de seis quilômetros de extensão, com areias bem finas e brancas. É um dos cenários mais lindos da região de Angra dos Reis, onde fica a Ilha Grande. Mas ninguém pode conhecê-lo.

Nem mesmo de barco, porque até o trecho de mar que fica diante da praia também faz parte da reserva e, por isso, é proibido parar barcos ali.  Desembarcar, então, nem pensar.

"Reservas biológicas são sensíveis demais à presença humana e, por isso, precisam ser preservadas intactas", explica o responsável pela área, Tercius Barradas, que também é o chefe do Parque Estadual da Ilha Grande. "À princípio, as pessoas reclamam, mas depois que a gente explica o por que disso, elas entendem e até nos ajudam", diz Tercius, que hoje conta com a valiosa ajuda de voluntários para livrar as praias do Leste e do Sul do maior problema ambiental que ambas enfrentam: o lixo que chega pelo mar em quantidades cada vez maiores,

"Só esta semana, retiramos 150 sacos de lixo com resíduos que foram dar nas duas praias", diz Tercius. "Tinha de tudo: sacos plásticos, garrafas pets, mas sobretudo cotonetes – milhares de cotonetes usados, que são ainda mais perigosos para a fauna marinha do que os canudinhos, porque são menores e mais fáceis de serem engolidos", explica.

Para ajudar na tarefa de recolher tamanha quantidade de lixo trazido pelo mar, ali, no entanto, sempre verde ou azul, Tercius bolou uma estratégia, já que seria um absurdo colocar um trator dentro de uma Reserva Ecológica: passou a dar permissão de travessia pelas praias do Leste e do Sul para os caminhantes que optam por dar volta na Ilha Grande a pé, mas com a condição de eles retribuírem a gentileza coletando o lixo pelo caminho, como um trabalho de formiguinhas.

Os candidatos precisam pedir autorização ao Inea através de email e comprovar a coleta de lixo através de vídeos ou fotos. "Eles ´pagam´ a travessia com lixo", brinca Tercius, que, no entanto, explica que nem todos que pedem a autorização a conseguem, porque o número de pessoas na praia é limitado e até os antecedentes ambientais dos candidatos são checados. O prêmio para os selecionados, no entanto, é poder pisar nas areias das duas praias mais fechadas – e preservadas – do litoral fluminense, algo que pouquíssimas pessoas até hoje já fizeram.

Isoladas na parte de acesso mais difícil da Ilha Grande, as lindas praias de Leste e de Sul, de certa forma, sempre foram inacessíveis. No passado, antes de virarem Reserva Biológica, chegaram a ser interditadas pelos militares por conta de um fato que, até hoje, gera histórias e polêmica entre os moradores mais velhos da ilha: o pouso forçado de um avião comercial na Praia do Sul, em 1958, que transportava ouro (segundo alguns) ou material radioativo (segundo outros), num episódio jamais devidamente esclarecido, que pode ser conferido clicando aqui.

 

Fotos: Mozart Latorre e INEA

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.