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“Eles queriam nos matar”. Como foi o ataque do barco chinês ao brasileiro

Jorge de Souza

27/11/2018 10h28

Everton Padilha, dono do barco de pesca Oceano Pesca I, está indignado. Na manhã da última quinta-feira a embarcação foi perseguida e abalroada por um grande pesqueiro chinês, a cerca de 600 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, gerando momentos de horror nos dez pescadores que estavam a bordo.

"A vida dos meus pescadores foi seriamente ameaçada e nós não podemos fazer nada", diz Everton, inconformado com a situação. "Como o fato aconteceu fora dos limites do mar territorial brasileiro, as autoridades brasileiras dizem que nada podem fazer contra o barco chinês, que, propositalmente, tentou afundar o nosso barco, só porque estávamos pescando o atum que eles queriam", diz. "Se isso tivesse acontecido, nossos dez pescadores teriam morrido e, mesmo assim, a Marinha do Brasil diz que nada pode fazer, a não ser instalar um inquérito.

"É como se o alto-mar fosse uma terra sem lei, onde qualquer um pode fazer o que quiser. Inclusive tentar matar pessoas impunemente", revolta-se o empresário.

"Sei que a Marinha Brasileira não tem jurisdição em águas internacionais, mas eram brasileiros que estavam a bordo, e eles só não morreram porque conseguiram escapar do ataque do barco chinês, que bateu de propósito no nosso. Será que ninguém liga para os cidadãos brasileiros quando eles estão fora do território brasileiro?", questiona Everton.

O caso aconteceu na manhã do último dia 22, a cerca de 200 quilômetros da Ilha de Fernando de Noronha, já fora dos limites do mar territorial brasileiro. Quando pescava atuns, especialidade do barco do Rio Grande do Norte, o mestre do Oceano Pesca I, João Batista dos Santos, detectou, pelo radar, o barco chinês Chang Rong 4 vindo na sua direção a toda velocidade. E ficou monitorando.

Quando o barco chinês surgiu no horizonte e não demonstrou nenhuma intenção de desviar, ele fez contato pelo rádio e ouviu como resposta, em português, apenas as palavras "Afundar! Afundar!". João Batista, então, alertou os companheiros e pôs rapidamente o Oceano Pesca I em movimento, tentando evitar a colisão – que, mesmo assim, aconteceu.

A colisão só não provocou o naufrágio do barco brasileiro – e a previsível morte dos pescadores – porque ele já estava em movimento, o que atenuou a intensidade da pancada, e porque pegou o casco lateralmente e não no meio, como, aparentemente, era o intuito dos chineses. Em seguida, João Batista tentou escapar, dando voltas em torno do barco chinês, que, por ser bem maior, não tinha tanta agilidade. A tripulação chinesa reagiu, atirando parafusos e pedaços de ferro na direção dos brasileiros, que mudaram de estratégia e passaram a fugir, fazendo seguidas curvas para os dois lados, mas com os chineses sempre no encalço.

Apavorados, alguns pescadores chegaram a ajoelhar no convés para pedir que os chineses os deixassem em paz, mas a perseguição no mar durou 45 minutos de puro terror. Até que o barco chinês, finalmente, foi embora. E os potiguares, assustados e com o barco danificado, tomaram o rumo de volta à costa brasileira. "A gente pensou que ia mesmo morrer", disse, ao desembarcar em Natal, na madrugada do último domingo, o primeiro imediato do barco atacado, o pescador potiguar Carlos Derlano. "Eles queriam nos matar".

"Não foi a primeira vez que barcos estrangeiros tentaram intimidar nossos pescadores em alto-mar, mas foi a primeira vez que chegaram às vias de fato", diz Everton, que garante que o barco dos brasileiros só não foi a pique porque é novo, de aço e revestido com uma camada de poliuretano que serve como isolante térmico para manter os peixes frescos. "Não fosse isso, ele teria afundado, a tripulação estaria morta e ninguém jamais saberia o que aconteceu", diz o indignado empresário, que também lamenta não ter nenhum tipo de prova do ataque, a não ser o testemunho dos pescadores e os amassados no casco do barco. "No meio daquela tensão toda, nenhum dos dez tripulantes do nosso barco lembrou de filmar a perseguição, o que é compreensível. Mas, sem uma prova concreta, nós praticamente nada podemos fazer. É revoltante. E frustrante".

Por trás desse episódio que poderia ter terminado em tragédia, está uma guerra de verdade: a Guerra do Atum, uma intensa – e tensa – competição entre barcos pesqueiros do mundo inteiro em busca dos grandes cardumes de atuns, peixe que, por isso mesmo, já está correndo sérios riscos de extinção. "Na nossa parte do Atlântico, há sempre muitos barcos chineses, japoneses e tailandeses pescando atum, embora, pelas regras, a prioridade seja dos brasileiros, porque o Brasil é um país costeiro", explica Everton. "Mas ninguém respeita isso, muito pelo contrário, como prova o que acaba de acontecer com o nosso barco. Como os barcos estrangeiros são maiores que os nossos, eles chegam intimidando e, agora, também atacando".

Não é, no entanto, a primeira vez que a pesca serve de estopim para momentos bem tensos no mar brasileiro. Na década de 1960, a pesca da lagosta, também no litoral do Nordeste, gerou uma seríssima crise diplomática entre o Brasil e a França, que quase culminou em ações bélicas entre os dois países, com a participação até de navios e aviões de combate – sem, felizmente, nenhum disparo. O episódio ficou conhecido como a "Guerra da Lagosta" e pode ser conferido clicando aqui.

Fotos: Arquivo Pessoal Everton Padilha

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.