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Descer cachoeiras em caiaque? O esporte pra lá de radical de um brasileiro

Jorge de Souza

14/11/2018 09h56

O catarinense Marcelo Galizio, 31, tem uma paixão que para todo mundo seria um pesadelo: descer (melhor dizendo, despencar) do alto de grandes cachoeiras com um caiaque.

Loucura? Não, esporte: a mais técnica e radical categoria da canoagem mundial, da qual ele é o mais ativo representante brasileiro.

"Adoro este esporte", diz Marcelo, que hoje vive e treina nos Estados Unidos, para aperfeiçoar a habilidade que tem em lidar com serenidade em situações extremas — tão extremas que o nome desta modalidade da canoagem é justamente "Caiaque Extremo". E basta ver este vídeo para saber por quê.

"Já perdi as contas de quantas vezes me chamaram de maluco", brinca Marcelo, que, no entanto, tem patrocinadores, treina com afinco e leva o esporte muito a sério. "Loucura seria descer uma cachoeira dessas sem saber como se faz isso", diz.

"Como todo esporte levado ao máximo possível, o Caiaque Extremo embute algum risco, sobretudo se for encarado sem planejamento, o que nunca foi o meu caso", explica. "Antes de entrar numa corredeira e deslizar até a cachoeira, eu passo muito tempo observando a fluidez da água e traçando uma estratégia, porque isso é que irá determinar os movimentos com o remo, a posição do corpo e a diferença entre o sucesso e o susto na queda", diz Marcelo, que pratica este tipo de esporte há 11 anos e nunca sofreu um acidente mais sério.

Medo? Ele diz que tem, mas vê aspectos positivos nisso. "O medo me ajuda a concentrar ainda mais e a analisar meticulosamente todos os riscos envolvidos. Durante uma queda livre, meu cérebro processa as informações com uma rapidez incrível. Milhares de coisas são processadas ao mesmo tempo. É como se tudo acontecesse em câmera lenta. Uma experiência que mostra bem o potencial da mente humana".

Apesar de reconhecer os riscos, Marcelo jamais pensou em mudar de atividade. "Todos os dias, milhares de pessoas morrem em acidentes de automóvel mas nem por isso deixamos de andar de carro, certo?".

A maior cachoeira descida por Marcelo até hoje fica no município de Jaciara, no Mato Grosso, com 32m de altura – o mesmo que um prédio de 11 andares em queda livre. Mas ele diz que não existe relação direta entre altura e risco. "Depende muito mais do comportamento da água e da presença de pedras no fundo", explica.

"Se a abordagem da cachoeira acontecer com a estratégia e a remada certa, ou o caiaque mergulha de bico e sobe em seguida, porque ele é uma grande boia, ou plaina no ar e aterrissa sem nenhum problema", garante Marcelo, que completa: "Técnica é tudo neste esporte".

Mesmo assim, quem vê um praticante de Caiaque Extremo despencando do alto de uma grande cachoeira sempre se arrepia. E inevitavelmente lembra de outras ousadias, como os saltadores de penhascos de Acapulco ou os aventureiros que se lançavam dentro de barris de madeira nas Cataratas de Niágara, o que, embora proibido, acabou fazendo parte da história de uma das mais famosas cachoeiras do mundo, com consequências nem sempre felizes, como pode ser conferido clicando aqui.

Fotos: Arquivo Pessoal Marcelo Galízio

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.