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O ex-executivo que virou observador de baleias ensina como achá-las no mar

Jorge de Souza

04/11/2018 04h00

Quinze anos atrás, em 2002, um encontro inesperado mudou radicalmente a relação do então executivo paulista Julio Cardoso com o mar. Naquele dia, enquanto pescava nas imediações de Ilhabela, no litoral Norte de São Paulo, duas baleias emergiram bem ao lado do seu barco, botaram as cabeças fora d'água e ficaram olhando fixamente para ele.

Julio ficou tão impressionado com aquela cena que nunca mais quis pescar. Trocou as varas pelas lentes fotográficas e tornou-se o mais ativo observador de baleias do litoral paulista. "De lá para cá, sempre levo uma câmera fotográfica no barco", diz Julio, hoje aposentado, que passou a se dedicar em tempo quase integral a esta peculiar atividade – que ele, no entanto, transformou em algo bem maior do que um simples passatempo.

Juntamente com a bióloga e fotógrafa Arlaine Francisco, Julio criou uma entidade, o Projeto Baleia à Vista (www.projetobaleiaavista.com.br) que se dedica a registrar, com dados, informações e, sobretudo, fotos, as baleias que visitam as águas do litoral Norte de São Paulo. "Nunca foram tantas quanto nos últimos tempos, sinal inequívoco de que a população de baleias está realmente aumentando rapidamente", comemora Julio, que na última temporada de baleias da espécie jubarte em águas brasileiras, que acabou em setembro, registrou um novo recorde de avistagens no litoral paulista.

"Chegamos a documentar 12 baleias num só dia e numa só região, na ponta Sul de Ilhabela, um dos pontos prediletos das jubartes nas águas do litoral de São Paulo", vibra o ex-executivo, que banca do próprio bolso tanto o projeto quanto os custos das frequentes saídas de barco que faz, em busca das baleias. "As fotos e informações das baleias que encontramos são repassadas tanto ao Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo quanto ao Projeto Jubarte, que fica na Bahia, para o rastreamento da rota que elas fazem no litoral brasileiro, explica Julio, que não ganha um centavo na atividade. "Só gasto", diz, brincando.

Na última temporada das baleias jubartes (que todos os anos migram da Antártica para o litoral brasileiro em busca de águas mais quentes), uma fêmea registrada pelas lentes de Julio perto de Ilhabela foi documentada, 33 dias depois, no arquipélago de Abrolhos, no litoral Sul da Bahia, a mais de 1.000 quilômetros de distância, pelos membros do Projeto Jubarte. "Isso permitiu saber a velocidade de deslocamento de um dos maiores seres do planeta", vibra Julio, com a contribuição voluntária que faz para os pesquisadores.

"Agora que as jubartes se foram, está começando a melhor época para ver outro tipo de baleia bem frequente no litoral de São Paulo", avisa. "São as baleias-de-bryde, que aparecem bem perto das praias na primavera e no verão, porque seguem os cardumes de manjubas e sardinhas", diz o entusiasta. "Mas elas são tímidas e nem sempre permitem serem vistas. Um bom truque é ficar atento às aves marinhas, que também perseguem os cardumes. Onde houver muitas aves voando em círculos sobre o mar, há grande chance de haver, também, baleias-de-bryde na água", ensina.

A paixão que Julio desenvolveu pelas baleias e pelo prazer de monitorá-las o levou a também criar um pequeno manual para quem quiser vê-las bem de perto no mar. Nele, entre outras coisas, Julio ensina como se aproximar de uma baleia sem molestá-la nem se colocar em risco. "A aproximação do barco tem que ser bem lenta e em paralelo ao animal, jamais de encontro a ele", ensina. "Baleias são seres dóceis, mas com uma força descomunal. Uma simples batida no casco pode virar um acidente fatal para quem estiver no barco", explica, citando alguns exemplos de encontros desse tipo que não terminaram bem.

Um dos casos mais famosos aconteceu 45 anos atrás e deixou um casal de ingleses à deriva no oceano Pacífico durante quase quatro meses, depois que uma grande baleia enfurecida bateu e afundou o barco deles, num episódio que, pela incrível semelhança com a lenda de Moby Dyck, rendeu até um livro. E cuja impressionante história pode ser conferida clicando aqui.

Fotos: Projeto Baleia à Vista

 

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.