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Eles trocaram a casa por um barco e hoje vivem (e até trabalham) nele

Jorge de Souza

2003-09-20T18:12:23

03/09/2018 12h23

 

Quatro anos atrás, o gaúcho Adriano Plotzki, de 38 anos, foi passar um fim de semana com a mulher, a paulista Aline Sena, na Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro, quando viu uma cena que mudaria sua vida para sempre.

Ao nadar entre os barcos ancorados numa das praias, ele viu uma família fazendo churrasco a bordo de um veleiro, algo que nunca havia passado pela cabeça daquele gaúcho de Bagé, até então um pacato dono de uma produtora de vídeos em São Paulo e com uma vida estável e confortável.

"Fazer churrasco num barco e numa paisagem daquelas. Era isso que eu queria para a minha vida", lembra Adriano, que, na mesma semana, tratou de se matricular em uma escola de vela, na represa de Guarapiranga. "Eu nem sabia velejar, mas, desde então, viver a bordo de um veleiro passou a ser o meu objetivo de vida. E também da Aline, que aprendeu junto", recorda.

Hoje, depois de passarem dois anos se adaptando gradualmente a vida no mar, alternando períodos entre São Paulo e Paraty, os dois já moram exclusivamente num barco, o veleiro Balanço, de pouco mais de 11 metros de comprimento, que compraram, usado, por cerca de 120 mil reais, depois de venderem os dois carros e todos os móveis que possuíam na casa alugada onde viviam.

"Nossa maior surpresa foi descobrir que ter um pequeno veleiro e viver dentro dele custa muito menos do que as pessoas imaginam", conta Adriano, que agora, junto com a mulher, se prepara para o início, de fato, de uma nova vida: o casal vai navegar por toda a costa brasileira, "o mais lentamente possível e parando onde der vontade, pelo tempo que a gente quiser", numa viagem que não tem roteiro nem data para terminar.

"Não é bem uma viagem" corrige Adriano. "É o início de um novo tipo de vida, onde o que realmente importa é viver a vida, ainda que com muita simplicidade e pouquíssimas despesas", diz Adriano, que desde que decidiu trocar a confortável casa de 400 metros quadrados onde o casal morava, num condomínio em São Paulo, por um barquinho de quarto, sala, cozinha, banheiro e mais nada, trocou, também, de trabalho.

Ele fechou a produtora de vídeos que tinha e, junto com a mulher, que também largou o trabalho de produção numa emissora de televisão, criou um canal no Youtube, chamado Hashtag Sal (#Sal), dedicado exclusivamente às pessoas que, assim como eles, renunciaram à agitação da vida urbana para ir viver num barco. "Hoje, nossa casa é pequena, mas quando enjoamos da paisagem ou dos vizinhos é só levá-la para outro lugar", brinca, feliz da vida com a nova vida que o casal escolheu para viver. "Nosso endereço não tem mais CEP", brinca.

Para se manter, o casal vive com o dinheiro que recebe através de um site de vaquinha virtual na internet, sistema conhecido como crowdfunding. "Temos mais de 450 colaboradores, que fazem contribuições para que a nossa websérie sobre a vida a bordo de um barco não pare", explica Adriano, que, por conta disso, junto com Aline, nunca para de trabalhar – mas de dentro do próprio barco.

"Estamos sempre gravando ou editando os vídeos que fazemos, o que consome um bom tempo", diz ele. "Mas preferimos fazer isso quando o tempo está feio ou chovendo, porque, se o dia estiver bonito, vale mais a pena aproveitar a vida do que ganhar dinheiro", raciocina. "Hoje, nosso maior valor não é possuir bens, mas ter tempo para viver a vida", completa o casal, que, para isso, teve que desapegar de tudo o que tinham. "Mas a gente logo percebeu que tinha muito mais do que precisava para viver e é justamente isso o que estamos praticando agora".

Neste momento, o casal está no sul do Rio Grande do Sul, se preparando para iniciar uma preguiçosa subida pela costa brasileira com seu barco/casa. "No mês que vem queremos estar em Santa Catarina, mas, dali em diante, não temos mais planos, exceto continuar vivendo e trabalhando no próprio barco", diz Adriano, cuja fulminante paixão pela vida a bordo lembra bastante a de um casal de ingleses, que, em 1998, partiu com seu pequeno barco para uma curta viagem de férias, mas gostou tanto da experiência de viver num barco que só retornou 16 anos depois. E que pode ser conferida clicando aqui.

"Não estamos preocupados sobre quanto tempo isso irá durar, mas sim em viver bem até lá", completa o casal.

 

Fotos Arquivo Pessoal

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.