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O incrível barquinho de brinquedo que atravessou o Atlântico inteiro

Jorge de Souza

25/08/2018 09h28

 

No final do ano passado, um navio norueguês depositou no litoral da Mauritânia, na costa africana, um singelo barquinho de plástico.

O objetivo? Atender a um pedido de dois garotos escoceses, os irmãos Harry e Ollie Ferguson, de seis e oito anos respectivamente, que queriam ver se barquinho deles, um pequeno navio pirata, montado com pecinhas plásticas de Playmobil e pouca coisa maior do que um caixa de sapatos, conseguiria atravessar, sozinho, o Atlântico.

Pouco mais de três meses depois, o barquinho dos dois garotos foi dar, intacto, na costa da Guiana, quase vizinha ao Brasil, mas a quase 5 000 quilômetros de distância do ponto de onde havia "partido", do outro lado do oceano.

E, neste momento, segue "navegando" na direção do Caribe, numa interessantíssima viagem que não tem destino nem data para terminar.

"Só pedimos que, se alguém encontrar o barquinho no mar, o coloque de volta na água, para seguir navegando", diz o pai dos garotos, o escocês MacNeill Ferguson, que junto com a esposa teve a ideia, quatro anos atrás, de criar 500 aventuras para os filhos experimentarem antes de completarem 18 anos.

O barquinho, sintomaticamente batizado de "Adventure", é apenas uma destas 500 aventuras que eles vêm realizando. Mas ganhou notoriedade mundial depois do sucesso da primeira "travessia" que o barquinho fez, no ano passado.

Após ter sido colocado no mar pelos garotos, numa praia de Aberdeenshire, no litoral da Escócia, em abril de 2017, o barquinho "navegou" sem nenhum problema pelos mares do Atlântico Norte, sendo avistado, nos meses seguintes, em águas da Dinamarca, Suécia e Noruega.

Neste último país, a pedido dos garotos, o barquinho foi resgatado e colocado em um navio, para ser transportado até a África, onde começaria o desafio seguinte: ver se ele conseguiria cruzar o Atlântico de um lado ao outro, ao sabor apenas dos ventos e correntes marítimas.

E não é que o barquinho não só atravessou o oceano como, agora, ruma para o Caribe?

Mas desde maio os meninos perderam contato com o barquinho, que além de ter um contrapeso, para ficar sempre na posição correta, e um revestimento interno de espuma, para não afundar, carrega um GPS e pode ser rastreado através do site www.track-adventure.squarespace.com.

Como ele é praticamente insubmergível, embora não imune a colisões ou a ser atirado contra pedras de alguma ilha, o mais provável é que barquinho dos garotos escoceses tenha ficado sem bateria para alimentar o GPS. Neste caso, ele ainda estaria navegando, mas agora sem nenhum rastreamento. Os últimos sinais do "Adventure" foram colhidos nas proximidades da ilha de Barbados, no Caribe.

Dentro dele, há também um bilhete, escrito pelos próprios garotos, pedindo a quem eventualmente encontrar o barquinho que faça contato, registre o local e o devolva ao mar, para "seguir viagem".

"Queríamos que os meninos aprendessem sobre as correntes marítimas de uma maneira prática e divertida. Daí, tivemos a ideia do barquinho, que é bem mais adequado a idade deles do que uma simples garrafa", diz o pai dos meninos, numa referência a mais antiga forma de comunicação no mar que se tem notícia, as garrafas com mensagens dentro.

Mas o curioso é que, mesmo em tempos de internet, satélites e globalização total do planeta, vira e mexe as velhas garrafas com mensagens ainda surgem nas praias de todo o planeta, instigando a imaginação tanto de que as lança quanto as encontra, e unindo pessoas que jamais se conheceram, feito um primitivo ancestral do Facebook.

Como pode ser conferido em algumas histórias de garrafas com mensagens dentro tão extraordinária quanto a saga do barquinho dos meninos, que podem ser lidas clicando aqui.

 

Fotos: Divulgação Track Our Adventure

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.