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Destino do navio símbolo do Brasil na Antártica deve ser o fundo do mar

Jorge de Souza

15/08/2018 11h25

Desde que foi "aposentado", anos atrás, o destino do ex-navio de pesquisas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, Professor W. Besnard, considerado uma espécie de símbolo da antiga presença brasileira na Antártica, para onde viajou algumas vezes, levando e trazendo pesquisadores, se tornou uma autêntica novela.

Tecnicamente ultrapassado e já sem condições de navegar (sobretudo depois de um princípio de incêndio, no Rio de Janeiro, dez anos atrás), o lendário navio foi colocado numa vaga do porto de Santos, até que fosse decidido o que fazer com ele.


Mas, dois anos já se passaram e o velho navio continua no mesmo lugar, deteriorando cada vez mais e gerando despesas mensais de 50 000 reais que ninguém quer pagar.

Agora, no entanto, o porto de Santos está pressionando para que o navio saia de lá, o que deve fazer com que os envolvidos tomem uma decisão definitiva sobre o futuro do histórico navio.

As opções são: transformá-lo numa espécie de museu flutuante, desmontá-lo para virar sucata ou apenas afundá-lo para virar atração para mergulhadores, em Ilhabela – esta, ao que tudo indica, a hipótese mais provável.

Dois anos atrás, atendendo a um pedido do então prefeito de Ilhabela, Antonio Colucci, o navio foi doado para virar atração submarina na ilha, que é um dos principais destinos de turismo subaquático do país.

Mas a doação implicava em assumir os custos de manutenção do navio no porto de Santos até que ele fosse tirado de lá, bem como todas as despesas de transporte e preparação do navio para a operação de naufrágio controlado, que inclui complexos aspectos técnicos e ambientais, hoje estimados em cerca de 1,8 milhão de reais.

E foi aí que começaram os problemas. Sem contar o fato de que, em seguida, a prefeitura de Ilhabela mudou de comando e o abacaxi sobrou para o atual prefeito, Marcio Tenório, que, no entanto, também é favorável ao naufrágio do famoso navio nas águas da ilha. E não só ele.

Uma audiência pública em Ilhabela no início do ano passado mostrou que a maior parte dos ouvidos era favorável a proposta de transformar o naufrágio do navio em atração turística submarina, embora uma parte preferisse que ele fosse poupado e transformado em museu flutuante na própria ilha.

Mas o problema é que os custos para isso seriam ainda maiores. Na época, uma fundação privada até se propôs a tentar viabilizar a transformação do navio em museu, mas isso também não foi adiante.

Agora, com a pressão do porto de Santos pela retirada do navio dos seus domínios, alguma decisão terá que ser tomada. E as ações já começaram.

Na semana passada, o prefeito da ilha passou a questão do navio para o secretário de turismo de Ilhabela, Ricardo Fazzini, que promete fazer a coisa, finalmente, caminhar – seja para que lado for. "Assim como a maioria dos moradores da ilha, também sou favorável ao naufrágio, porque os mergulhadores são uma parcela considerável dos visitantes de Ilhabela", diz Fazzini.


"Mas é preciso ouvir também as comunidades da ilha que ficam mais próximas dos possíveis locais onde o navio seria afundado, porque o naufrágio e o movimento que ele gerará depois nessas comunidades impactará diretamente aquelas pessoas, ainda que de maneira positiva", diz o secretário.

E ele explica por que. "Barcos afundados viram áreas de alimentação para a vida marinha e isso é bom para os pescadores nativos. E naufrágios viram pontos de turismo subaquático, o que atrai visitantes para àquelas comunidades, que vivem isoladas".

Por enquanto, Fazzini prevê três possíveis áreas para o naufrágio do Professor W. Besnard, que, segundo ele, poderia acontecer em menos de um ano, "se todas as questões financeiras e ambientais forem resolvidas": nas proximidades da Praia da Serraria, no lado de mar aberto da ilha, entre as ilhas Sumítica e Vitória, vizinhas a Ilhabela, e na região da Ponta da Sela, na parte sul do canal de São Sebastião, onde, no entanto, por conta das correntezas, a visibilidade debaixo d´água não costuma ser das melhores, o que poderia frustrar os mergulhadores.

"Além disso, a permanente movimentação das correntes na Ponta da Sela tende a comprometer a durabilidade do navio debaixo d´água e seria uma pena que ele virasse destroços em pouco tempo", diz Fazzini, que, por isso, prefere um dos dois outros locais para o naufrágio programado.

Afundar um navio tão famoso pode, a princípio, parecer um desatino. Mas é melhor do que apenas transformá-lo em sucata para ferro-velho, embora virar museu talvez fosse mais adequado a um navio com tamanha relevância e história.

A questão do custo e viabilidade técnica, no entanto, deve ser decisiva. Por isso, o destino do Professor W. Besnard deve mesmo ser o fundo do mar, para onde, por sinal, ele quase foi, de maneira acidental, 30 anos atrás, durante o mais perigoso episódio da história deste lendário navio nas geladas águas da Antártica, que pode ser conferido clicando aqui.

Fotos: IOUSP e Divulgação Ilhabela

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.