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Quatro anos depois: os quatro argentinos que sumiram com barco e tudo

Jorge de Souza

31/07/2018 08h32

Exatos quatro anos atrás, em agosto de 2014, uma notícia sensibilizou brasileiros e argentinos: o veleiro de bandeira argentina Tunante II estava à deriva, em alto-mar, a mais de 300 quilômetros da costa do Rio Grande do Sul, depois de capotar e perder todas as condições de navegar, durante a pior tempestade que assolou a região naquele ano – um violento ciclone extratropical, que tornou a navegação entre o Brasil e a Argentina uma espécie de inferno líquido.

E o problema é que, a bordo do barco, que vinha de Buenos Aires para o Rio de Janeiro em um simples cruzeiro de férias, estavam quatro argentinos: os médicos Jorge Benozzi, dono e comandante do veleiro, um oftalmologista reconhecido mundialmente por ter sido o criador de um tratamento revolucionário para a presbiopia, e Alejandro Vernero, mais os amigos Horacio Morales e Mauro Cappuccio, este genro de Benozzi e o mais jovem do grupo, com 35 anos.

 

Nunca mais nenhum deles foi visto. Tampouco o barco, que desapareceu por completo em meio a ondas que passavam dos dez metros de altura e ventos que, durante dias seguidos, uivaram furiosamente a mais de 120 km/h.

Teria sido apenas mais triste lápide na história do sempre temeroso mar que banha o litoral do Rio Grande do Sul não fosse as dimensões que o fato tomou, depois que as famílias dos quatro velejadores se recusaram a aceitar a morte do grupo, decretada pelas Marinhas do Brasil e da Argentina após intensas buscas, e passaram a usar a internet para pesquisar, eles próprios, com a ajuda de um batalhão de voluntários, a imensidão do mar.

A busca pelo Tunante II, que na ocasião ganhou até site próprio na internet, emocionantes campanhas nas tevês da Argentina, página no Facebook e uma legião de pessoas vasculhando, dia e noite, diante de seus computadores, uma área de mar aberto do tamanho do Nordeste brasileiro, foi uma das maiores mobilizações da história recente da internet na Argentina.

Mas não mudou em nada o triste destino daqueles quatro argentinos, que desapareceram para sempre, apesar das frenéticas buscas das famílias e dos voluntários em seus computadores, que duraram mais quatro meses.

O drama dos argentinos começou no dia 22 de agosto de 2014, quando eles partiram da Argentina rumo ao Brasil, a despeito dos avisos de que uma forte tempestade se aproximava. Eles logo foram pegos por ela. Cinco dias depois, o grupo fez o último contato com os familiares, avisando sobre os danos no barco e pedindo ajuda. Mas já era tarde demais (clique aqui para ler a história completa desta tragédia).

O único vestígio encontrado foi uma balsa salva-vidas murcha, achada por um pescador brasileiro dois meses depois, com o documento de um dos argentinos dentro dela. Mas nem isso fez os familiares se convencerem da morte do grupo. E eles seguiram procurando.

Hoje, quatro anos depois, as famílias dos quatro argentinos engolidos pelo oceano evitam tocar no assunto. "Depois de enfrentar o pior período de nossas vidas, só queremos dizer que o desaparecimento deles nos permitiu descobrir que ainda há solidariedade, bondade e amor das pessoas com os outros", disse Giovanna Benozzi, filha do médico comandante Jorge Benozzi e esposa do também tripulante Mauro Cappuccio, que perdeu pai e marido no episódio, sobre a comoção que o caso causou na Argentina.

Foi maior até que a mobilização dos familiares dos ocupantes do submarino argentino ARA San Juan, que, em novembro do ano passado, também desapareceu no mar sem deixar nenhum vestígio, e do qual, até hoje, não se tem nenhuma pista do seu túmulo submarino.

No mês passado, outro caso semelhante (o sumiço temporário de três argentinos quando regressavam do Brasil com um velho veleiro com mais de 80 anos de uso) trouxe de volta aos portenhos o fantasma dos desaparecimentos no mar. Mas, felizmente, naquele caso, foi apenas um problema no barco que os fez ficarem tanto tempo sem dar notícias – mas a Marinha do Brasil já tinha começado as buscas.

Em questões de tragédias marítimas cercadas de enigmas e mistérios, a Argentina detém um quase triste recorde.

 

 

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos, ex-editor da revista “Náutica”, criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”, e autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Recentemente, lançou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.