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Histórias do Mar

Inquérito conclui que navio com 4.200 carros novos tombou por falha humana

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Jorge de Souza

15/09/2021 14h30

Dois anos após tombar na saída do porto de Brunswick, no estado americano da Georgia, na madrugada de 8 de setembro de 2019, com preciosos 4 200 automóveis zero quilômetro a bordo, e um ano e meio depois do início dos conturbados trabalhos visando a sua remoção do local, finalmente foram divulgadas as causas do acidente que levaram o navio coreano MV Golden Ray, especializado no transporte de veículos, a protagonizar o acidente marítimo mais famoso dos Estados Unidos, nos últimos dois anos.

Segundo especialistas do Comitê Nacional Americano de Segurança no Transporte (National Transportation Safety Board – NTSB), responsável pelo inquérito que apurou o caso, a causa do bizarro acidente foi a combinação de "cálculo incorreto da estabilidade do navio", gerado pela má distribuição da carga, após ele ter desembarcado 200 automóveis naquele porto, "com o esquecimento de duas portas estanques abertas no interior do casco", o que permitiu que o navio inundasse e tombasse de vez, após inclinar por causa do peso mal distribuído dos automóveis que restaram no navio – todos irremediavelmente perdidos.

Duas falhas, em vez de uma

De acordo com a conclusão do inquérito, divulgada ontem nos Estados Unidos, "o chefe de operação do navio calculou erradamente a quantidade de água que deveria ser embarcada para servir de lastro e gerar estabilidade no casco, após desembarcar parte dos automóveis naquele porto, e não houve a dupla checagem desses dados por outro tripulante, a fim de garantir a segurança da operação".

Segundo a entidade, pior até do que a falta de estabilidade do navio, foi outra falha da tripulação: o esquecimento de duas portas estanques deixadas abertas no interior do casco, quando o MV Golden Ray partiu do porto.

Elas permitiram que, ao inclinar e embarcar uma pequena quantidade de água, o navio inundasse completamente e não mais conseguisse retornar à posição normal, o que poderia ter acontecido se os compartimentos estivessem fechados, como mandam os regulamentos.

Esqueceram de fechar a porta

Segundo a NTSB informou, e a rede CNN divulgou, "as duas portas estanques foram deixadas abertas por quase duas horas quando o navio ainda estava no porto. Mas, ao partir, ninguém tratou de fechá-las".

Felizmente, porém, ninguém se feriu no acidente, embora quatro tripulantes tenham ficado presos no interior da casa de máquinas do navio até o dia seguinte, quando as equipes de resgate abriram um buraco no casco para removê-los.

Carros valiam R$ 800 milhões

Como quase sempre acontece em casos de grandes acidentes, não houve apenas um motivo para o tombamento do navio, e sim a perversa combinação de duas falhas – ambas humanas: a má estabilidade causada pela falta de lastro e a não obediência aos padrões de segurança dos compartimentos estanques, que devem sempre estar fechados quando a embarcação estiver em movimento.

Combinadas, estas duas falhas geraram um extraordinário prejuízo, estimado em cerca de R$ 1,1 bilhão – a maior parte dele, cerca de R$ 800 milhões, referente aos 4 200 automóveis zero quilômetro, das marcas Hyundai e Kia, que estavam dentro do navio e foram destruídos, durante a complexa operação de remoção do navio, que já dura um ano e meio e foi feita da maneira mais incrível possível: fatiando o navio em pedaços, com os carros ainda dentro dele, para que possa ser removido.

Desde que começou, a operação virou notícia no mundo inteiro e gerou indignação e perplexidade nas pessoas: por que não remover os carros antes de picotar o navio?

A resposta é simples: não era possível fazer isso, porque o navio ficou completamente deitado no mar.

Picotaram o navio

Para fatiar o navio em oito pedaços (os dois últimos deles cortados na semana passada), foi usada uma colossal estrutura em forma de arco, feito uma gigantesca motoserra, que moveu poderosas correntes de aço, para cima e para baixo, para que o atrito cortasse o casco do MV Golden Ray, de quase 200 metros de comprimento e altura de um prédio de sete andares.

A operação deu certo, mas custou um ano e meio de trabalho (o que aumentou ainda mais o prejuízo dos donos do navio, que terão que pagar pelo serviço) e teve uma série de imprevistos, que incluíram vazamentos de óleo no mar e constantes incêndios causados pelo atrito das correntes com o aço do casco.

No começo, ainda havia a esperança de conseguir resgatar um ou outro automóvel de dentro do navio inundado. Mas logo ficou claro que isso seria impossível.

E os veículos acabaram sendo picotados junto com o navio – uma cena que, embora chocante, já era prevista pela equipe que fez o serviço.

Outro caso, pior ainda

Apesar da tentadora carga que havia nos porões do navio coreano – e o triste fim que ela teve -, não foi a primeira vez que um navio carregado de automóveis zero quilômetro foi vencido pelo mar e todos os carros perdidos.

Trinta e três anos atrás, em 1988, o encalhe e perda total do navio japonês Reijin, na praia da Madalena, no litoral norte de Portugal, abarrotado com 5 000 automóveis da marca Toyota, mais até do que a quantidade de carros que havia no MV Golden Ray, transformou o local em local de peregrinação dos portugueses, que tinham esperança de conseguir extrair algum veículo do navio sinistrado (clique aqui para conhecer esta história, que acabou de maneira ainda mais dramática, com o navio sendo propositalmente afundado).

Para os portugueses, tal qual os moradores da região onde o MV Golden Ray encalhou e teve que ser destruído, o sonho de conseguir um carro zero quilômetro de graça também morreu na praia.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.