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Histórias do Mar

Mistérios no mar: desaparecimentos em Angra e no Caribe seguem sem solução

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Jorge de Souza

11/09/2021 04h00

Seis meses após desaparecer misteriosamente do barco no qual morava com o namorado, o destino da velejadora inglesa Sarm Heslop permanece ignorado.

E, mesmo meio ano depois, a polícia ainda não conseguiu executar o mais óbvio dos procedimentos em casos desse tipo: examinar o interior do barco do qual ela supostamente desapareceu.

O motivo disso é ainda mais bizarro: o principal suspeito, que é o próprio namorado, o americano Ryan Bane, dono do barco, não permite que a polícia entre nele para vistoriá-lo.

E, legalmente, nada pode ser feito para obrigá-lo a isso.

Caso parado há meio ano

O que pareceria ser mais um caso de escancarada omissão policial, tão comum nos países do chamado Terceiro Mundo, está ocorrendo, desde 8 de março deste ano (seis meses completados esta semana), em um dos paraísos do Caribe, as Ilhas Virgens Americanas.

Para desespero dos amigos e familiares da vítima, nada indica que a situação possa mudar, apesar da pressão até do governo da Inglaterra junto à polícia da ilha, já que a investigação não avançou em nada, justamente porque falta o mais básico dos procedimentos: interrogar o namorado e examinar o local onde o suposto desaparecido aconteceu, seis meses atrás – tempo, aliás, mais que suficiente para o principal suspeito já ter se livrado de qualquer evidência a bordo.

Impasse legal

Por trás desta aparente absurda situação (a polícia ser impedida, pelo próprio suspeito, de interrogá-lo e examinar o local) está a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garante a todo cidadão americano, como é o caso de Bane, o direito de permanecer calado, a fim de evitar a autoincriminação, e de exigir da polícia um mandado de busca, expedido por um juiz, antes de examinar uma propriedade privada, caso do barco onde o casal morava.

Até agora, nenhum juiz das Ilhas Virgens Americanas concordou em expedir o documento, sob a alegação de que a polícia deve, primeiro, fornecer elementos que justifiquem a suspeita sobre o namorado e a busca no interior do barco.

Criou-se, então, o impasse: a polícia precisaria examinar o interior do barco para colher evidências que incriminassem o suspeito, mas os juízes dizem que só autorizarão isso se a polícia apresentar evidências do envolvimento dele no caso. Enquanto isso, nada acontece.

Recompensa de R$ 70 mil

Esta semana, ao completar meio ano desde o desaparecimento da inglesa, os amigos de Sarm Heslop, uma ex-comissária aérea, de 41 anos, que vivia com Bane no barco dele desde o final do ano passado, anunciaram na internet uma recompensa equivalente a R$ 70 mil para quem fornecer alguma pista sobre o caso.

Mas, desde março, nada de novo acontece no caso, que segue parado.

O único que poderia fornecer detalhes e ajudar a esclarecer o caso não permite ser interrogado pela polícia, nem ter o seu barco vistoriado segundo o seu advogado, por "não confiar nos policiais e temer que eles 'plantem' provas contra ele a bordo".

"É uma situação cruel demais", disse à TV inglesa BBC a mãe da vítima, Brenda Street. "Há meses que eu me sinto culpada sempre que, por algum motivo, dou um pequeno sorriso. Não é justo não investigarem o que aconteceu com a minha filha. Eu apelo à consciência dos envolvidos. Só eles podem ajudar nisso".

O que se sabe sobre o caso

A inglesa Sarm Heslop está desaparecida desde a madrugada de 8 de março, quando o seu namorado ligou para a Guarda Costeira das Ilhas Virgens dizendo que ela havia desaparecido do barco, um bonito catamarã de 15 metros de comprimento, chamado Siren Song ("Canto da Sereia", em português), então ancorado a menos de 100 metros da praia de Frank Bay, na Ilha de Saint John, uma das Ilhas Virgens Americanas.

Mas, estranhamente, ele só relatou o desaparecimento à polícia por volta da hora do almoço, quase dez horas depois – e após também ter negado o acesso ao interior do barco aos agentes da Guarda Costeira que responderam ao seu chamado.

Por que impedir a entrada no barco e a demora em comunicar o fato à polícia são algumas perguntas ainda sem resposta neste estranho caso.

E justiça da ilha pouco tem feito para ajudar a esclarecê-las.

"Sem um mandato de busca, nós simplesmente não podemos entrar no barco", explicou o porta voz da polícia local.

"Acho que ela caiu no mar"

De acordo com o que Ryan Bane disse à polícia, pelo telefone, no dia em que comunicou o desaparecimento da namorada, o casal havia ido dormir por volta das 22h00, "após sair para jantar em terra firme" e, no meio da madrugada, quando ele acordou, "ela não estava mais a bordo".

"Acho que ela caiu no mar", disse ele às autoridades, aparentemente sem maiores detalhes.

Segundo Bane, todos os pertences da namorada, inclusive o celular e passaporte, continuavam no barco, o que, ao menos a princípio, descartava a hipótese de ela ter fugido.

Por que demorou tanto?

Uma das hipóteses para a demora de Bane em contatar a polícia (quando a Guarda Costeira chegou, ele também não permitiu que os agentes entrassem na cabine do barco) é que ele precisaria de tempo para ocultar eventuais provas, ou se recuperar fisicamente, já que o casal poderia ter consumido drogas na noite anterior, o que, inclusive, poderia explicar uma eventual queda involuntária de Sarm ao mar, durante a madrugada.

Mas, se foi um acidente, por que o namorado demorou tanto para dar o alarme?

"Meu cliente está devastado com o desaparecimento da namorada", diz apenas o advogado de Bane, que continua morando no barco, na mesma ilha, mas, segundo a própria polícia, "está livre para partir, se desejar, porque legalmente não há nenhuma acusação contra ele".

"Isso é ultrajante", diz Brenda Street, que, apesar de tudo, ainda acredita que a filha possa estar viva, seis meses depois.

"Se ela já tivesse partido deste mundo, eu sentiria", garante, desconsolada, a mãe da vítima, querendo demonstrar algum otimismo em algo que ninguém mais acredita.

Enquanto isso, em Angra dos Reis…

O desaparecimento de pessoas no mar é sempre intrigante e angustiante.

E quando o corpo não acontece, dá margem a todo tipo de interpretação.

Nesta sexta-feira, ao mesmo tempo em que familiares de Sarm Heslop seguiam lamentando a falta de iniciativa das autoridades das Ilhas Virgens em investigar com profundidade o sumiço da inglesa, do outro lado do hemisfério, no Rio de Janeiro, a família do carioca Leonardo Machado, que está desaparecido há 20 dias, após ter saído de barco com a ex-companheira Cristiane Nogueira para ver o por-do sol no mar, na Ilha Grande, região de Angra dos Reis, foi avisada que as buscas, tanto do corpo dele (o dela foi encontrado nove dias depois) quanto do barco que ocupavam (que supostamente afundou em local desconhecido) foram suspensas e só serão retomadas "se surgirem novos fatos".

"Ficamos desolados com a notícia do fim das buscas. Agora, não sabemos o que fazer", diz a ex-esposa de Leonardo, mãe de uma de suas duas filhas.

A polícia, no entanto, garante que a investigação sobre o que aconteceu com o casal continua, e que ainda não descartou nenhuma hipótese neste também intrigante caso – nem mesmo de ter havido um crime passional, como pode ser conferido clicando aqui.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.