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Histórias do Mar

Sonar acha navio ainda não identificado partido ao meio no fundo do mar

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Jorge de Souza

25/08/2021 04h00

Divulgação Equinor

Um mês e meio depois que uma pesquisa submarina de rotina em uma área do fundo do mar conhecida como Bacia de Flemish, a cerca de 500 quilômetros da costa da província de Terra Nova, na costa nordeste do Canadá, revelou a existência de um intrigante navio de aço partido ao meio, a 1 200 metros de profundidade, os pesquisadores seguem se perguntando: que navio é aquele?

Até agora, eles não sabem.

Não há nenhum registro de naufrágio de navio de grande porte no local, nem alerta de desaparecimento de embarcação semelhante na região, nas últimas décadas.

E para deixar ainda mais frustrados os pesquisadores de naufrágios, a empresa que fez a descoberta, contratada pela gigante norueguesa do setor de energia Equinor para prospectar novos campos de petróleo naquela área, já avisou que não irá retornar ao local no naufrágio a fim de coletar mais imagens do navio com o seu robô submarino, responsável pelo intrigante achado, no último dia 13 de julho.

Seria fácil identificá-lo

"É uma pena que novas imagens não serão feitas, porque, embora partido ao meio, o navio está inteiro, e seria fácil identificá-lo", diz o presidente da Associação de Preservação de Naufrágios da Terra Nova, Neil Burgess.

Cabe a ele, agora, a espinhosa missão de tentar identificar o navio, a partir das duas únicas imagens que o sonar do robô submarino produziu do naufrágio.

Pode ser da Segunda Guerra Mundial

Divulgação Equinor

"Pelo tipo de convés que a foto e a imagem do sonar mostram, tanto pode ser um petroleiro da metade do século passado quanto um navio cargueiro usado nos comboios navais da Segunda Guerra Mundial, que costumavam cruzar da América para a Europa por aquela região do Atlântico Norte", avalia o pesquisador.

"O fato de ele estar partido ao meio, pode ter sido consequência de disparos de torpedos por submarinos alemães, o que era frequente naquele tipo de comboio", arrisca Burgess.

Uma das suspeitas levantadas na Internet por pesquisadores amadores de naufrágios é que o misterioso navio seja o petroleiro americano Atlantic Sun, que foi torpedeado e afundado por um submarino alemão em 17 de fevereiro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, tendo apenas um único sobrevivente.

Mas isso não é certo.

Pessoas teriam morrido?

"Certo mesmo é que era um navio de grande porte, porque só a parte visível na foto, que corresponde a metade do casco, mede 80 metros de comprimento por 20 de largura.

"Não era um barco pequeno e insignificante, o torna a ausência de registros do seu naufrágio ainda mais instigante", diz o pesquisador, que acrescenta:

"É impossível olhar para a imagem do navio partido ao meio no fundo do mar e não ficar imaginando se pessoas morreram no naufrágio e quem seriam elas?", diz Burgess, emocionado.

Para ele, no entanto, é possível que os restos do naufrágio sejam os de um navio já conhecido, mas erroneamente registrado como tendo afundado em outro local.

"Vamos ter que pesquisar isso a fundo", diz.

Achou e foi embora

Após localizar e registrar os restos do navio, a empresa que faz a descoberta apenas avisou a Guarda Costeira do Canadá e os governos das províncias de Labrador e Terra Nova e foi em frente, pesquisar outras áreas.

"Não era o que estávamos procurando", disse o responsável pela empresa de pesquisa, Tom McKeever.

"Mas até nós ficamos excitados com o achado e curiosos em saber que navio era aquele?".

Mesma região do Titanic

Para aumentar ainda mais o suspense, a região onde o naufrágio foi encontrado é famosa por ser uma habitual rota de deslocamento de grandes icebergs no inverno, e não muito distante do local onde afundou o Titanic, após bater em um daqueles colossais blocos de gelo.

"Será que foi também um iceberg que partiu o navio ao meio?", especula o pesquisador.

Uma grande surpresa

A descoberta acidental de naufrágios é bem mais comum do que parece.

"Qualquer pessoa ficaria chocada com a quantidade de navios que afundaram no Atlântico Norte apenas no século passado", atesta Tom McKeever, o primeiro a ver as imagens do navio misterioso feitas pelo robô submarino.

"Nós já tínhamos achado outros naufrágios, mas nenhum desse porte. Foi uma grande surpresa. Mas nosso objetivo era outro e seguimos em frente, após avisar os órgãos competentes".

Em vez do avião, um navio

Também não foi a primeira vez que a descoberta de um enigmático naufrágio alterou os planos de quem o achou.

Wikipedia

Sete anos atrás, quando realizavam buscas pelo avião da Malaysia Airlines, do voo MH 370, misteriosamente desaparecido no Oceano Índico, após se afastar completamente da sua rota – fato que, até hoje, não teve uma explicação -, os sonares das equipes de buscas encontraram, acidentalmente, um velho navio afundado na área que pesquisavam.

Mas, como aquele não era o foco da missão, o achado foi ignorado, embora tudo indicasse que se tratava de uma embarcação que teria afundado há mais de um século, embora sem nenhum registro – clique aqui para ler sobre este caso.

"Todo naufrágio tem uma história a contar", resume o pesquisador agora encarregado de responder a uma pergunta igualmente instigante: que navio é aquele que jaz partido ao meio no fundo do Atlântico?

 

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.