PUBLICIDADE
Topo

Histórias do Mar

Filha de Amyr Klink partirá, sozinha, para cruzar o Atlântico com um barco

Conteúdo exclusivo para assinantes

Jorge de Souza

06/08/2021 04h00

Seguindo os passos do pai, Tamara Klink, de 24 anos, filha do mais famoso navegador do Brasil, Amyr Klink (que, entre outras façanhas, atravessou o oceano Atlântico com um barco a remo, 37 anos atrás), está prestes a partir do porto de Lorient, na França, com o objetivo de também cruzar o Atlântico e chegar ao Brasil navegando com um veleiro de pouco mais de oito metros de comprimento.

E sozinha – como seu pai sempre gostou de navegar.

Será apenas a segunda travessia em solitário de Tamara.

A primeira foi setembro do ano passado, entre a Noruega (onde ela comprou o próprio barco, com dinheiro emprestado por um amigo) e a França, onde cursava um curso de arquitetura naval, que acaba de completar.

Três meses sozinha no mar

A previsão é que a nova travessia, quatro vezes maior que a anterior, dure cerca de três meses, já que, antes de efetivamente cruzar o Atlântico, o que deve acontecer só no final do mês que vem, ela irá fazer uma série de escalas no caminho (Espanha, Portugal, Ilha da Madeira, Cabo Verde), para descansar e aguardar melhores condições do tempo, antes de seguir adiante.

"Ainda estou ganhando experiência e, por isso, vou com calma. Não sou nenhuma super-heroína e tenho consciência das minhas limitações", diz a jovem navegadora, dona de uma surpreendente humildade para quem nasceu e cresceu ouvindo as impressionantes histórias do pai – que, por sinal, nem foi consultado quando ela decidiu comprar um barco por iniciativa própria e começar a navegar em solitário, como ele sempre fez.

"A Tamara sempre foi muito independente e determinada", diz a mãe, Marina Klink. "Quando ela decide fazer algo, planeja tudo sozinha. Mas pede conselhos ao pai, sempre que acha necessário".

Temor pelos ventos

A previsão de Tamara é chegar ao Brasil, na cidade de Recife, no final de outubro, após um período que ela estima entre 20 e 25 dias cruzando, sozinha, o segundo maior oceano do mundo.

"Vai depender dos ventos", explica. "Ou da falta deles…", brinca, numa alusão a travessia do trecho da Linha do Equador, no meio do Atlântico, onde sempre há grandes calmarias.

"Em um veleiro, a falta de ventos é uma das piores coisas que existe. Você fica parada no meio do mar, sem conseguir se movimentar. É como ficar sem combustível", compara.

Quanto mais longe, melhor

Por isso, uma das precauções de Tamara será aumentar a quantidade de água e comida a bordo, antevendo a possibilidade de a travessia durar mais que o previsto.

Outro cuidado será com a segurança, tanto dela quanto do barco.

"Meu pai sempre me ensinou a não forçar nem maltratar o barco, porque a minha segurança depende dele", diz. "E, também, para ficar sempre longe da costa, porque o maior risco de quem está no mar é a terra firme, que tem pedras, praias e recifes".

Caso tenha algum problema de saúde durante a viagem, Tamara terá acesso a um médico à distância, através da telemedicina oferecida por um dos seus três patrocinadores, a Prevent Senior Sports – os outros dois apoiadores da empreitada são a Localiza e a Magalu.

Sempre presa ao barco

Durante toda a travessia, Tamara também usará uma espécie de cinto de segurança, que a manterá atada ao barco, o tempo todo.

"Quando se está sozinha no mar, a pior coisa que pode acontecer é cair na água, porque o veleiro segue em frente e você fica", explica Tamara, que sabe bem o que diz, porque já foi sete vezes navegando até a Antártica, com a família, a primeira delas quando tinha apenas oito anos de idade.

Não sente medo?

Desde a primeira travessia em solitário que fez, em setembro do ano passado, Tamara passou a aprender a lidar com seus temores e receios.

E não tem nenhum problema em dizer que, em certas situações, sente algum medo.

"O medo ensina a gente a não ultrapassar nossos limites. Na dose certa, é um santo remédio", diz a jovem navegadora, que nem de longe se considera uma aventureira.

Aliás, ela detesta essa palavra.

"Aventura quem faz é quem não se prepara nem planeja. E isso é o que eu mais faço, antes de qualquer viagem".

Peixinhos coloridos no barco

O barco de Tamara é um pequeno veleiro, com quarto, sala e cozinha, que ela batizou de Sardinha ("Porque é um peixinho que ninguém dá nada por ele, mas vence grandes distâncias", explica) e decorou com peixinhos coloridos pintados no casco, cada um deles com o nome de algum amigo ou amiga escrito dentro.

"Vou navegar sozinha, mas terei a companhia deles durante todo o percurso", diz, com eterno bom humor.

Durante a viagem, Tamara também produzirá pequenos vídeos, que compartilhará nas redes sociais, além receber e transmitir mensagens, sempre que houver sinal de internet.

Também será possível acompanhar em tempo real a sua localização no mar, através de um aplicativo, que pode ser acessado clicando aqui.

Quer inspirar outras mulheres

"Sempre tive o sonho de atravessar o Atlântico sozinha, comandando o meu próprio barco, como fez o meu pai, no passado. Mas, além disso, o objetivo dessa viagem é estimular outras pessoas, especialmente as mulheres, a fazerem o mesmo, caso tenham o mesmo sonho que eu. Adoraria servir de inspiração para elas, assim como outras mulheres também serviram de inspiração para mim".

Além do pai, outras jovens navegadoras também serviram de inspiração para a brasileira.

Uma delas foi a holandesa Laura Drekker, que, dez anos atrás, tornou-se a mais jovem velejadora da História a dar a volta ao mundo navegando sozinha, mas que não teve o seu feito oficializado como recorde por conta de uma questão polêmica: ela tinha apenas 14 anos de idade quando foi para o mar, o que levou a Justiça do seu país a tentar impedi-la de todas as formas (clique aqui para ler esta história que, na época, deu o que falar).

Já Tamara, aos 24 anos de idade, é uma jovem adulta, inteligente, cuidadosa e responsável, que sabe muito bem o que quer, o que comprova que, no caso da família Klink, filho de peixe, peixinho é.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.