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O que pode ter acontecido com o submarino que sumiu no mar da Indonésia

Jorge de Souza

22/04/2021 14h08

Submarino desaparecido e tripulação em foto de 2012 (Crédito: Reuters)

Desde o final da tarde da última terça-feira (20), pelo horário brasileiro, a Indonésia vive o drama do submarino KRI Nanggala, que desapareceu quando fazia um exercício militar submerso, entre as ilhas de Bali e Java, com 53 tripulantes a bordo.

Além de não saber o que aconteceu com o KRI Nanggala, que subitamente parou de ter contato com sua base, a angústia vem do fato de que, em caso de emergências assim, submarinos daquele tipo só costumam oferecer oxigênio para os tripulantes por 72 horas.

Ou seja, até a tarde de amanhã, sexta-feira (23), também pelo horário brasileiro.

Ou bem menos que isso, no caso de uma avaria mais séria, o que tudo indica que possa ter sido o caso.

Falha elétrica?

Ninguém ainda tem a menor ideia concreta do que pode ter acontecido com o submarino, muito menos onde ele se encontra, mas todas as evidências apontam para uma falha mecânica ou elétrica que tenha provocado o seu naufrágio.

Para um submarino, ficar debaixo d´água não seria problema algum, não fosse a questão da limitação de oxigênio a bordo e a profundidade da região onde ele supostamente se encontra, que ultrapassa bastante o limite máximo para aquele tipo de modelo.

Fundo demais?

A Marinha da Indonésia, a quem o submarino pertence, diz que o KRI Nanggala tem capacidade para descer até aos 500 metros de profundidade, o que, no entanto, é contestado por alguns especialistas, que dizem que ele só é seguro até metade disso.

No entanto, a profundidade no local onde foi feito o último contato com o submarino – quando, então, o seu comandante pediu permissão para submergir – beira, em alguns pontos, os 700 metros.

Teria sido esmagado pelo mar?

Quando um submarino ultrapassa o limite de profundidade, sua estrutura passa a sofrer a violenta pressão externa e entra em colapso, podendo ser esmagado pelo mar.

E, quando isso acontece, não há como sobreviver.

Será possível um resgate?

Além disso, mesmo o que o submarino ainda esteja intacto e com seus tripulantes vivos, resgates desse tipo a grandes profundidades são praticamente impossíveis.

Muito menos em um curto espaço de tempo, antes que acabe o oxigênio.

Será possível encontrá-lo?

Antes disso, porém, é preciso, obviamente, achar o submarino, o que não é nada fácil, apesar de as equipes de resgate estarem usando navios com equipamentos que conseguem rastrear o fundo do mar.

O problema é que a região do Estreito de Bali, onde supostamente aconteceu o afundamento, é repleta de de gargantas e reentrâncias no fundo do mar, que podem facilmente esconder um submarino inteiro.

Ou ocultar, com ainda mais facilidade, pedaços dele, dificultando ainda mais as buscas, no caso de o pior já ter acontecido.

Mancha de óleo seria dele?

Ontem, um helicóptero que atua nas buscas identificou machas de óleo na superfície do mar, na mesma região onde o submarino fez o seu último contato.

O achado foi visto como um bom e mau sinal.

Caso o óleo provenha de fato do submarino desaparecido, o que parece provável, ele indicaria uma área a ser varrida com mais atenção pelas equipes de buscas, mas, ainda assim, não muito precisa, porque fluídos, quando emanados das profundezas, sofrem ações intensas das correntes marinhas até chegarem a superfície, o que significa que o submarino pode não estar exatamente ali.

Mas, de qualquer forma, é uma boa pista para concentrar as buscas.

Tripulantes ainda estariam vivos?

Já o eventual vazamento do óleo em si, pode indicar duas coisas: uma boa e outra ruim.

A boa é que ele pode ter sido provocado intencionalmente pelos tripulantes, como forma de indicar o local onde estão (procedimento já usado em situações semelhantes, a baixas profundidade), ou como uma tentativa de aliviar o peso do submarino para que ele suba, totalmente ou ao menos um pouco, a fim de escapar do risco de compressão do casco pela pressão do fundo do mar.

Qualquer que fosse o caso, no entanto, serviria para indicar que os tripulantes (ou parte deles) ainda estão vivos.

Submarino já teria sido destruído?

Já a hipótese ruim é que o vazamento do óleo indique uma ruptura dos tanques de combustível, causada pela pressão excessiva.

Neste caso, o mais provável é que não apenas os tanques tenham sido afetados e sim o submarino inteiro, que já teria colapsado.

Seria apenas falha na comunicação?

Outra teoria, bem mais otimista e bem menos levada a sério pelas equipes de buscas, sugere que, talvez, o sistema de comunicação do submarino tenha apenas apresentado problemas (talvez, por uma pane elétrica geral, que também pode ter levado o KRI Nanggala a uma descida descontrolada e impossibilitado de voltar à superfície), e que os tripulantes estejam sem ter como fazer contato.

Mas poucos acreditam nisso.

Ou que ainda estejam navegando submersos, alheios ao que acontece no mundo exterior, pela falha no sistema de comunicação, embora isso soe menos plausível ainda, porque, numa situação dessa, a primeira coisa que qualquer comandante faria seria retornar à superfície.

Velho demais para ainda navegar?

Após quase dois dias desde o sumiço do KRI Nanggala, contribui para a falta de esperanças em um final feliz o próprio histórico de uso do submarino indonésio.

O submarino foi construído em 1977, portanto 44 anos atrás, e já ultrapassou há muito a idade média de uso para modelos do seu tipo.

Além disso, de acordo com a própria Marinha da Indonésia, a última grande revisão feita no submarino desaparecido aconteceu há nove anos, em 2012 – embora a instituição também garanta que, no ano passado, ele tenha passado por uma manutenção.

O que dizem os especialistas?

"Quase ninguém mais opera um submarino tão antigo assim", resumiu, ao jornal inglês The Guardian, um especialista no assunto, o ex-almirante e historiador naval James Goldrick.

Já o porta-voz da Marinha da Indonésia, Julius Widjojono, resumiu o caso de outra forma, sintetizando em poucas palavras o drama dos 53 tripulantes do KRI Nanggala: " Vamos orar por eles"

Corrida contra o tempo

Acidentes com submarinos costumam ser bem mais fatais do que nos demais tipos de embarcações.

Sobretudo pelo tempo escasso para encontrar os que desaparecem no mar.

É uma corrida contra o tempo, sob a aflição de que, talvez, homens ainda estejam vivos no fundo do mar, a espera de um resgate.

Mas, na prática, acidentes desse tipo, mesmo quando os submarinos são encontrados, sequer permitem o resgate dos corpos.

Um caso bem parecido

O caso recente do gênero aconteceu três anos e meio atrás, na Argentina, quando o submarino ARA San Juan, da Armada daquele país, desapareceu, com 44 tripulantes a bordo, após o som de uma estranha explosão ter sido detectado por estações de rastreamento do mar, a milhares de quilômetros de distância.

Ninguém sobreviveu e o submarino ainda levou um ano inteiro para ser localizado, 900 metros abaixo da superfície (clique aqui para conhecer também essa dramática história).

Quase a mesma profundidade onde pode estar o KRI Nanggala.

Sobre o autor

Jorge de Souza é jornalista há quase 40 anos. Ex-editor da revista “Náutica” e criador, entre outras, das revistas “Caminhos da Terra”, “Viagem e Turismo” e “Viaje Mais”. Autor dos livros “O Mundo É Um Barato” e “100 Lugares que Você Precisa Visitar Antes de Dizer que Conhece o Brasil”. Criou o site www.historiasdomar.com, que publica novas histórias náuticas verídicas todos os dias, fruto de intensas pesquisas -- que deram origem a seu terceiro livro, também chamado "Histórias do Mar - 200 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos", lançado em abril de 2019.

Sobre o blog

Façanhas, aventuras, dramas e odisseias nos rios, lagos, mares e oceanos do planeta, em todos os tempos.